A França chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das grandes favoritas. Campeã do mundo em 2018 e vice de forma dramática contra a Argentina em 2022, a seleção esteve nas últimas duas finais e segue muito forte. Quando olhamos para o elenco, para a força do grupo e para o trabalho consolidado, não tem como tirá-la dessa lista. É claro que surpresas sempre podem acontecer — a própria França já protagonizou grandes decepções em copas neste século —, mas o fato é que ela entra certamente no topo entre as favoritas, impulsionada principalmente por sua imensa capacidade individual.


Embora o talento seja inegável, isso levante debates muito interessantes sobre o quão dominante essa França é, ou não, coletivamente. Essa talvez seja uma das principais marcas do trabalho do treinador Didier Deschamps. No comando desde 2012, ele assumiu pós-Eurocopa e liderou a seleção nas Copas de 2014, 2018, 2022 e, agora, na de 2026, que marca a sua despedida. Há, portanto, um caráter de reta final de um trabalho memorável e extremamente positivo, ainda que um questionamento seja frequente: Deschamps extrai tudo o que pode dessa seleção, considerando todo o talento individual que ela possui?


A Estratégia de Deschamps e o Paralelo com Ancelotti


É natural entender o porquê desse questionamento, que passa muito pelo fato de a França não ser, ao longo dos anos, uma seleção tão dominante na forma de jogar. No entanto, o contraponto possível é entender que a França simplesmente não faz questão de ser assim. Para muita gente, a referência de uma equipe dominante é aquela que quer ter a bola o tempo inteiro, que pressiona alto e empurra os adversários contra a parede. Sob o comando de Deschamps, a França não é isso na maior parte do tempo. Ela permite que os adversários joguem e tenham a posse de bola, muitas vezes rivalizando nesse aspecto com rivais que são individualmente inferiores. Isso me parece uma grande questão estratégica.


Dá até para traçar um paralelo com o perfil de Carlo Ancelotti. É claro que Ancelotti tem uma carreira muito maior em diversos clubes e ligas pelo planeta, mas a trajetória de Deschamps como treinador de seleção é altamente relevante e traz uma definição parecida: tentar potencializar as principais peças, sem fazer questão de ter um time coletivamente dominante. Isso resulta em uma seleção francesa que, em alguns momentos, vai marcar com um bloco médio e esperar, sem pressa para subir a pressão, mas que será muito difícil de superar protegendo a própria área (porque tem grandes defensores) e letal ao acelerar (porque tem grandes jogadores de frente).


O Histórico de Mudanças e a Busca pelo Equilíbrio


Para 2026, especificamente, a França tem um festival de grandes nomes, o que gera o exercício de como montar o time ideal encaixando todo mundo. Com Mbappé, Dembélé, Olise, Doué e Cherki, são muitos recursos individuais do meio para a frente. Dificilmente esses cinco estarão em campo ao mesmo tempo; o mais provável é que joguem três ou quatro deles. Antes de projetar o time atual, porém, vale lembrar que a França costuma trazer novidades em cima da hora. Em 2022, passou o ciclo testando três zagueiros e chegou na Copa jogando com linha de quatro e uma função totalmente nova para Griezmann. Em 2018, a Copa foi muito marcada pela presença de Matuidi.


Essas compensações históricas servem para entender como Deschamps deixa suas peças principais mais confortáveis e decisivas, mesmo que o time não domine o tempo todo. Em 2018, o Matuidi era o meia pela esquerda em um teórico 4-2-3-1 assimétrico. Enquanto Mbappé era o ponta pela direita e Griezmann o camisa 10, Matuidi funcionava na prática como um terceiro meio-campista junto a Pogba e Kantê. Isso dava sustentação para que Griezmann e Mbappé desequilibrassem perto de Giroud. Naquela época, o Mbappé corria um pouco mais para marcar por ser mais jovem, e a França ainda contava com laterais bem defensivos, como Pavard e Lucas Hernández.


Em 2022, a compensação tática foi ainda mais surpreendente. A ideia era ter Mbappé atacando os espaços vindo da ponta esquerda, que é onde ele mais gosta de jogar, sem a obrigação de trombar com os zagueiros como um 9 clássico. Para reequilibrar o time sem a bola, Griezmann teve uma dedicação gigantesca: ele baixava para virar um segundo volante por dentro, fechando uma segunda linha de quatro junto com Rabiot (que abria pela esquerda) e Dembélé (que baixava pela direita). Isso permitia que Mbappé ficasse mais solto e descansado na altura do meio-campo. Sabendo que a França permite que o adversário ataque, recuperar a bola com um Mbappé descansado para correr nas costas da defesa era uma arma e tanto.


O Cenário para 2026: A Ausência de Griezmann e a Baixa de Ekitike


Essa estratégia funcionou tão bem que Mbappé chega a esta Copa com 12 gols somados, podendo tranquilamente pensar em bater o recorde de Klose (16 gols) já em 2026 ou em Copas futuras. No entanto, um ponto crucial para este novo ciclo é a ausência de Griezmann, que se aposentou da seleção. Ele foi o grande craque e a engrenagem do equilíbrio coletivo da França na última década. Sem ele, a França perde esse mentor, embora tenha várias outras peças de muita qualidade.


Olhando para a montagem do ataque atual no 4-2-3-1, muitos pensam em Mbappé como o 9 centralizado, mas ele rende melhor com liberdade para flutuar ao lado de outro atacante. Nos testes de março, contra o Brasil, Deschamps vinha testando Ekitike para fazer essa função: sem a bola, ele fechava o corredor esquerdo e virava o 9 na marcação para liberar Mbappé; com a bola, abria espaço e permitia que Mbappé caísse pelo lado esquerdo. Infelizmente, a lesão de Ekitike foi uma baixa muito relevante para o plano de Deschamps.


Sem Ekitike, Marcus Thuram surge como o favorito para exercer esse papel de戸 compensação, algo que ele já fez vindo do banco em 2022. Com bola, Thuram aparece mais entre os zagueiros; sem bola, ele ajuda muito mais na marcação do que Mbappé. Caso Deschamps não opte por Thuram ou Kolo Muani nessa função, o cenário muda e abre espaço para jogadores de outras características no lado esquerdo, como o meia driblador Désiré Doué ou a velocidade de Barcola em transições rápidas — este último mais provável para o segundo tempo.


A Montagem do Time: Defesa, Meio-Campo e as Joias do Ataque


Passando posição por posição, começamos pelo gol, onde Maignan é o titular indiscutível. Na lateral direita, Koundé é a opção mais equilibrada e conservadora para grandes jogos, embora Malo Gusto seja uma alternativa interessante por sua versatilidade ofensiva de atacar por dentro. Zaire-Emery também corre por fora nessa rotação. Na zaga, Salibá e Upamecano formam a dupla titular, com Konaté perdendo espaço após uma temporada inferior. Salibá é o grande pilar defensivo e mais confiável, enquanto Upamecano tem ótimo recurso na saída de bola, apesar de alguns erros.


Pelo lado esquerdo, Théo Hernandez deve ser o titular, oferecendo suas tradicionais arrancadas em velocidade para quebrar a pressão adversária, com Lucas Digne como alternativa. No meio-campo, a dupla central titular tende a ser Tchouaméni e Rabiot. Tchouaméni traz imposição física e passes longos na primeira volância — uma característica diferente de Kanté, que aposta mais na condução de bola —, enquanto Rabiot ajuda a dar o equilíbrio tático, cobrindo as subidas de Théo Hernandez e flutuando para o lado esquerdo. Vale notar que Camavinga acabou sendo uma ausência relevante na lista final por questões físicas.


No setor ofensivo, Michael Olise tem sido o grande destaque, jogando mais por dentro como um 10 clássico devido à presença de Dembélé espetado pela direita. Olise fez uma temporada espetacular pelo Bayern de Munique e chega em grande fase. Uma variação interessante vista contra o Brasil foi Dembélé jogando mais por dentro, quase como um terceiro meio-campista, gerando dúvidas na marcação adversária e permitindo que Olise fizesse o movimento inverso, de dentro para fora, atacando o corredor direito.


Conclusão: O Poder de Castigar os Adversários


Essa distribuição ofensiva busca tornar o ataque francês imprevisível, algo que o próprio Deschamps destacou em coletiva. Correndo por fora no banco, há ainda o talento mágico de Rayan Cherki, capaz de achar passes fora da caixa e desestruturar defesas fechadas no um contra um, além de permitir variações onde empurraria Olise e Dembélé para as pontas.


Seja propondo o jogo com atletas criativos como Cherki, Doué e Mbappé, ou explorando os contra-ataques em campo aberto, a França tem recursos de sobra para castigar os adversários. Defensivamente, o time é muito protegido e raramente se expõe como a Alemanha, que costuma sofrer em transições. Estrategicamente, Deschamps abre mão de ser o mais dominante para ser o mais cirúrgico e adaptável. Essa capacidade de jogar de diferentes formas é, ao mesmo tempo, o motivo de muitas críticas e a maior virtude que transformou a França em uma potência vencedora ao longo dos anos.