Guia da Copa do Mundo 2026

Imagem: FIFA

 

 

Guia da Copa do Mundo 2026


Bem-vindo ao Guia da Copa do Mundo 2026. Com o torneio se aproximando, preparamos uma análise detalhada de cada grupo, destacando as forças, estilos de jogo e expectativas de cada seleção. Organizado por grupos, o guia aprofunda as características de cada equipe, revelando os caminhos que podem trilhar rumo às fases decisivas da competição.

Novo formato: agora com 48 seleções

 

A FIFA implementou mudanças históricas para a Copa de 2026. O torneio passará de 32 para 48 seleções, ampliando significativamente o número de países participantes.

O formato funcionará da seguinte forma:

12 grupos com 4 seleções cada

Classificação dos dois melhores de cada grupo

Os 8 melhores terceiros colocados também avançam

Mata-mata começando nos 16 avos de final

Com isso, o total de jogos sobe para 104 partidas.

 

Cidades-sede e países

 

Estados Unidos

 

New York City / New Jersey

Los Angeles

Dallas

Miami

Atlanta

Seattle

Houston

Philadelphia

Kansas City

Boston

Área da baía de San Francisco

 

México

  • Mexico City
  • Guadalajara
  • Monterrey

Canadá

  • Toronto
  • Vancouver

Os estádios da Copa do Mundo 2026

 

A Copa do Mundo de 2026 terá alguns dos estádios mais modernos e icônicos do planeta. Muitos deles já recebem partidas da NFL, grandes shows internacionais e finais históricas. A seguir, conheça um pouco sobre cada arena confirmada para o Mundial.



MetLife Stadium

Será o palco da grande final da Copa do Mundo 2026. Localizado na região de Nova York, o estádio tem capacidade para mais de 80 mil torcedores e é casa das equipes da NFL New York Giants e New York Jets. É conhecido pela enorme estrutura moderna e por receber grandes eventos internacionais.


Estadio Azteca

Um dos estádios mais lendários da história do futebol mundial. Já recebeu as finais das Copas de 1970 e 1986, eternizadas por exibições geniais de Pelé e Maradona. Em 2026, fará história ao se tornar o primeiro estádio do planeta a sediar três partidas de abertura da Copa do Mundo. É ali que a bola rolará pela primeira vez no torneio, no dia 11 de junho, com a estreia da seleção mexicana.

SoFi Stadium
Considerado um dos estádios mais tecnológicos do mundo, possui arquitetura futurista, cobertura translúcida e um gigantesco telão suspenso em 360 graus. Inaugurado em 2020 na região de Los Angeles, a arena é uma referência em entretenimento esportivo. No torneio de 2026, ele terá um papel de enorme destaque ao sediar a partida de abertura da seleção dos Estados Unidos na competição

AT&T Stadium

Conhecido como “Palácio do Cowboy”, é um dos maiores estádios da NFL e impressiona pelo tamanho e luxo. Seu telão central é um dos maiores já instalados em arenas esportivas. Deve receber partidas decisivas da Copa.


Mercedes-Benz Stadium

Famoso pelo design inovador do teto retrátil em formato circular, o estádio é uma das arenas mais modernas dos Estados Unidos. Também é reconhecido pela sustentabilidade e pela experiência tecnológica oferecida ao público.


Hard Rock Stadium

Localizado em Miami, o estádio combina clima tropical e atmosfera vibrante. Além do futebol americano, recebe Fórmula 1, tênis e grandes shows. Deve ser uma das sedes mais animadas do Mundial.


Lumen Field

Conhecido pela torcida extremamente barulhenta, o estádio de Seattle possui uma atmosfera intensa durante os jogos. Sua arquitetura oferece excelente acústica e visão privilegiada do campo.


NRG Stadium

Foi um dos primeiros grandes estádios dos EUA com teto retrátil. Possui estrutura moderna e costuma receber eventos esportivos de enorme porte, incluindo Super Bowl e partidas internacionais.


Lincoln Financial Field

Casa do Philadelphia Eagles, é conhecido pela atmosfera intensa criada pelos torcedores. O estádio passou por modernizações recentes e terá papel importante durante o torneio.


Arrowhead Stadium

Um dos estádios mais tradicionais do futebol americano. O local é famoso pelo recorde de barulho da torcida e pela paixão dos fãs do Kansas City Chiefs.


Gillette Stadium

Localizado próximo a Boston, o estádio é conhecido por sediar partidas históricas da NFL e por sua excelente infraestrutura para grandes eventos internacionais.


Levi’s Stadium

Arena moderna da região de San Francisco, destaca-se pelo foco em sustentabilidade e tecnologia. Foi palco do Super Bowl 50 e receberá importantes jogos da Copa.


BC Place

Principal estádio do Canadá na costa oeste, possui teto retrátil e localização privilegiada no centro de Vancouver. Será uma das principais sedes canadenses do Mundial.


BMO Field

Tradicional casa do futebol canadense, o estádio será ampliado especialmente para a Copa. Toronto receberá jogos importantes da fase de grupos.


Estadio BBVA

Um dos estádios mais bonitos da América Latina, chama atenção pela vista impressionante das montanhas ao fundo. É moderno, confortável e muito elogiado pelos torcedores.


Estadio Akron

Conhecido pelo design moderno inspirado em um vulcão, é um dos estádios mais tecnológicos do México e receberá partidas importantes do torneio.


Com estádios gigantescos, tecnologia de ponta e ambientes históricos, a Copa do Mundo 2026 promete oferecer uma experiência inédita para jogadores e torcedores do mundo inteiro.

Maple, Zayu e Clutch: Os Mascotes Oficiais da Copa do Mundo 2026!

Em 2026, o torneio não apenas receberá mais seleções, mas também fará história ao ser sediado por três países de forma conjunta: Canadá, México e Estados Unidos.

 

Para representar essa união inédita na América do Norte, a FIFA decidiu inovar: em vez de apenas um personagem, fomos apresentados a um trio de mascotes oficiais: Maple, Zayu e Clutch. Cada um deles carrega a identidade, a fauna e o espírito de seu país natal.

 

A Bola da Copa do Mundo


Divulgação/AdidasSensor de movimento Trionda, Bola da Copa 2026



Anunciada pela Fifa em parceria com a Adidas, a Trionda, é a bola oficial da Copa do Mundo 2026.

As seleções 


Grupo A: México, África do Sul, Coreia do Sul e República Tcheca.


México


O México chega à Copa do Mundo cercado por expectativas e pela necessidade de deixar para trás a imagem negativa construída na edição anterior. Contando com o apoio de sua torcida e com o Estádio Azteca como um de seus principais trunfos, a seleção mexicana busca transformar o fator casa em vantagem competitiva. Não por acaso, as únicas ocasiões em que alcançou as quartas de final ocorreram justamente em Mundiais disputados em território mexicano, em 1970 e 1986. Como um dos países-sede da competição de 2026, a esperança é repetir esse feito e superar os obstáculos que têm marcado sua trajetória recente.

O retrospecto mais próximo aumenta a cobrança. Em 2022, o México ficou abaixo das expectativas ao ser eliminado ainda na fase de grupos, terminando atrás de Argentina e Polônia na classificação. Além disso, a equipe carregava o peso de uma sequência incômoda de sete eliminações consecutivas nas oitavas de final, um ciclo que reforçou a sensação de estagnação e ampliou a pressão por uma campanha mais consistente diante de sua torcida.

Sob o comando técnico atual de Javier Aguirre, a seleção aposta em uma renovação geracional (com jovens como o meia Gilberto Mora ganhando espaço ao lado de veteranos experientes). O planejamento para o gol sofreu um forte impacto com a lesão grave de Luis Malagón no início de 2026, ele que havia sido o titular no título da Copa Ouro em 2025. Esse imprevisto forçou a convocação do veterano Guillermo Ochoa na data FIFA de março. Aos 40 anos e conhecido por crescer em Copas, Ochoa surge como uma sombra e uma liderança experiente, mas a tendência natural é que Tala Rangel assuma a titularidade no mundial.

Tradicionalmente agressivo no ataque, o México tenta controlar a posse no campo do adversário usando um 4-3-3 flexível que se transforma em 3-4-3 na fase de construção. Os laterais sobem muito para dar amplitude. Pela direita, Israel Reyes se estabeleceu com uma função mais defensiva, atuando na base da saída de bola quase como um terceiro zagueiro — tendo Jorge Sánchez como alternativa mais ofensiva. Pela esquerda, Jesús Gallardo é o dono da posição e tem total liberdade para atacar o corredor. No miolo da zaga, o cenário é estável e sem contestação, com a dupla formada por Johan Vásquez e César Montes consolidada após os amistosos de março.

O setor de meio-campo adota uma estrutura baseada no 4-3-3, mas lida com problemas físicos frequentes. O primeiro volante e pilar do time é o experiente Edson Álvarez (autor do gol do título da Copa Ouro contra os Estados Unidos), mas suas lesões recentes abriram espaço para Erik Lira mostrar serviço. Para a segunda função do meio, o desfalque é definitivo: Marcelo Ruiz sofreu uma lesão grave de ligamento e está fora da Copa. Isso abriu caminho para Álvaro Fidalgo, jogador espanhol formado na base do Real Madrid que fez carreira no México (e recentemente foi para o Betis). Fidalgo já é bem conhecido da torcida e oferece muita qualidade no passe e na construção desde a defesa.

A grande esperança de criatividade e o principal símbolo da juventude mexicana é Gilberto Mora. Destaque do Mundial Sub-20 em 2025 e já testado na Copa Ouro, Mora chega à Copa do Mundo com apenas 17 anos com status de potencial titular. Embora exista o debate sobre o peso de colocar tamanha responsabilidade em um jovem em uma Copa em casa, seu talento em espaços reduzidos o credencia para a vaga. Como alternativa para essa função mais avançada ou para as pontas, Aguirre testou Brian Gutiérrez, atleta nascido nos Estados Unidos que se destacou no início de 2026 pelo Chivas.

Nas pontas, Roberto Alvarado é o favorito pelo lado direito, enquanto a ponta esquerda vive uma disputa aberta entre Alexis Vega e Julián Quiñones. Quiñones é colombiano de nascimento, construiu carreira no futebol mexicano e vive grande fase goleadora no Al-Qadsiah, da Arábia Saudita, oferecendo uma verticalidade agressiva que complementa a camisa 9.

A referência central do ataque continua sendo o veterano Raúl Jiménez. Apesar de ter perdido os holofotes por um tempo devido à grave lesão na cabeça sofrida há alguns anos, Jiménez é o titular por sua capacidade de fazer o pivô e dar sustentação ao ataque. O jovem Santiago Giménez, que teve boa passagem pela Holanda mas sofreu para se firmar no Milan e também se lesionou, corre por fora como opção.
Contudo, o grande gargalo tático é a transição defensiva. Quando o bloco avança para pressionar, deixa muito espaço às costas dos volantes, o que se torna um perigo imenso contra os velocistas deste grupo.



África do Sul



A seleção da África do Sul se apresenta nesta Copa do Mundo de 2026 após um hiato considerável. São 24 anos sem conseguir uma classificação dentro de campo — já que em 2010 a participação veio por direito de país-sede — e 16 anos longe do maior palco do futebol mundial. É um retorno pesado do ponto de vista nostálgico para quem se acostumou com o carisma dos Bafana Bafana.

No entanto, o ponto mais fascinante desse projeto comandado pelo experiente técnico belga Hugo Broos é a estrutura do time. A comissão técnica conseguiu replicar na seleção o ecossistema tático do clube mais dominante do país: o Mamelodi Sundowns. Um time que, embora ainda distante do grande público europeu, foi semifinalista da Champions Africana, esteve no Mundial de Clubes de 2025 e serve como a verdadeira espinha dorsal da seleção.

É impossível não olhar para o Grupo A desta Copa e não sentir o peso das coincidências históricas. A Coreia do Sul, adversária nesta chave, nos remete a 2002, a última Copa que os sul-africanos disputaram via Eliminatórias. E o reencontro com o México traz imediatamente à memória o jogo de abertura de 2010, aquele gol antológico do Siphiwe Tshabalala.

Agora, a história se repete, mas em solo mexicano. A África do Sul entra no grupo teoricamente como o "patinho feio", disputando espaço com a favorita Coreia do Sul (que tem teto competitivo alto, se resolver seus problemas de oscilação) e a sempre física República Tcheca de Jaroslav Šilhavý.

O grande mérito de Hugo Broos foi resgatar um conceito que andava em desuso no futebol moderno globalizado pós-Lei Bosman: o bloco de clube como base da seleção. Sete ou oito titulares absolutos convivem diariamente no Mamelodi Sundowns, time que foi muito bem moldado taticamente pelo português Miguel Cardoso (ex-Celta de Vigo). Isso acelera processos, traz automatismos e uma memória tática valiosíssima para torneios de tiro curto.


Embora no cenário local o Sundowns seja um time de posse asfixiante, Broos sabe equilibrar isso com muito pragmatismo no nível competitivo de uma Copa do Mundo. O time flerta com o 4-3-3, mas tende a se consolidar num 4-2-3-1 mais protegido, ou até mesmo numa linha de 5 atrás em momentos de forte pressão (5-4-1). A África do Sul não é um time que se sente desconfortável sem a bola. Broos implementou muito rigor no equilíbrio pós-perda e na compactação em bloco médio. O problema mora no desenho do 4-4-2 quando Mocoena fica sobrecarregado: se os zagueiros (Mokwena/Esnat) afundarem demais a linha defensiva, cria-se um espaço perigoso entre as linhas, um prato cheio para adversários com meias criativos.


A engrenagem começa lá atrás com Ronwen Williams, um goleiro muito seguro e fundamental para qualificar o início das jogadas. O time tem predileção por iniciar a construção pelo lado esquerdo com Modiba, buscando passes limpos para quebrar linhas por dentro.

Contudo, não há vergonha nenhuma em acionar o passe longo e direto. É aqui que entra a figura de Lyle Foster. O centroavante do Burnley (que fez boa Premier League apesar do rebaixamento da equipe para a Championship) tem ótima mobilidade, sabe jogar de pivô e é o alvo perfeito para sustentar a bola e acionar a chegada da segunda linha.

Teboho Mocoena é o verdadeiro termômetro do meio-campo. Atua como o "âncora", faz a leitura perfeita de coberturas quando Adams se lança ao ataque e pode até recuar entre os zagueiros para qualificar a saída de três. Oswwin Appollis e Elias Mokwana são pontas agudos, verticais, que garantem a profundidade pelos lados e pisam na área para finalizar quando o time acumula peças no setor ofensivo.

O grande trunfo da África do Sul nesta Copa de 2026 não é o brilho individual — afinal, não estamos falando de um elenco recheado de estrelas das cinco grandes ligas europeias —, mas sim a capacidade de funcionar como um organismo único. Se o adversário morder a isca da pressão alta e deixar as costas expostas, as transições em velocidade desse time, baseadas no entrosamento do Mamelodi Sundowns, podem machucar.

Resta saber se essa sincronização tática de clube será suficiente para bater de frente com a hierarquia física e técnica dos adversários do Grupo A.





Coreia do Sul



A Coreia do Sul atual vai muito além da dependência de Heung-min Son. No banco de reservas, há um equilíbrio estratégico promissor: a identificação de um ídolo histórico nacional combinada à visão metodológica e complementar do futebol europeu. O objetivo aqui é analisar os fatores que desenham o panorama dos sul-coreanos para 2026, dissecando o trabalho conjunto entre o técnico principal, Hong Myung-bo, e seu assistente, João Aroso.

Esse modelo de “duplo cérebro” sinaliza o amadurecimento de uma seleção que busca apagar a antiga impressão de ser um time composto por “Son e mais dez”. Após a crise enfrentada na última Copa da Ásia, o país parece decidido a evoluir coletivamente. Nesse cenário, a contratação de João Aroso foi uma jogada de mestre. O profissional, que já havia integrado a comissão de Paulo Bento e possui sólida formação na vanguarda tática portuguesa, agrega novos conceitos a Hong Myung-bo — uma lenda viva local que, curiosamente, está marcado na história do futebol espanhol por converter um dos pênaltis que eliminou a Fúria na Copa de 2002. Agora, em 2026, a meta da dupla é provar que encontrou a fórmula ideal para o elenco.

Existe, contudo, uma dualidade que pode ser perigosa. Por um lado, Hong Myung-bo prefere estruturar a equipe em um bloco médio-baixo, valorizando a troca de passes curta para atrair a pressão adversária e explorar os espaços em velocidade. Por outro, João Aroso — respaldado por anos de experiência como assistente de grandes técnicos e consolidado como peça-chave no futebol coreano — tende a um modelo mais associativo. Ele preconiza a busca pelo “terceiro homem” na saída de bola e automatismos para que os meias infiltrem nas costas da defesa, priorizando o protagonismo ofensivo por meio da posse.

Resta saber se essa mistura funcionará na prática, já que a Coreia do Sul chega ao torneio cercada de incertezas sobre o seu real desempenho. Sorteada no Grupo A ao lado de México, África do Sul e República Tcheca, a seleção deve travar um duelo direto com os tchecos pela segunda vaga rumo aos mata-matas. É um grupo equilibrado e repleto de incógnitas: a África do Sul precisará de um encaixe defensivo perfeito; o México carrega uma cobrança midiática esmagadora; e a República Tcheca provou na repescagem ser um oponente defensivamente duríssimo. Em condições normais, a Coreia poderia ser apontada como favorita da chave, mas o histórico recente de atuações abaixo do esperado liga o sinal de alerta.

Do ponto de vista tático, a assinatura de Hong Myung-bo se apoia em uma notável flexibilidade estrutural, geralmente desenhada no 5-4-1. Esse sistema se caracteriza por um “quadrado” bem definido no meio-campo e pela liberdade concedida a Heung-min Son, além do forte apoio dos alas em amplitude e da liderança defensiva de Kim Min-jae. O zagueiro do Bayern de Munique é o pilar de confiança para ditar o ritmo e qualificar a saída de bola. A formação costuma se moldar conforme o nível do adversário, explorando a capacidade adaptativa do elenco.

No aspecto individual, os meias-atacantes têm total liberdade para flutuar para as pontas. É o caso de Kang-in Lee, jogador extremamente versátil que pode atuar como volante criativo, meia centralizado ou ponta (funções que já exerceu no Valencia e no PSG), destacando-se pela excelente capacidade de associação. O mesmo vale para Jae-sung Lee, encarregado de ocupar a zona de três quartos do campo para aproveitar as segundas bolas geradas pelas jogadas de Son.

Esses automatismos que dão liberdade aos meias nascem da variação tática da equipe. Dependendo do contexto, o 5-4-1 se transforma facilmente em um 3-4-2-1 ao adiantar os alas. Em outras situações, o time pode se posicionar em um 4-4-2, recuando Seol Young-woo para compor uma dobra de laterais com Lee Ki-je — uma das grandes surpresas da convocação —, o que fortalece a compactação em bloco médio-baixo, onde o sacrifício defensivo de todos é inegociável.

A engrenagem começa lá atrás, a partir do goleiro e de Kim Min-jae. A presença do zagueiro do Bayern eleva o patamar da Coreia do Sul: ele domina o início das jogadas, vence duelos físicos e lê perfeitamente os espaços vazios no meio-campo. Essa liderança transmite a segurança necessária para que nomes como Paik Seung-ho e Park Jin-seob funcionem como esteios na base da jogada, projetando os demais meio-campistas ao ataque assim que a bola ultrapassa a primeira linha de pressão.

Apesar dos ensaios de um jogo associativo mais cadenciado por parte de Aroso, a Coreia do Sul se destaca mesmo quando acelera. O time transita da defesa para o ataque em poucos segundos e com raros toques, evitando retenções desnecessárias. Isso ocorre por dois motivos: a falta de características técnicas para um jogo de paciência na maioria do elenco e a eficiência desse estilo direto. Embora Kang-in Lee e Jae-sung Lee tenham qualidade para ditar o ritmo e clarear lances entrelinhas, a equipe prefere não arriscar e aposta na velocidade de alas profundos como Seol e Kim Tae-hwan.

Diante disso, Heung-min Son não joga como um centroavante estático de referência. Ele atua com muita mobilidade, caindo pelos flancos e arrastando a marcação graças à sua inteligência e velocidade de raciocínio. Embora o elenco conte com atacantes de maior presença de área, como Hwang Hee-chan, a comissão técnica prefere a dinâmica móvel de Son para pegar as defesas rivais desprotegidas.

Defensivamente, a Coreia do Sul é paciente. A equipe não se incomoda em ceder a posse de bola e não sofre de ansiedade por passar longos períodos defendendo. O bloco médio-baixo se mantém compacto e com linhas estreitas, oferecendo um ferrolho difícil de ser quebrado pelos oponentes. O plano consiste em fechar espaços, induzir o erro adversário e acionar o contragolpe imediato com seus velocistas, tendo Son como a principal ponta de lança. A pressão pós-perda é intensa, mas executada de forma inteligente no próprio campo, poupando a energia física dos atletas ofensivos para o momento da transição.

Dentre os destaques individuais, vale reforçar o papel de Lee Ki-je. Aos 26 anos e vindo de uma excelente temporada no Gangwon FC, o defensor surpreendeu ao cavar seu espaço na lista após raras aparições anteriores. Sua polivalência para atuar como zagueiro, lateral-esquerdo ou meio-campista oferece a Hong Myung-bo o encaixe perfeito para mudar o esquema tático sem a necessidade de substituições.

No setor de criação, Kang-in Lee surge como o elemento diferenciado. Rápido, habilidoso e dono de uma visão de jogo apurada, ele consegue encontrar linhas de passe em espaços congestionados, sendo o elo indispensável entre o meio-campo e o ataque — uma virtude rara em seleções asiáticas.

Por fim, a liderança técnica e emocional permanece com Heung-min Son. Aos 33 anos e atualmente jogando no futebol norte-americano (MLS), o craque compensa a natural perda de explosão física com posicionamento inteligente, drible curto e um poder de finalização letal. Ele continua sendo o jogador mais decisivo do país.

Em suma, a Coreia do Sul caminha em busca de sua maturidade tática e estrutural, ironicamente no momento em que seu principal astro se aproxima da reta final da carreira. Corrigida a ingenuidade defensiva do passado, o grupo agora conta com alternativas sólidas para além do plano principal. O sucesso nesta Copa do Mundo dependerá de como a equipe vai reagir em um cenário fora da Ásia, onde não é o time a ser batido.


República Tcheca (Tchéquia)


A seleção da Chéquia retorna à Copa do Mundo após um longo hiato de 20 anos, revivendo a lembrança de sua última participação em 2006, quando a equipe repleta de expectativas acabou eliminada ainda na fase de grupos. Embora o país carregue uma história riquíssima no futebol desde os tempos da Tchecoslováquia, a geração atual não se compara tecnicamente ao nível elevado dos anos 2000, que contava com craques como Pavel Nedved, que hoje atua como gerente de futebol da federação. A vaga para o Mundial foi conquistada de forma dramática na repescagem, superando Dinamarca e Irlanda nos pênaltis sob o comando do veterano treinador Miloslav Koubek. Assumindo o cargo em dezembro de 2025, menos de um ano antes da Copa, Koubek herdou uma seleção em crise que havia acabado de perder para as Ilhas Faroé, conseguindo estabilizar o elenco em pouquíssimo tempo de trabalho.

A principal identidade desta equipe checa reside na sua extrema capacidade física, uma característica impulsionada pelo sucesso recente de clubes locais em competições europeias, especialmente o Slavia Praga, que exerce forte influência no número de convocados. O modelo de jogo é baseado no choque, na imposição física e em disputas constantes de jogo aéreo, sustentado por uma média de altura do time titular que fica acima de 1,85m.

Defensivamente, a Chéquia se estrutura em uma linha de cinco defensores sem a bola, optando por atuar em bloco médio ou baixo. O time evita pressionar de forma agressiva no campo de ataque porque sua linha de zaga demonstra desconforto ao defender em campo aberto ou enfrentar situações de velocidade no um contra um, preferindo proteger a própria área de forma compacta.

Na montagem da equipe, o goleiro Kovář assume a titularidade, protegido por um trio de zaga que tem como base Holeš pela direita, Hranáč como central e Krejčí pela esquerda, embora o jovem Chalupek apareça como alternativa para aumentar o vigor aéreo. Pelos lados do campo, o cenário é completamente assimétrico. Enquanto a ala direita é preenchida por Vladimir Coufal, jogador fundamental do Hoffenheim que entrega fôlego para cobrir o corredor e excelente precisão em cruzamentos, o lado esquerdo varia de acordo com o adversário. Para uma postura mais defensiva, atua Zelený, um zagueiro de origem que se comporta de maneira conservadora, enquanto Jurásek surge como opção de maior projeção ofensiva e Sadílek aparece como um meio-campista capaz de se sacrificar pela lateral.

No meio-campo, a grande engrenagem é Tomáš Souček, jogador do West Ham que, apesar de ter perdido a braçadeira de capitão por punição disciplinar do técnico, é peça indispensável pela sua capacidade de cobrir grandes áreas e infiltrar na área adversária para finalizar. Ao seu lado na volância, Červ vinha sendo o titular do ciclo, mas Koubek convenceu o experiente Darida a abdicar da aposentadoria para jogar a repescagem, adicionando maior controle e qualidade na saída de bola. À frente deles, Provod transita entre a armação e a recomposição, enquanto Šulc atua como o principal elemento criativo vindo de fora para dentro, flutuando como um falso ponta para abastecer o centroavante Patrik Schick, a grande referência técnica e esperança de gols do país.

Em termos de dinâmica tática, a Chéquia demonstra versatilidade nas saídas de bola, onde o zagueiro pela direita se posiciona como um lateral tradicional e libera Coufal para atacar como um meia avançado, aproveitando que Šulc e Provod centralizam o jogo. Caso o cenário exija uma postura de abafa total, Koubek costuma mudar o esquema para o 5-3-2 com a entrada de Chorý, um centroavante de quase dois metros de altura, para atuar ao lado de Schick e sobrecarregar a área adversária com cruzamentos. Alternativas como Chytil, que entrega mais mobilidade ao ataque, e Kara, que oferece drible pelo lado direito, completam o leque de opções de um time que pode não esbanjar criatividade técnica, mas promete ser um dos adversários mais duros de se enfrentar no embate físico.



Grupo B: Canadá, Catar, Bósnia e Suíça.


Canadá


O Canadá chega à Copa do Mundo 2026, cercado de expectativas. A equipe se transformou em uma das seleções mais verticais da Concacaf. Sem a preocupação de dominar as partidas através da posse de bola, os canadenses apostam em um futebol extremamente físico que promete trazer muita dor de cabeça aos adversários. Jogando em casa, com sedes em Vancouver e Toronto, o país carrega a enorme responsabilidade de ser um dos anfitriões do evento mundialista, e o ambiente hiperrevolucionado das arquibancadas precisa ser canalizado como combustível para abastecer um estilo de jogo baseado na eletricidade e no ritmo intenso.

O grande catalisador dessa mudança de postura atende pelo nome de Jesse Marsch. O treinador chegou com a missão clara de potencializar as transições rápidas e implementar o conhecido DNA da franquia Red Bull na seleção nacional. Na prática, Marsch erradicou os passes de segurança e a temporização do vocabulário da equipe, transformando cada recepção de bola em um passe para frente ou em uma condução vertical. O plano consiste em atrair o adversário para o seu próprio campo, convidando-o a atacar pelas laterais, para então ativar emboscadas asfixiantes. Ao recuperar a bola na intermediária defensiva, o Canadá não quer criar de forma estática, mas sim castigar as costas da defesa rival em alta velocidade, aproveitando os metros de campo aberto que foram deixados para trás.

Essa proposta exige um desdobramento físico hercúleo e um vaivém constante que testa o limite atlético do elenco. Embora o perfil do grupo seja naturalmente veloz, essa ausência de pausa esconde algumas carências perigosas, especialmente quando o Canadá enfrenta equipes que se fecham em blocos baixos. Em cenários de ataque posicional, o time costuma se mostrar plano e com pouca criatividade. Além disso, a seleção precisa de um volume muito alto de oportunidades para conseguir balançar as redes, sofrendo com a falta de pontaria em momentos decisivos. A repetição exaustiva de esforços na transição defensiva também pode cobrar o seu preço ao longo da competição, deixando dúvidas se as pernas vão aguentar a intensidade exigida até o fim.

Para fazer esse sistema funcionar no complexo Grupo B — onde enfrentarão a competitiva Suíça, a surpreendente Bósnia e Herzegovina e o atual campeão asiático Catar —, Jesse Marsch desenhou uma estrutura que flutua entre o 4-4-2 e o 4-2-2-2. A ideia central é estreitar os homens de frente para ocupar os corredores internos e abrir espaço para a subida dos alas. O grande farol e capitão do time continua sendo Alphonso Davies, o líder natural que dita o teto competitivo do país, seja atuando na lateral, na ponta ou até por dentro, graças ao seu poder de finalização e drible. Embora venha de uma temporada marcada por lesões que geram incertezas sobre sua forma física ideal, todo o desenho coletivo é moldado para favorecer a sua capacidade de romper jogos.

Ao lado de Davies, o atacante Jonathan David assume um papel vital devido à sua movimentação inteligente entre as linhas e à agressividade para atacar os espaços vazios. No miolo do meio-campo, jovens como Nathan Saliba e Ismaël Koné garantem a estabilidade e o balanço necessários, destacando-se pelo poder de desarme e pela clareza para clarear as jogadas logo após a roubada de bola. O Canadá entra em 2026 com uma proposta refrescante, agressiva e muito divertida de assistir, totalmente dependente de sua vitalidade e do fator emocional de jogar diante de sua torcida. Se o vigor físico for mantido e os principais astros corresponderem, os canadenses têm tudo para deixar de ser uma promessa e consolidar de vez a sua nova identidade no futebol mundial.


Suíça



A Suíça chega mais uma vez competitiva à uma Copa do Mundo. Embora frequentemente receba o rótulo de equipe pragmática ou sem brilho, a realidade é que os helvéticos sempre entregam resultados sólidos. Sob o comando de Murat Yakin, o grupo deu um salto evolutivo impressionante, transformando-se em um camaleão tático capaz de alternar entre linhas de três ou quatro defensores sem perder a organização. Essa flexibilidade permite tanto ditar o ritmo com a bola quanto explorar os espaços vazios, tornando os suíços um time extremamente interessante de assistir, com capacidade para neutralizar as principais armas de praticamente qualquer oponente.

Mesmo com a saída de figuras históricas e muito queridas pelo público, como Xherdan Shaqiri, a comissão técnica liderada por Yakin conseguiu estruturar um bloco que domina com maestria os espaços intermediários e as diferentes fases do jogo. A Suíça chega à Copa do Mundo de 2026 em seu ponto máximo de maturidade, contando com uma geração talentosa cujos principais pilares atuam nas ligas mais importantes da Europa. O grande trunfo da equipe reside na capacidade de alterar sua geometria interna durante os noventa minutos, ajustando os papéis dos atletas de acordo com as necessidades do confronto sem causar desconforto ou desespero tático. Essa bagagem credencia os helvéticos como os principais favoritos a liderar o Grupo B, superando o status de incógnita de Catar e Bósnia, e o fator casa do Canadá.

Dentro desse rico repertório estratégico, a Suíça transita confortavelmente entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, utilizando Dan Ndoye e Ruben Vargas para acelerar o ataque, enquanto Granit Xhaka e Remo Freuler oferecem a sustentação necessária no duplo pivô. Quando opta por três zagueiros, o time se desenha no 3-4-2-1 ou 3-4-3, recuando Ricardo Rodríguez para a sobra defensiva e liberando Silvan Widmer para dar amplitude pela ala. Dependendo do peso do rival, o sistema se transforma rapidamente em um bloco baixo estruturado no 5-4-1 ou 5-3-2. O pragmatismo suíço dita que a equipe assuma as rédeas da posse contra adversários teoricamente inferiores, mas saiba ceder o terreno e se fechar de maneira compacta contra potências, tornando-se uma ameaça letal em contragolpes verticais focados na velocidade dos extremos.

A saída de bola, coordenada desde o goleiro Gregor Kobel, ganha muita qualidade com a presença de Manuel Akanji e Nico Elvedi, permitindo que Xhaka atue em um segundo escalão sem a obrigação de se enfiar constantemente entre os zagueiros. No terço final do campo, as infiltrações em diagonal são exaustivamente trabalhadas, com os pontas cortando por dentro para abrir o corredor lateral para os defensores, enquanto homens de meio-campo como Remo Freuler e a jovem promessa Johan Manzambi chegam de trás para pisar na área. Na frente, a referência é Breel Embolo, um atacante de grande potência física que não se incomoda em cair pelas pontas para arrastar a marcação, servindo como pivô para clarear as jogadas ou buscando o arremate direto contra a meta adversária.

No plano individual, três engrenagens sustentam o teto competitivo do país. Granit Xhaka é o cérebro e o coração da equipe, controlando a distribuição e ditando os gatilhos de pressão com sua leitura impecável, além de assustar em chutes de longa distância. Na retaguarda, Manuel Akanji se consolidou como um defensor de elite mundial, funcionando como um verdadeiro mariscal que oferece segurança absoluta e uma condução de bola refinada digna de um meio-campista. Por fim, Johan Manzambi surge como o elemento surpresa após grande temporada no Freiburg, oferecendo um perfil misto de muita intensidade no “box-to-box” e uma excelente capacidade de finalização.


Catar


O Catar chega à Copa do Mundo 2026, tentando deixar para trás a decepção de ter sido em 2022 o país anfitrião, e terminar eliminado sem conseguir brilhar. Para a Copa do Mundo de 2026, o Catar promoveu uma verdadeira revolução em sua equipe e surge como um projeto muito mais maduro e liberto dos holofotes do extracampo. O grande responsável por essa mudança de patamar é o técnico espanhol Julen Lopetegui, que deu uma nova identidade competitiva aos cataris. A resposta definitiva desse amadurecimento veio com o título da Copa da Ásia, mostrando ao mundo que a seleção aprendeu a jogar sob forte exigência e que não precisa mais provar nada a ninguém, chegando ao torneio com o querendo surpreender no Grupo B.


A grande marca registrada de Lopetegui foi a implementação de um estilo de jogo corajoso e focado no protagonismo através da posse de bola. Bebendo diretamente da forte influência do futebol espanhol — enraizada há anos na base da Aspire Academy —, o Catar deixou de ser uma seleção puramente contragolpeadora. O plano agora consiste em dominar as partidas de maneira paciente e associativa. O pilar desse modelo é a saída limpa desde o campo de defesa, onde os zagueiros se abrem e os meio-campistas recuam para criar linhas de passe sem recorrer aos balões longos. Jogadores como Lucas Mendes, Waad e Madibo assumem funções cruciais nessa engrenagem, sendo os responsáveis por receber a bola de costas, girar e ditar o ritmo da circulação.

Taticamente, a equipe flutua com facilidade entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, mantendo uma linha defensiva de quatro homens bem definida e um triângulo articulador no meio-campo. Quando enfrenta adversários de maior hierarquia física ou técnica que a obrigam a recuar, a seleção se fecha em um 4-4-2 compacto com marcação zonal. Para evitar que esse bloco baixo se torne dramático, Lopetegui equilibra a postura defensiva com gatilhos de pressão máxima em setores específicos, tentando morder a posse rival para acionar seus atacantes. Ao chegar no terço final do campo, o Catar demonstra uma interessante riqueza de repertório, sentindo-se confortável tanto para trabalhar a bola de pé em pé quanto para buscar desmarques de ruptura em profundidade.Os caminhos do ataque catari passam obrigatoriamente pelos pés de Akram Afif, o líder técnico indiscutível do setor ofensivo, e pela velocidade de Edmilson Junior, dois atletas capazes de desestabilizar as defesas adversárias recebendo a bola no pé ou atacando os espaços vazios. A grande referência na área é o histórico Almoez Ali, um centroavante letal com mais de cinquenta gols pela seleção que superou lesões recentes para chegar em plena forma ao mundial. Além disso, o Catar se apoia em uma bola parada ofensiva muito bem ensaiada para romper defesas fechadas, explorando cruzamentos frontais e laterais mirados no excelente jogo aéreo de Boualem Khoukhi e Pedro Miguel.Embora a falta de jogos oficiais no início de 2026 tenha dificultado o desenho definitivo dos convocados, a identidade coletiva proposta por Lopetegui está perfeitamente assimilada pelo grupo. O Catar entra neste mundial praticando um futebol contracultural para a sua região, desafiando o favoritismo da Suíça e a solidez da Bósnia e Herzegovina na disputa pelas vagas do grupo. 


Trata-se de uma seleção esteticamente atraente, agressiva com a bola e que guardou a sua melhor versão para o gramado norte-americano. Se conseguirem replicar o domínio continental em um nível de exigência global, os cataris têm tudo para apagar de vez a má impressão do passado e escrever uma história completamente diferente.



Bósnia e Herzegovina

 

 

A Bósnia e Herzegovina, encontrou na repescagem o caminho que a reconduziu ao grande cenário do futebol mundial, doze anos após a sua última participação, na Copa do Brasil em 2014. O técnico Sergej Barbarez assinou uma classificação agônica, histórica e passional, deixando para trás concorrentes de peso como País de Gales e a poderosa Itália, consolidando um bloco de enorme dureza competitiva que aprendeu a equilibrar a experiência da velha guarda com uma estrutura física imponente.

O reflexo dessa mentalidade está em uma equipe rochosa, difícil de ser batida e que promete dar muita guerra no Grupo B, ao lado de Canadá, Catar e Suíça. Taticamente, a lousa de Barbarez costuma oscilar entre o 4-4-2 e o 3-5-2. Essa variação acontece muito em função do comportamento dos alas, com Amar Dedić dando extrema profundidade pela direita e Amar Memić atacando pela esquerda, enquanto Sead Kolašinac se junta aos zagueiros para dar sustentação atrás. Independentemente do desenho, a Bósnia se sente completamente confortável em presentear o adversário com a iniciativa do jogo. A estratégia principal é fechar as linhas em um bloco baixo, bem perto da própria área, para diminuir os espaços do rival e acionar contragolpes rápidos assim que a bola é recuperada em campo próprio.

A engrenagem ofensiva bósnia não depende de uma elaboração lenta ou de trocas excessivas de passes no meio-campo, mas sim de um dogma absoluto: o jogo direto pelos lados e os cruzamentos na área. Toda a dinâmica do time é desenhada para abastecer o seu capitão e referência máxima, Edin Džeko. O veterano centroavante continua demonstrando uma capacidade única de transformar bolas difíceis em gols limpos ou em escoradas inteligentes. Essas segundas jogadas são o combustível ideal para a chegada dos homens de trás, como Ermedin Demirović, um atacante de muita mobilidade que flutua pelos lados abrindo espaços, e Esmir Bajraktarević, o jovem ponta do PSV Eindhoven que, aos 21 anos, desponta como uma das mentes mais criativas e ousadas do elenco, sendo capaz de desequilibrar no mano a mano tanto por dentro quanto por fora.

 

Além das transições verticais, a grande arma secreta da Bósnia é a bola parada. Com uma estatura média impressionante de 1,88m, impulsionada por defensores como Nikola Katić, qualquer escanteio, falta na intermediária ou até mesmo arremesso lateral longo vira uma oportunidade real de gol. O pragmatismo de Barbarez conseguiu convencer o grupo de que o sacrifício e a intensidade defensiva são inegociáveis, gerando um modelo de jogo sólido que independe das peças que entram em campo. Minimizar erros e evitar faltas perto da área será o grande desafio dos adversários que quiserem conter essa equipe inquietante. Embalada pela inércia competitiva de uma repescagem épica, a Bósnia entra em 2026 pronta para castigar qualquer um que se atreva a subestimar a sua capacidade de resistir.

 

Grupo C: Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti.

 

Brasil

 

A seleção brasileira chega à Copa do Mundo cercada por dúvidas, mudanças e desafios. Depois de um ciclo turbulento, marcado por trocas de treinadores, atuações irregulares e resultados abaixo do esperado, Carlo Ancelotti assumiu a missão de reconstruir a equipe praticamente a um ano do torneio. O cenário, que já era delicado, ficou ainda mais complicado por causa das lesões importantes sofridas ao longo do caminho, especialmente as de Militão, Estevão, Vanderson e Rodrygo.

Mesmo com a enorme quantidade de talentos disponíveis, o Brasil passou a demonstrar menos profundidade de elenco do que parecia ter inicialmente. Isso afeta diretamente a montagem do time titular e a maneira como Ancelotti organiza a equipe em campo. O Brasil atua prioritariamente em um 4-4-2 ou 4-2-3-1 que preza pelo preenchimento racional dos espaços. Na fase de construção, a equipe utiliza uma saída de três (com um dos laterais ou um volante recuando), dando liberdade para que os pontas (como Vinicius Junior e Raphinha) espetem as defesas adversárias em amplitude máxima.

Casemiro e Bruno Guimarães formam a dupla de volantes que virou a base do meio-campo de Ancelotti. Casemiro reapareceu como peça central do sistema, enquanto Bruno Guimarães atua ao seu lado com liberdade para participar da construção. Ainda assim, outras alternativas surgem no horizonte, como Danilo e Paquetá, dependendo das necessidades de cada jogo.
A principal peça ofensiva do time é Vinícius Júnior. Com Ancelotti, tanto no Real Madrid quanto na seleção, ele deixou de ter tantas obrigações defensivas pelos lados do campo e passou a atuar mais próximo do gol, quase como um segundo atacante. Sem a bola, Vinícius compõe a dupla da frente; com a posse, ganha liberdade para atacar os espaços, cair pelos lados e explorar transições rápidas — exatamente onde se sente mais confortável.
Essa mudança também altera a dinâmica dos companheiros ao redor dele. Matheus Cunha, por exemplo, funciona menos como um centroavante tradicional e mais como um articulador ofensivo, aproximando-se do meio-campo para criar jogadas. Rodrygo, quando estava disponível, fazia um papel híbrido pela esquerda, ajudando na recomposição defensiva e participando da armação por dentro. Já Estevão oferecia profundidade e desequilíbrio pelo lado direito, sendo um dos destaques da era Ancelotti antes da lesão.

Com as ausências de Rodrygo e Estevão, o Brasil precisou repensar seus lados do campo. Raphinha passou a ser uma peça ainda mais importante. No Barcelona, ele evoluiu muito como atacante de infiltração, atacando espaços nas costas da defesa com intensidade constante. Na seleção, porém, talvez precise desempenhar um papel mais criativo e associativo, especialmente se atuar pela direita. Isso pode reduzir justamente aquilo que o tornou tão decisivo nos últimos anos.

Martinelli aparece como alternativa pelo lado esquerdo, mas oferece características diferentes das de Rodrygo. Ele é mais vertical e agressivo, menos organizador. Outra possibilidade é Luiz Henrique ganhar espaço como titular ou virar uma arma importante para o segundo tempo.

Também existe a opção de mudar a estrutura ofensiva utilizando um centroavante de referência. João Pedro tem sido o principal nome nessa função durante o ciclo, enquanto Endrick surge mais como um segundo atacante móvel do que como um camisa 9 tradicional. Além deles, Ancelotti parece querer levar ao menos um atacante mais físico e de área para compor o elenco, algo que abre espaço para nomes como Igor Thiago, Richarlison ou Pedro.

Na defesa, as lesões também mudaram bastante o cenário. Militão havia praticamente consolidado a lateral direita como sua posição na seleção, oferecendo mais segurança defensiva e equilíbrio ao sistema. Sem ele, Wesley desponta como favorito para assumir a vaga, embora isso altere o comportamento do time, já que Wesley é muito mais ofensivo e agressivo no apoio. Outra alternativa seria improvisar um zagueiro pelo setor, como Ibañez, em jogos que exijam maior proteção defensiva.
A imprevisibilidade no terço final e a forte sustentação do meio-campo são as principais virtudes da equipe. A presença de meias dinâmicos e criativos permite ao Brasil alternar entre o jogo de posse paciente e transições ofensivas verticais avassaladoras. Contudo, há uma clara dificuldade de adaptação à forte marcação por encaixe. Quando enfrenta blocos baixos muito agressivos fisicamente, a Seleção por vezes reduz o ritmo de circulação da bola, tornando-se previsível.

No cenário atual, o Brasil não chega à Copa do Mundo como principal favorito. Ainda assim, continua sendo uma seleção fortíssima pelo talento individual que possui e pelo peso de ter um dos maiores treinadores da história recente do futebol no comando. Mesmo com pouco tempo de trabalho, Ancelotti tenta construir uma equipe mais equilibrada, competitiva e adaptável.



Marrocos


O fator surpresa definitivamente acabou para a seleção de Marrocos. A campanha histórica no Catar em 2022, marcada por uma aula de consistência e organização defensiva, rendeu ao país o merecido reconhecimento como a grande surpresa daquele torneio. Agora, após o mundo acompanhar de perto o futebol marroquino em diversos compromissos, a equipe já é amplamente conhecida. O objetivo atual está claro: transformar a antiga postura ultra-defensiva em um modelo competitivo e muito mais criativo. Essa transição ganha força não apenas com a saída do técnico Regragui e a chegada de uma nova comissão técnica, mas com o foco em corrigir as carências ofensivas apresentadas em 2022. Mesmo priorizando o espírito coletivo, a cobrança sobre o elenco será consideravelmente maior em 2026, ainda que os marroquinos entrem no torneio vistos como a principal força do continente africano. 

Analisar a transformação tática dos “Leões do Atlas” exige um olhar atento sobre os nomes que conferem tanta qualidade a este elenco. O cenário agora é ditado pelas altas expectativas, uma vez que o grupo carrega o simbolismo de ter sido a primeira seleção da África a alcançar uma semifinal de Copa do Mundo. Essa conquista mudou o patamar psicológico do vestiário e colocou os holofotes sobre um time do qual o planeta futebolístico agora cobra resultados reais.O respeito dos adversários é outra certeza. Contudo, o elenco vive o dilema do amadurecimento: os principais talentos continuam jovens, exigindo paciência no desenvolvimento de um jogo mais associativo. A grande dúvida é se o ganho técnico individual não vai acabar enfraquecendo a dedicação defensiva que tornou o time quase intransponível na última Copa. A missão de equilibrar esses fatores e conduzir Marrocos no Mundial da América do Norte cabe a Mohamed Wagby. O treinador terá pela frente uma fase de grupos complexa, com Brasil e Escócia surgindo como as principais barreiras. Para avançar direto ao mata-mata em uma das duas primeiras posições, será preciso superar um desses gigantes, mantendo a atenção diante do Haiti, que corre por fora apostando na velocidade e na resiliência.Nos planos da comissão técnica de Mohamed Wagby, o esquema base desenhado é o 4-3-3. Trata-se, no entanto, de uma plataforma altamente maleável, capaz de se desenhar como um 4-2-3-1 quando Ounahi recua para dar suporte na marcação e Saibari assume a função centralizada ou se desloca pelo lado esquerdo. No momento de propor o jogo, a estrutura avança para uma espécie de 4-1, oferecendo liberdade para os atletas flutuarem nos espaços vazios, tendo El Aynaoui como o grande articulador e porto seguro no círculo central.

A mobilidade do time supera a rigidez das posições. Se com a bola a variação caminha entre o 4-3-3 e o 4-1, o comportamento defensivo se consolida em um rígido 4-4-2. A meta principal é congestionar a faixa central do campo, induzindo o oponente a buscar os corredores laterais. É justamente nessas zonas que Marrocos planeja efetuar desarmes rápidos para acionar contragolpes fulminantes. Quando a posse é recuperada por El Aynaoui ou Ounahi, a bola é projetada imediatamente para explorar a velocidade de Abde Ezzalzouli ou os apoios profundos do lateral Achraf Hakimi, enquanto Brahim Díaz e Saibari infiltram-se pelas faixas intermediárias.

Com essa mecânica, o plano defensivo deixa de ser uma pressão alta desgastante para se tornar um encaixe posicional coordenado, com blocos compactos que fecham as linhas de passe por dentro e empurram o rival para os lados. No momento da transição ofensiva, o desenho é letal. Assim que retoma a bola, Brahim Díaz conduz pelo meio para arquitetar a jogada, amparado pela infiltração de Saibari vindo de trás. Paralelamente, Hakimi e Abde dão amplitude máxima ao campo, abrindo a marcação adversária e permitindo que Ounahi e El Aynaoui deem sustentação à jogada. Com o apoio ofensivo constante do lateral Mazraoui, Marrocos frequentemente ataca com até seis peças na área de finalização, distanciando-se do rótulo de equipe exclusivamente defensiva.

Diferente do ciclo anterior, onde o sucesso dependia da dupla de volantes liderada por Amrabat, o momento atual favorece o uso de um único homem de contenção atrás de dois meio-campistas de perfil criativo. Nessa engrenagem, El Aynaoui funciona como a peça fundamental, destacando-se pela capacidade de desarmar e iniciar a transição com rapidez, oferecendo passe limpo na saída de bola e recuando entre os zagueiros quando a dinâmica exige. Esse suporte dá total liberdade para que o trio formado por Brahim, Ounahi e Saibari apareça na intermediária em condições de arrematar de fora da área, aproveitando os espaços gerados pelos pontas.

No terço final, a presença de Brahim Díaz dita o ritmo. Longe de ser um armador estático, o jogador alia uma excelente leitura de jogo a uma grande capacidade de atacar a profundidade e aparecer como elemento de definição na grande área, gerando dúvidas constantes nos defensores adversários. Coletivamente, Marrocos ganhou repertório e velocidade nas tabelas curtas. Conseguindo aliar essa evolução criativa à dedicação defensiva no momento de recompor em duas linhas de quatro, os marroquinos têm plenas condições de encarar qualquer potência do futebol mundial de igual para igual.

No aspecto individual, Achraf Hakimi segue como a grande válvula de escape pela direita, atuando praticamente como um atacante pelo corredor externo, além de exercer o papel de liderança e assumir a responsabilidade pelas cobranças de faltas, escanteios e penalidades. No setor de criação, Brahim Díaz traz o refino técnico em palmos de terreno que faltava ao time no Catar. 

No gol, Yassine Bounou permanece como o pilar de segurança, sendo um goleiro decisivo e amplamente conhecido pelo retrospecto positivo em cobranças de pênalti. Na referência do ataque, Ayoub El Kaabi oferece alternativas distintas em relação a En-Nesyri: demonstra facilidade para jogar de costas para o gol, entrega intensidade física contra os zagueiros, retém a bola na transição e vive grande fase como artilheiro no jogo aéreo. Contando ainda com boas opções no banco de reservas, como El Khannouss, Rahimi e Targhalline, Marrocos consolida seu amadurecimento para o ciclo de 2026.


Escócia


A Escócia deixou de ser o “patinho feio”. A verdade é que se trata de uma seleção muito bem montada e, para além da raça e do empenho físico, os comandados de Steve Clarke têm muito a dizer. Este é o retorno deles a uma Copa do Mundo após 28 anos de ausência, sendo a última em 1998. O trunfo dessa equipe está na otimização tática dos seus atletas e, acima de tudo, no plano que Clarke tem na cabeça, tendo Scott McTominay como peça principal. Sem dúvida, esse encaixe pode ser o búnker que precisavam para competir com qualquer rival. É o fim do complexo de inferioridade de uma nação que, desde os primórdios do futebol, sempre lutou para revolucionar o jogo.A assinatura de Steve Clarke extirpou o fatalismo de dentro da seleção escocesa. Ele construiu um bloco onde o talento se acumula principalmente no corredor central. A linha de meio-campo é muito boa, e o modelo tático muda bastante dependendo do adversário, mas a ideia base é bem pragmática, sem grandes ornamentos ou fogos de artifício. Eles querem obrigar o rival a se cansar e se entediar com a bola, para então castigá-lo assim que a primeira linha de pressão for superada. É um time que se consolidou nas Eurocopas de 2021 e 2024 e que chega ao Mundial de 2026 com um projeto mais maduro, hiperespecializado e com automatismos muito claros e memorizados. Esta Escócia não vai ao Mundial a passeio e muito menos para fazer turismo; eles vêm para competir com a faca entre os dentes, provando que esta geração pode apostar em si mesma.O ecossistema de meio-campistas versáteis que Steve Clarke tem à disposição atualmente é fascinante, pois todas as figuras possuem funções complementares. O treinador desenhou um sistema simétrico para equilibrar o peso físico nas alas e manter a solidez por dentro, tornando a seleção rocosa e muito perigosa ao avançar para o campo contrário. Ainda assim, a Escócia não terá vida fácil. Eles estão em um grupo que conta com o Brasil, pentacampeão, e Marrocos, a grande revelação do Mundial de 2022. No entanto, o confronto contra o Haiti faz a Escócia sonhar com a classificação para o mata-mata. O time tem chances reais, pois não está tão distante de um Marrocos que gera dúvidas em alguns momentos, principalmente porque hoje em dia já é uma seleção muito mais mapeada pelos adversários.

O time é montado em um 4-2-3-1, uma estrutura lógica considerando os jogadores da convocação. Esse sistema preza pela busca de linhas compactas e automatismos por meio de um meio-campo forte que domine os setores centrais, contando com uma linha de apoio bem longa na ala esquerda e outra mais contida na direita, abrindo espaço para jogadores como John McGinn trabalharem tanto por dentro quanto por fora.Por outro lado, o sistema pode variar para uma linha de três defensores, desenhando um 3-4-2-1 ou 3-5-2. Nessa variação, Kieran Tierney atua como zagueiro pela esquerda, Ryan Porteous ou Jack Hendry compõem o miolo, e Aaron Hickey fecha o lado direito.

 

Na frente, Che Adams oferece mais mobilidade para fazer o complemento a Lyndon Dykes. A grande vantagem dessa estrutura com três zagueiros é permitir a projeção ofensiva constante de Andy Robertson pela ala esquerda. Quando Robertson avança, Tierney fica encarregado de cobrir o setor como um lateral tradicional. Esse desenho projeta praticamente quatro jogadores na primeira linha de ataque e cria uma segunda linha extremamente perigosa com McTominay infiltrando-se na área.Embora a equipe não busque a posse de bola e prefira cedê-la ao adversário, a prioridade absoluta é a ordem e a disciplina. A leitura defensiva pelo meio é ditada por Billy Gilmour no papel de pivô, contando com o suporte de operários incansáveis como McTominay e McGinn. Quando recuperam a bola, a transição é direta e veloz. O objetivo é acionar os alas para que façam cruzamentos perigosos na área. Caso Dykes ou Che Adams não finalizem diretamente, a presença de McTominay e McGinn chegando de trás transforma a segunda linha na principal fonte de gols da equipe, compensando a ausência de um centroavante de elite mundial.Os Pilares da Tartan ArmyA imposição física e a intensidade são características não negociáveis para os escoceses, que mantêm um ritmo de jogo altíssimo e aplicam uma pressão alta nos momentos oportunos. O poderio aéreo e as jogadas de bola parada são soluções vitais, contando com ótimos rematadores como John Souttar, Grant Hanley ou Scott McKenna na área.

 

Para fazer tudo isso funcionar, a figura central é Scott McTominay, o motor e o líder indiscutível desta seleção. Ele tem uma capacidade letal para romper linhas em condução e invadir a área a partir do meio-campo, funcionando como um atacante a mais na frente e um defensor incansável na recomposição. Na ala esquerda, Andy Robertson domina todo o corredor. O capitão da seleção traz a experiência do mais alto nível do futebol mundial, oferece passes precisos e cruzamentos que valem ouro, sendo a principal rota de saída ofensiva do time. Por fim, John McGinn representa perfeitamente a identidade desta Escócia.

 

Enquanto McTominay quebra as linhas adversárias na base da potência física, McGinn faz isso com refinamento técnico, qualidade e visão de jogo. Ele atua como um meia-atacante que cai muito bem pelos lados, entrega um sacrifício absurdo na marcação e possui um faro de gol apurado que ajuda muito o coletivo.O trabalho de Steve Clarke deu estabilidade ao projeto e transformou a Escócia em um time de autor, deixando para trás a ingenuidade de outros tempos. Trata-se de uma seleção áspera, sincronizada e extremamente incômoda de se enfrentar, muito acostumada ao pragmatismo necessário para torneios curtos de máxima pressão. Resta ver se a força dessa segunda linha será o suficiente para quebrar o tabu histórico e fazer a Escócia avançar de fase pela primeira vez em uma Copa do Mundo.

 

Haiti


O Haiti protagonizou um dos retornos mais improváveis, românticos e surpreendentes da Copa do Mundo de 2026, senão o mais marcante de todos. A equipe chega ao torneio carregando o simpático apelido de "Cinderela caribenha". Embora tenha se beneficiado, em certa medida, do momento de instabilidade vivido pela CONCACAF durante as eliminatórias, os "Granadeiros" souberam aproveitar principalmente a força de sua diáspora. Com diversos atletas atuando na França e nos Estados Unidos, o país conseguiu formar um elenco fisicamente imponente e bastante interessante. Ainda assim, a caminhada promete ser árdua, sobretudo por conta da chave em que foi sorteado.

O grupo foi estruturado para alimentar o sonho de retornar a uma Copa do Mundo após uma espera de 52 anos. A última participação haitiana aconteceu na Alemanha Ocidental, em 1974. Trata-se de uma seleção repleta de contrastes: organizada e pragmática sem a bola, mas sempre disposta a acelerar o jogo e explorar a velocidade de seus atacantes. Uma observação mais atenta da proposta tática ajuda a compreender as características desta convocação, que também reúne trajetórias pessoais bastante inspiradoras.

Antes de tudo, o Haiti vive uma oportunidade histórica. A ampliação do Mundial para 48 participantes abriu espaço para seleções que antes encontravam maiores obstáculos para se classificar. Esse cenário foi favorecido pelas vagas automáticas destinadas a Estados Unidos, México e Canadá, anfitriões da competição. A classificação para 2026 representa um alívio e uma celebração após mais de cinco décadas longe do principal palco do futebol mundial. O investimento no chamado "laboratório da dupla nacionalidade" produziu excelentes resultados ao incorporar jogadores da MLS e das duas principais divisões francesas. Dessa forma, a seleção conseguiu agregar atletas com formação europeia, capazes de contribuir tanto defensivamente quanto ofensivamente.

O resultado desse processo é uma equipe de perfil híbrido e bastante peculiar. O Haiti apresenta disciplina tática sem a bola, e o trabalho de Sébastien Migné merece reconhecimento pela forma como elevou o nível competitivo do conjunto. O elenco possui características ideais para realizar transições rápidas, combinando força física e organização defensiva com ataques velozes. Ao se fechar bem e reduzir os espaços, a equipe cria condições para contra-atacar com intensidade, principalmente porque costuma abrir mão da posse de bola. No meio-campo, entretanto, falta criatividade. Não por acaso, a maioria dos jogadores convocados para o setor apresenta perfil predominantemente defensivo.

O principal obstáculo estará no grupo da Copa, considerado extremamente complicado. Brasil, Marrocos e Escócia aparecem como favoritos à classificação e, em tese, possuem condições de alcançar a fase eliminatória. Diante desse cenário, o Haiti surge como o azarão da chave, especialmente pela superioridade técnica de seus adversários.

Sob a ótica exclusivamente tática, a seleção utiliza sistemas relativamente simples, capazes de se transformar com poucos ajustes posicionais. O esquema-base é o 4-2-3-1, que pode ser convertido rapidamente em um 4-4-2 durante a fase defensiva ou em um 4-3-3 quando a equipe ataca, permitindo uma reorganização eficiente das linhas.

Entretanto, a vocação para acelerar as jogadas e atacar com muitos jogadores faz com que o time, por vezes, fique excessivamente espaçado. Quando o quarteto ofensivo avança de maneira muito agressiva, o setor intermediário tende a ficar desguarnecido, aumentando a distância entre defesa e ataque. Por essa razão, a eficiência ofensiva torna-se essencial. Quanto melhor o aproveitamento das oportunidades criadas, menor a probabilidade de sofrer contra-ataques perigosos decorrentes da própria desorganização.

A primeira impressão é que o Haiti terá dificuldades para evitar a concessão de espaços diante de adversários mais qualificados. O ponto de sustentação da equipe está na compactação defensiva. A proposta prioriza um bloco médio-baixo, estreitando os setores centrais do campo para impedir infiltrações e induzir os rivais a utilizarem as laterais. A ideia lembra, em alguns aspectos, o modelo adotado por Marrocos: direcionar o adversário para os cruzamentos e confiar na superioridade física para vencer os duelos aéreos antes de iniciar os contra-ataques.

A posse de bola não é prioridade. O jogo haitiano gira em torno da velocidade dos pontas e da referência central no ataque. Wilson Isidor oferece profundidade e aceleração, enquanto Olivier Ntcham — ou Jean-Ricner Bellegarde — acrescenta maior refinamento técnico sem perder capacidade de transição. A utilização dos corredores laterais por Casimir e Danley Jean Jacques representa uma das principais armas ofensivas da equipe. Quando essa alternativa não funciona, entram em cena jogadores como Bellegarde ou Pierre, que aparecem mais como elementos de apoio e podem contribuir em momentos de necessidade ofensiva. A grande incógnita está em saber se Bellegarde conseguirá assumir com protagonismo a função criativa e se Isidor vencerá os confrontos individuais diante dos goleiros adversários.

O Haiti é uma equipe extremamente competitiva, que se destaca pela intensidade física e pela dedicação sem a bola. Não costuma realizar pressão alta constante, justamente para evitar o desgaste excessivo e a quebra da estrutura coletiva. Em vez disso, prefere aguardar o adversário em seu próprio campo, normalmente organizado em um 4-4-2. A ideia é recuperar a posse em espaços reduzidos e acionar rapidamente os extremos nas costas da defesa rival, buscando servir Isidor dentro da área. Trata-se de um futebol direto, vertical e frequentemente apoiado em bolas longas e jogadas de bola parada.

Entre os nomes mais importantes da equipe está Dukens Nazon, maior artilheiro da história da seleção haitiana, com 44 gols. Ele é a principal referência ofensiva do time, destacando-se pela força física, velocidade e capacidade de finalização, características que se encaixam perfeitamente na proposta de Migné. Ao seu lado, Wilson Isidor acrescenta mobilidade e profundidade. Jovem, veloz e eficiente diante do gol, ele também pode atuar pelos lados do campo, tornando-se peça fundamental para os contra-ataques.

No setor defensivo, Ricardo Adé merece atenção não apenas por suas qualidades em campo — liderança, força física, domínio aéreo e segurança defensiva —, mas também por sua trajetória de superação. Em busca de uma oportunidade no futebol tailandês, ele vendeu tudo o que possuía e assumiu grandes riscos financeiros. Após ser vítima de um golpe, chegou a viver nas ruas durante um período. Seu primeiro contrato profissional só foi assinado aos 26 anos. Hoje, ele disputa uma Copa do Mundo, tornando-se símbolo da resiliência que caracteriza esta seleção. Outro nome importante é o goleiro Johnny Placide, de 38 anos, capitão e principal liderança emocional do elenco.

Embora seja considerada uma das equipes mais frágeis do torneio e encontre inúmeros obstáculos para avançar de fase, o Haiti pode se tornar perigoso caso seus adversários atuem com excesso de confiança. Se houver impaciência ou subestimação do outro lado, a velocidade de Casimir, Jean Jacques e Isidor, combinada ao instinto goleador de Nazon, pode causar surpresas. Afinal, poucos imaginavam que Marrocos alcançaria as semifinais em 2022. Aquela campanha também se apoiou em um modelo reativo, ainda que sustentado por uma qualidade técnica superior. Resta saber se a organização defensiva e o plano de jogo de Sébastien Migné serão suficientes para conduzir o Haiti além das expectativas. A resposta virá dentro de campo.




Grupo D: Estados Unidos, Paraguai, Turquia e Austrália. 

 

Estados Unidos

Como um dos anfitriões principais, os EUA chegam ao torneio sob imensa expectativa. A contratação do renomado técnico argentino Mauricio Pochettino injetou uma mentalidade de elite europeia em uma geração que atua no mais alto nível (liderada por Christian Pulisic). Pochettino implementou seu tradicional DNA de pressionar alto e recuperar a bola o mais rápido possível. A equipe costuma se desenhar em um 4-2-3-1 ou 4-3-3 muito dinâmico, onde os laterais (como Antonee Robinson) têm obrigações ofensivas claras para gerar superioridade numérica e cruzamentos na área.

32 anos após a Copa de 94, o torneio retorna aos Estados Unidos para testar o amadurecimento de uma equipe que não é mais formada por universitários ou atletas exclusivos da MLS; hoje, a base desse elenco lidera e compete no futebol europeu. Mais do que a capacidade atlética, o plano de Pochettino é sufocar o rival com intensidade, criatividade e transições rápidas de poucos passes.

O treinador argentino, calejado no futebol europeu, enfrenta um de seus maiores desafios: transformar um grupo de individualidades interessantes em um coletivo capaz de competir de igual para igual contra as principais potências do planeta. O time foi desenhado para tentar propor o jogo com a bola e pressionar alto na marcação. Eventualmente, o esquema pode variar para uma linha de três defensores, desenhando um 3-4-2-1 ou 3-4-3 com a entrada de Mark McKenzie para se juntar a Tim Ream e Chris Richards na zaga, utilizando Sergiño Dest e Antonee Robinson como alas bem projetados. Contudo, a formação mais interessante e provável tem Ream e Richards solidificados na zaga central, ladeados por Dest e Robinson nas laterais.

No gol, há uma disputa sadia entre Matt Freese e Matt Turner, com favoritismo recente para Freese assumir a titularidade. No duplo pivô do meio-campo, a dupla formada por Weston McKennie e Tyler Adams é indiscutível; eles dão sustentação ao bloco para evitar que o time se parta, mantendo a intensidade nas disputas e acionando os contragolpes. Na linha de três meias,  Christian Pulisic assume uma das pontas, Timothy Weah ocupa o lado direito e, centralizado, Malik Tillman desponta como opção no lugar de Giovanni Reyna ou Brenden Aaronson, agregando maior capacidade de recomposição defensiva e pressão alta. No comando do ataque, Folarin Balogun estabeleceu-se como a referência titular absoluta, à frente de Ricardo Pepi e Haji Wright.A grande marca desse modelo é a pressão agressiva em momentos estratégicos do jogo. Quando as linhas avançam, os laterais Dest e Robinson ganham o corredor e dão amplitude máxima ao campo. Isso permite que os pontas Pulisic e Weah centralizem suas posições, juntando-se a Tillman e Balogun para formar um losango ofensivo por dentro. O objetivo não é uma circulação lenta e paciente, mas sim explorar os lançamentos em profundidade dos laterais nas costas da defesa adversária. Paralelamente, os volantes dão suporte: enquanto Tyler Adams foca na contenção, McKennie infiltra-se na área como um elemento surpresa na segunda linha, aproveitando as jogadas de rebote para ameaçar no jogo aéreo ou com chutes de média distância.

O calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos reside no momento da perda da bola. Embora o quarteto ofensivo pressione muito bem no campo de ataque, a equipe sofre bastante para realizar a transição defensiva em bloco baixo quando o adversário consegue quebrar essa primeira linha de combate. Caso o rival consiga propor o jogo e empurrar os norte-americanos para o campo de defesa, o time encontra sérias dificuldades de encaixe posicional. Diante de seleções tecnicamente potentes, esse atraso no tempo de recomposição pode cobrar um preço muito alto.

Para mitigar esse problema, o rendimento individual de peças específicas é fundamental. O líder incontestável e diferencial técnico do time é Christian Pulisic; ele é a principal ameaça criativa, flutuando com imprevisibilidade tanto pelas pontas quanto pelo meio, aliando drible, capacidade associativa e um faro de gol destacado. No meio-campo, Tyler Adams funciona como a verdadeira âncora e o coração do time, destacando-se na recuperação de bolas e interceptações de passes para proteger a linha de defesa. Ao seu lado, Weston McKennie oferece um fôlego incansável, cobrindo os espaços deixados pelos laterais e recuando entre os zagueiros quando a dinâmica exige. Por fim, na frente, Folarin Balogun traz a mobilidade de um atacante moderno que se movimenta em direção ao gol, rompendo em velocidade nas costas dos zagueiros e abrindo espaços vitais para as infiltrações de Pulisic e Weah.

O período de promessas ficou para trás. Os Estados Unidos chegam ao seu próprio Mundial após completarem um longo processo de profissionalização e intercâmbio europeu que eleva o nível de exigência ao patamar máximo. O elenco possui o vigor físico e o ritmo de grandes clubes europeus, além de uma comissão técnica experiente. Jogando diante de sua torcida, a meta realista desenhada nos bastidores é alcançar, no mínimo, a fase de quartas de final, deixando claro que a mentalidade da equipe mudou e eles não entrarão em campo apenas para competir dignamente.


Paraguai

 

O Paraguai chega para a Copa do Mundo de 2026 como uma verdadeira demonstração de pragmatismo no futebol moderno. Em uma era marcada por posse de bola excessiva e construções elaboradas, a seleção paraguaia aposta em um estilo completamente diferente: jogo físico, organização defensiva e competitividade extrema. Mesmo sem apresentar um futebol vistoso, a equipe consegue convencer de que também é possível competir em alto nível dessa maneira.

A equipe comandada por Gustavo Alfaro se transformou em um adversário extremamente desconfortável. Dentro de um grupo equilibrado, o Paraguai deve disputar diretamente com a Austrália uma vaga na próxima fase, enquanto Turquia e Estados Unidos aparecem como favoritos. Ainda assim, a força competitiva paraguaia faz com que ninguém possa subestimá-los.

A principal característica desta seleção é justamente sua fidelidade à própria identidade. O Paraguai não tenta ser algo que não é. Alfaro entendeu rapidamente quais eram as virtudes e limitações do elenco e construiu um modelo de jogo totalmente baseado nisso. Depois de 16 anos fora das Copas do Mundo, a classificação para 2026 já representa um enorme sucesso para o país.

Quando Gustavo Alfaro assumiu a seleção, encontrou um time abatido emocionalmente e com dificuldades nas eliminatórias. Aos poucos, conseguiu transformar aquele cenário em uma equipe organizada, competitiva e extremamente disciplinada. O treinador apostou no pragmatismo como caminho para recolocar o Paraguai em um Mundial, e até aqui a estratégia funcionou perfeitamente.

O aspecto mais curioso do Paraguai talvez seja a maneira como controla os jogos sem precisar dominar a posse de bola. Diferente de outras seleções reativas, que apenas se defendem e atacam em velocidade, o Paraguai procura controlar emocionalmente a partida mesmo sem a bola. A ideia é transformar o confronto em algo tenso, físico e desconfortável para o adversário.

 

Mesmo registrando baixos índices de posse, a equipe é uma das que mais recupera bolas no campo ofensivo entre as seleções sul-americanas. Isso mostra que a defesa não é apenas uma necessidade, mas uma estratégia ativa dentro do modelo de jogo.

Taticamente, a base costuma ser um 4-4-2 bastante compacto. A defesa normalmente conta com Gustavo Gómez e Alderete como dupla de zaga, enquanto os laterais têm funções mais conservadoras e defensivas. O objetivo principal é fechar espaços internos e obrigar o rival a jogar pelos lados do campo.

Essa estratégia faz sentido para um time tão forte fisicamente. O Paraguai aceita cruzamentos e disputas aéreas porque confia muito na capacidade de seus defensores de vencer esses duelos. Quando recupera a bola, inicia rapidamente os contra-ataques aproveitando a velocidade de seus jogadores ofensivos.

No meio-campo, Bobadilla e Ojeda costumam dar equilíbrio, enquanto Diego Gómez e Miguel Almirón oferecem intensidade, movimentação e apoio defensivo pelos lados. Já Julio Enciso aparece como a peça mais imprevisível do sistema.

Enciso é um jogador extremamente versátil. Pode atuar como segundo atacante, meia central ou aberto pelos lados. Sua mobilidade permite ao Paraguai alterar a estrutura tática durante o jogo, transformando o 4-4-2 em um 4-2-3-1 ou até em formações mais ofensivas dependendo da situação.

Tony Sanabria geralmente atua como referência no ataque, embora outros nomes também possam disputar espaço. Sua função é aproveitar as jogadas de transição e finalizar as construções ofensivas da equipe.

Uma das grandes forças do Paraguai está justamente nas transições rápidas. O time costuma defender em bloco baixo e compacto, esperando o momento certo para acelerar. Quando recupera a bola, procura atacar em velocidade, muitas vezes através de conduções individuais e não apenas de lançamentos longos.

Almirón, Enciso e Diego Gómez são fundamentais nesse processo. Todos possuem velocidade, capacidade de drible e boa leitura para atacar espaços. Além disso, o Paraguai sempre procura colocar vários jogadores próximos da área adversária durante os contra-ataques, aumentando as opções de finalização.

Outra arma importantíssima é o jogo aéreo. Historicamente, o Paraguai sempre foi forte nesse aspecto, e essa característica continua presente. Gustavo Gómez, Alderete e Sanabria oferecem muito perigo nas bolas paradas ofensivas, tanto em escanteios quanto em faltas laterais.

 

Defensivamente, o time também demonstra enorme solidez. A equipe se organiza em linhas muito compactas e exerce pressão agressiva em momentos específicos da partida. Não é um time que pressiona alto o tempo todo, mas sabe exatamente quando acelerar a marcação para provocar erros do adversário. Nesse contexto, Enciso, Almirón e Diego Gómez desempenham funções importantes sem a bola, enquanto Bobadilla e Ojeda ajudam a sustentar o equilíbrio do meio-campo.

Entre os principais destaques individuais, Miguel Almirón continua sendo uma das figuras mais importantes da seleção. Experiente e muito veloz, ele é o principal motor dos contra-ataques paraguaios. Sua capacidade de conduzir a bola em velocidade, atacar espaços e criar desequilíbrios torna o time muito perigoso em transições.

Julio Enciso aparece como o jogador mais talentoso e imprevisível da equipe. Mesmo jovem, demonstra personalidade, coragem no um contra um e muita qualidade técnica em espaços reduzidos. Além disso, possui ótimo chute de média distância e qualidade em bolas paradas. Caso chegue em grande forma, pode ser uma das revelações do torneio. Diego Gómez também merece destaque pela inteligência tática, visão de jogo e capacidade técnica. É um jogador que ajuda tanto na construção quanto na aceleração das jogadas ofensivas.

 

Na defesa, Gustavo Gómez representa a grande liderança da equipe. Forte fisicamente, dominante pelo alto e extremamente seguro nos duelos defensivos, ele é o pilar da retaguarda paraguaia. Sua experiência e capacidade de antecipação dão muita estabilidade para todo o sistema defensivo. O Paraguai de Gustavo Alfaro representa, acima de tudo, a aceitação completa da própria identidade futebolística. Em vez de tentar copiar modelos mais modernos ou ofensivos, a seleção decidiu apostar naquilo que historicamente sempre fez bem: intensidade, disciplina tática, força física e competitividade.

 

Talvez não seja uma equipe brilhante tecnicamente, mas certamente será uma seleção muito difícil de enfrentar. O grande questionamento é saber se esse pragmatismo defensivo será suficiente para levar o Paraguai à próxima fase da Copa do Mundo. Independentemente disso, a equipe já demonstrou que voltou a ser competitiva no cenário internacional.


Turquia


A Turquia retorna ao cenário mundial carregando enorme paixão popular e um futebol marcado pela técnica e intensidade emocional. A seleção turca chega para a Copa do Mundo de 2026 como uma das seleções mais interessantes do cenário internacional. A equipe comandada por Vincenzo Montella tenta unir organização tática com a criatividade de uma geração extremamente talentosa, criando um estilo de jogo vistoso e ofensivo. Depois de 24 anos sem disputar um Mundial, os turcos voltam ao torneio carregando expectativas altas e a sensação de que vivem o momento mais promissor de sua história recente.

 

Desde a histórica campanha na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, a Turquia não conseguia retornar ao principal palco do futebol mundial. Aquela equipe ficou marcada por jogadores emblemáticos e por confrontos memoráveis, como a semifinal diante do Brasil de Ronaldo Nazário. Agora, a classificação para 2026 representa o resultado de um longo processo de amadurecimento, impulsionado principalmente pelo surgimento da melhor geração jovem que o país já produziu.

 

O grande desafio da seleção turca está no aspecto emocional. Em diferentes campanhas eliminatórias, a equipe demonstrou dificuldades para lidar com pressão e momentos decisivos. Montella surge justamente como o treinador responsável por controlar esse cenário, utilizando uma abordagem pragmática e tentando equilibrar o talento individual com uma estrutura coletiva sólida.

Taticamente, o esquema preferido do treinador é o 4-2-3-1. O sistema oferece equilíbrio defensivo, liberdade para os jogadores criativos e possibilidade de pressão alta. Em alguns momentos, a equipe também utiliza um 3-4-2-1, especialmente para potencializar jogadores como Arda Güler e Kenan Yildiz atuando mais centralizados.

Na construção ofensiva, a Turquia valoriza bastante a posse de bola e as triangulações curtas. A equipe procura construir desde a defesa, utilizando passes rasteiros e circulação paciente até encontrar espaços entre as linhas adversárias. Hakan Çalhanoğlu e Arda Güler são os principais responsáveis pela organização do jogo. Ambos funcionam como verdadeiros motorzinhos, distribuindo passes longos, acelerando transições e encontrando os atacantes em profundidade.

O setor ofensivo é um dos mais empolgantes da equipe. Arda Güler aparece como o cérebro criativo da seleção, enquanto Kenan Yildiz oferece velocidade, drible e profundidade pelos lados do campo. A movimentação constante dos atacantes gera trocas de posição frequentes e dificulta a marcação adversária. Kerem Aktürkoğlu, por exemplo, atua muitas vezes como falso nove, saindo da área para abrir espaços e permitir infiltrações dos meias.

Outro ponto forte da Turquia está nas finalizações de média distância e nas bolas paradas. Çalhanoğlu, Arda Güler e Kenan Yildiz possuem excelente qualidade técnica para chutes de fora da área e cobranças de falta. Além disso, jogadores como Demiral e Bardakcı oferecem força no jogo aéreo, tornando a equipe perigosa em escanteios e faltas laterais.

Defensivamente, a seleção tenta recuperar a bola rapidamente após a perda da posse, pressionando alto e evitando que o adversário consiga construir ataques longos. Apesar disso, o time ainda apresenta dificuldades quando precisa atuar em bloco baixo ou defender por longos períodos sem a bola. Esse talvez seja o principal ponto de atenção da equipe para o Mundial.

 

Entre os destaques individuais, Arda Güler surge como a grande estrela da nova geração turca. O meia demonstrou enorme evolução recentemente e já é visto como líder técnico da seleção. Sua capacidade de criar jogadas, controlar o ritmo da partida e decidir em momentos importantes faz dele uma peça central no esquema de Montella.

Hakan Çalhanoğlu continua sendo o grande organizador da equipe. Mais experiente, o meio-campista passou a atuar em funções mais recuadas, ajudando na saída de bola e oferecendo equilíbrio tático. Sua liderança e visão de jogo serão fundamentais para o desempenho turco no torneio.

 

Kenan Yildiz também aparece como um dos nomes mais promissores da equipe. Extremamente veloz e habilidoso, o atacante consegue atuar tanto aberto pelos lados quanto por dentro, oferecendo profundidade e capacidade de finalização. Sua conexão com Arda Güler é vista como uma das grandes armas ofensivas da seleção.

A sensação é de que a Turquia finalmente deixou para trás a imagem de equipe apenas intensa e emocional para se tornar uma seleção mais madura taticamente. Ainda existem oscilações, mas o potencial é enorme. Em jogos eliminatórios, especialmente em confrontos únicos, os turcos parecem ter condições de competir em alto nível e surpreender seleções tradicionais.

Com uma geração extremamente talentosa, uma identidade de jogo bem definida e um treinador capaz de organizar o caos criativo da equipe, a Turquia chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das seleções mais interessantes de acompanhar.

 

Austrália


A Austrália construiu uma estrutura defensiva extremamente sólida. Hoje, a equipe parece funcionar como uma máquina voltada para o controle do ritmo, para a destruição do jogo adversário e para a sobrevivência competitiva. Sob o comando de Tony Popovic, os “Socceroos” desenvolveram um modelo muito pragmático, baseado em organização, intensidade e disciplina tática.

O efeito de Popovic foi enorme dentro da seleção australiana. A equipe passou a viver muito mais da consistência defensiva e das transições rápidas do que da criatividade com a bola nos pés. A ideia de um futebol associativo, elaborado e técnico praticamente desapareceu. Em vez disso, a Austrália aposta em agressividade, disputas físicas no meio-campo, velocidade nos contra-ataques e, principalmente, nas jogadas de bola parada.

Esse estilo representa um retorno às raízes do futebol australiano: ordem defensiva, velocidade pelos lados e ataques diretos. O plano de jogo é relativamente simples. Popovic preferiu transformar a seleção em um bloco estruturado e competitivo, em vez de tentar construir uma equipe brilhante tecnicamente. É uma realidade parecida com a de várias seleções que sabem que dificilmente conseguirão dominar partidas através da posse de bola.

Depois do fim da era Graham Arnold, a Austrália precisou se reconstruir. Durante as eliminatórias houve momentos de instabilidade, e chegou a existir dúvida sobre a capacidade competitiva da equipe para voltar a disputar uma Copa do Mundo em alto nível. Ainda assim, o grupo conseguiu reencontrar o caminho e hoje apresenta uma identidade muito clara.

Trata-se de uma seleção madura, consciente das próprias limitações e confortável no papel de equipe incômoda. A Austrália não tenta mais executar um futebol que não domina. Essa postura pragmática acaba sendo inteligente, principalmente porque o time consegue explorar bem os espaços, criar dificuldades nos duelos físicos e aproveitar a força aérea.

Mesmo assim, o cenário do grupo parece complicado. O Paraguai, por exemplo, apresenta características parecidas, mas possui mais recursos técnicos e parece mais preparado competitivamente. Já Turquia e Estados Unidos demonstram maior maturidade coletiva e uma proposta de jogo mais completa. Por isso, a disputa pela classificação provavelmente ficará entre Austrália e Paraguai, embora os paraguaios pareçam chegar em vantagem.

O grande desafio australiano será transformar poucas oportunidades em gols. A equipe sabe que dificilmente criará muitas chances por jogo, então eficiência será fundamental.

Taticamente, a Austrália costuma atuar com uma linha de cinco defensores, em um sistema que pode variar entre 5-4-1, 5-2-2-1 ou até uma estrutura híbrida de 3+2. A prioridade é clara: proteger a área, fechar os corredores internos e forçar o adversário a jogar pelos lados do campo.

Quando recupera a bola, o time busca acelerar rapidamente as transições. Touré aparece normalmente como referência ofensiva, enquanto Hrustic e Irankunda são peças importantes para atacar os espaços em velocidade. A ideia é simples: recuperar a posse e sair em direção ao gol rival o mais rápido possível.

No setor ofensivo, Irankunda oferece profundidade, velocidade e muita imprevisibilidade. É um jogador capaz de abrir o campo, atacar em diagonal e criar desequilíbrios no um contra um. Hrustic também contribui bastante na criação e nos cruzamentos. Ambos costumam se movimentar para zonas interiores, permitindo que os alas ocupem os corredores laterais.

Jordan Bos e os outros jogadores de lado têm papel essencial nesse sistema. São alas bastante ofensivos, responsáveis por dar amplitude ao ataque e levar bolas perigosas para a área. Esse movimento cria situações interessantes, já que os defensores rivais muitas vezes ficam indecisos sobre quem marcar, abrindo espaços para infiltrações e finalizações de segunda linha.

Outro ponto fortíssimo da Austrália é a bola parada. Escanteios e faltas laterais representam uma das principais armas ofensivas da equipe. Grande parte dos gols nas eliminatórias surgiu justamente desse tipo de jogada. A seleção domina o jogo aéreo, possui jogadores fisicamente fortes e consegue aproveitar muito bem rebotes e segundas bolas dentro da área.

Defensivamente, porém, existem fragilidades. A equipe sofre quando precisa recuar rapidamente contra adversários velozes. Os zagueiros não são especialmente rápidos, e os alas possuem características mais ofensivas do que defensivas. Além disso, a Austrália raramente faz pressão alta constante, o que pode gerar dificuldades quando não consegue interromper contra-ataques ainda no meio-campo.

Entre os destaques individuais está Matthew Ryan, capitão e goleiro experiente da equipe. Mesmo aos 34 anos, continua sendo um arqueiro seguro, com ótimos reflexos e muita qualidade em disputas de pênaltis.

Outro nome importante é Nestor Irankunda. Extremamente explosivo e veloz, ele oferece algo diferente ao ataque australiano. Apesar de ainda não ter se firmado completamente no Bayern de Munique, segue sendo uma ameaça constante em espaços abertos e no jogo individual.

Jackson Irvine também merece destaque. É um meio-campista “box-to-box” com enorme capacidade física, chegada ofensiva e inteligência tática. Sua presença ajuda a equilibrar o meio-campo e organizar a equipe sem a bola.

Na defesa, Harry Souttar continua sendo uma referência importante pelo domínio aéreo e pela liderança. Mesmo após uma grave lesão no tendão de Aquiles, segue sendo um jogador muito influente tanto defensivamente quanto nas bolas paradas ofensivas.

Jordan Bos é outro atleta interessante. Tem força ofensiva, chega bem à linha de fundo e aparece frequentemente em zonas perigosas dentro da área. Sua parceria com Irankunda pelo lado do campo pode ser uma das principais armas da Austrália no torneio.

No geral, a Austrália aperfeiçoou sua capacidade de neutralizar o adversário. Não precisa controlar a posse para competir. É uma seleção extremamente física, dura nos duelos e muito fiel ao próprio sistema. Pode não ser uma equipe brilhante, mas certamente será um rival complicado para qualquer seleção.

Ainda assim, fica a dúvida: o pragmatismo se Tony Popovic e o talento individual de jogadores como Irankunda serão suficientes para levar a Austrália à próxima fase. O time parece competitivo, mas talvez tenha limitações ofensivas demais para superar adversários mais completos.

 

 

Grupo E: Alemanha, Equador, Curaçao e Costa do Marfim. 

 
 
Alemanha

 

A seleção alemã chega à Copa do Mundo de 2026 com o compromisso moral de reabilitar sua reputação e superar os fracassos dos mundiais de 2018 e 2022, quando acabou eliminada ainda na fase de grupos. Sob a liderança de Julian Nagelsmann, a Mannschaft almeja resgatar o chamado “futebol do futuro”, deixando para trás o estilo previsível, lento e de posse de bola improdutiva que caracterizou suas últimas campanhas. O plano agora é estabelecer uma equipe de forte identidade, que utilize o controle da bola de forma agressiva e transforme seu talentoso grupo de meias-atacantes modernos no maior terror do torneio.

Sorteada no Grupo E, a Alemanha terá pela frente uma chave repleta de armadilhas, dividida com Equador, Costa do Marfim e Curaçau. Embora Curaçau desponte como o oponente teoricamente mais fraco e provável fiel da balança, times como Equador e Costa do Marfim possuem plenas condições de bater de frente e surpreender os alemães. Qualquer sinal de soberba por parte da equipe europeia será severamente punido. O histórico recente serve como o aviso definitivo para que Nagelsmann mantenha o time focado e impeça o retorno do fantasma da eliminação precoce.

Para este mundial, Nagelsmann tomou uma postura radical e amplamente questionada: devolver a titularidade ao veterano Manuel Neuer, preterindo nomes como Nübel e Baumann. A decisão atende à urgência de contar com um goleiro de forte liderança, capaz de organizar o sistema defensivo e, essencialmente, garantir total precisão no início da construção das jogadas. O treinador receava que a ausência de um arqueiro associativo prejudicasse a saída de bola sob pressão, um fator crucial para um time que pretende sufocar os adversários no campo de ataque a maior parte do tempo.

Em termos táticos, o flexível laboratório de Nagelsmann utiliza o 4-2-3-1 como plataforma inicial, um esquema que oferece segurança e permite variações fluidas para o 4-3-3 ou até para um 4-2-4 em momentos defensivos. Trata-se de uma formação visivelmente assimétrica. Quando instalada no setor ofensivo, a dinâmica faz com que Aleksandar Pavlovic recue entre os zagueiros para qualificar a saída de bola, enquanto Joshua Kimmich avança por dentro, operando quase como um meio-campista central invertido que dita o ritmo do jogo ao lado de seu companheiro de volância.

O ponto alto desta Alemanha reside na grande concentração de talento e criatividade pelo setor central. Nagelsmann abre mão de pontas tradicionais, priorizando meias que se movimentam para o meio. Na frente, Kai Havertz atua como um falso nove de muita mobilidade — em uma função parecida à de Harry Kane no Bayern de Munique de Vincent Kompany —, abrindo brechas para as infiltrações verticais de Leroy Sané, Florian Wirtz e Jamal Musiala. Pelo lado esquerdo, a amplitude e a profundidade totais ficam a cargo do lateral David Raum, que avança para apoiar o ataque e acionar a pressão imediata após a perda da bola.

O sucesso coletivo do time depende diretamente da eficácia do seu Gegenpressing. A Alemanha necessita que o confronto se desenvolva no campo adversário, onde seus atacantes conseguem tabelar em espaços curtos e recuperar a posse rapidamente, evitando o desgaste de correr para trás. Todavia, essa postura agressiva traz um risco considerável de exposição: se a primeira linha de pressão for superada, o time avança tanto em bloco que acaba ficando desprotegido na defesa, exposto a contragolpes fatais. Para conter isso, o técnico cobra paciência e rigor posicional, equilibrando a liberdade criativa com a disciplina tática.

Individualmente, as principais apostas alemãs estão concentradas em peças específicas. Kimmich atua como o mentor tático a partir da lateral direita construtora. Na linha de articulação, a parceria entre Florian Wirtz e Jamal Musiala dita o nível de competitividade da equipe. Embora Wirtz venha de um ano inconstante no futebol inglês pelo Liverpool, sua inteligência para se mover entre as linhas e arquitetar o ataque permanece excepcional. Junto dele, Musiala se destaca como o elemento imprevisível: brilhante no drible, perigoso nas finalizações e capaz de quebrar marcações em qualquer setor, seja vindo de fora ou por dentro.

Por fim, os lances de bola parada despontam como uma das armas secretas mais lapidadas pela comissão técnica para surpreender em 2026. Inspirada no êxito recente do Arsenal de Mikel Arteta no cenário europeu, a federação alemã trouxe um profissional especializado exclusivamente para este fundamento. Com jogadas ensaiadas com rigor e cobranças executadas majoritariamente em curto, o setor virou uma ferramenta perigosa e exaustivamente testada. A Alemanha pode não figurar entre os cinco maiores favoritos de antemão, mas chega madura, bem estruturada e disposta a provar que assimilou os erros do passado.

 

Equador

 

A seleção do Equador desponta como uma das forças mais promissoras para a Copa do Mundo de 2026. Após garantir uma classificação incontestável como a segunda melhor equipe das Eliminatórias da Conmebol, o “Tri” carimbou seu passaporte credenciado por uma defesa sólida e uma agressividade notável para sufocar os adversários na saída de bola. O objetivo do grupo agora é consolidar essa maturidade competitiva e apagar a frustrante campanha do Catar em 2022. Integrante do Grupo E, a equipe desponta ao lado da Alemanha como favorita para avançar aos dezesseis-avos de final, posicionando-se um degrau acima de Costa do Marfim e Curaçau.

O grande responsável por essa transformação mental e tática é o técnico Sebastián Beccacece. Com seu estilo enérgico e de forte personalidade, o comandante rosarino implementou um modelo de jogo corajoso que recusa a especulação. Sob sua liderança, os equatorianos desenvolveram uma enorme versatilidade estrutural, alternando esquemas táticos com facilidade para espelhar e neutralizar os rivais, sem nunca abdicar de suas diretrizes ofensivas. Embora o time conte com uma espinha dorsal talentosa e apresente grande evolução coletiva, o ponto fraco do plano continua sendo a baixa produtividade de gols e uma certa dependência de lampejos criativos no ataque. Corrigir a eficácia nas finalizações é o detalhe que falta para o Equador atingir o seu teto técnico na competição.

Dentro de campo, Beccacece adota o 4-3-3 como plataforma inicial, utilizando Hernán Galíndez na meta e uma linha defensiva composta por Joel Ordóñez, William Pacho, Piero Hincapié e Pervis Estupiñán. Essa estrutura migra frequentemente para o 4-4-2, posicionando Gonzalo Plata na ponta e abrindo espaço para um segundo atacante atuar perto de Enner Valencia. Diante de oponentes de maior nível, o treinador costuma montar uma linha de três zagueiros no 5-3-2 ou 5-4-1. Essa variação asimétrica protege o corredor central e dá liberdade para que alas como Estupiñán e Angelo Preciado agridam as linhas defensivas adversárias.

No meio-campo, a engrenagem é controlada por Moisés Caicedo, o pilar de sustentação tática e emocional do elenco. O volante atua desde o primeiro estágio da construção de jogadas entre os defensores até a distribuição e marcação sob pressão no campo de ataque. Ao seu lado, Alan Franco e Pedro Vite dão equilíbrio ao setor, sob a sombra criativa de Kendry Páez, jovem que adiciona técnica, imaginação no último terço e capacidade de pisar na área. Nas beiradas, Alan Minda garante a profundidade, disputando posição com John Mercado, Jhojan Julio e Nilson Angulo, opções que agregam características de armadores que flutuam para o interior do campo.

A retaguarda é o verdadeiro búnker do time. Os defensores William Pacho e Piero Hincapié formam uma das duplas mais prestigiadas do futebol mundial, amparados por grandes atuações europeias por Paris Saint-Germain e Arsenal. Pacho se destaca como um zagueiro físico e implacável no jogo aéreo e terrestre, enquanto Hincapié oferece versatilidade ao atuar como zagueiro ou lateral-esquerdo, quebrando a marcação rival por meio de passes verticais e conduções. Para garantir o equilíbrio, Ordóñez cumpre uma função tática crucial pelo lado direito, cobrindo as subidas ofensivas de Gonzalo Plata.

Mesmo em cenários onde não consiga ditar o ritmo através da pressão alta, o Equador é uma ameaça real em transições rápidas partindo de um bloco médio ou baixo, explorando a velocidade de seus pontas em lançamentos longos feitos por Pacho e Hincapié. Na frente, a liderança e o faro de gol permanecem sob a responsabilidade do experiente Enner Valencia, letal atacando as costas da defesa ou fazendo o pivô. Peças como Kevin Rodríguez, que entrega muita potência física, e Jordi Caicedo, um centroavante mais fixo, surgem como alternativas de peso. Livre de complexos e escorado em sua solidez defensiva, o Equador chega pronto para encarar qualquer potência mundial de igual para igual.

Curaçao


Curaçao é uma ilha com cerca de 150 mil habitantes que chega à Copa do Mundo de 2026 carregando um sonho histórico. No entanto, seria um erro enxergar essa seleção como uma simples participante que veio apenas para aproveitar a experiência. Na prática, Curaçao mantém uma forte ligação com os Países Baixos, e isso se reflete diretamente em seu futebol. Grande parte dos jogadores foi formada em algumas das melhores academias holandesas e a equipe é comandada por um dos treinadores mais experientes e respeitados do futebol europeu: Dick Advocaat.
A classificação para o Mundial também foi favorecida pelo contexto da CONCACAF. Com Canadá, Estados Unidos e México já garantidos como anfitriões, abriu-se um espaço maior para outras seleções da região sonharem com uma vaga. Ainda assim, Curaçao não chegou por acaso. A equipe demonstrou superioridade técnica durante as eliminatórias, apoiada na formação de atletas que atuam em clubes profissionais da Europa e em ligas altamente competitivas.
Por trás desse crescimento existe um planejamento estratégico bem definido. A federação optou por não buscar apenas um treinador motivador, mas sim um profissional experiente e capaz de construir uma equipe competitiva em pouco tempo. Aos 78 anos, Dick Advocaat tornou-se o técnico mais velho da história das Copas do Mundo a comandar uma seleção. Depois de ter deixado o cargo por questões familiares relacionadas à saúde de sua filha, ele retornou ao comando da equipe e voltou a desempenhar um papel fundamental na evolução do projeto esportivo de Curaçao.
O resultado é uma seleção com características bastante particulares. De um lado, existe a criatividade e a espontaneidade típicas do futebol caribenho. Do outro, há uma organização tática sólida, baseada em disciplina defensiva e transições rápidas. Essa combinação faz de Curaçao uma das equipes mais interessantes entre as consideradas azarãs do torneio.
Apesar disso, a missão no Grupo E promete ser extremamente complicada. A equipe terá pela frente adversários como Costa do Marfim, Equador e Alemanha. Diante desse cenário, avançar para a fase seguinte seria uma façanha histórica. Embora Curaçao tenha condições de competir e dificultar a vida dos rivais, a diferença de nível e experiência internacional torna a classificação uma tarefa bastante improvável.

Taticamente, a seleção costuma alternar entre os esquemas 4-2-3-1 e 4-4-2. A prioridade é manter as linhas compactas e defender em bloco médio ou baixo, reduzindo os espaços centrais e obrigando os adversários a atacarem pelos lados do campo. Quando recupera a posse de bola, a equipe procura acelerar rapidamente os contra-ataques, explorando a velocidade e a capacidade de drible de seus jogadores mais ofensivos.
As transições rápidas são a principal arma ofensiva de Curaçao. Atletas como Tahith Chong e outros jogadores de velocidade são fundamentais para transformar recuperações defensivas em ataques perigosos. A estratégia consiste em poucos passes para chegar rapidamente ao campo adversário, aproveitando espaços deixados pelos rivais.
Defensivamente, a equipe apresenta uma estrutura bastante organizada. Os irmãos Juninho Bacuna e Leandro Bacuna exercem papel importante tanto na proteção da defesa quanto na construção das jogadas. Quando o time se fecha em bloco baixo, os laterais e os meio-campistas recuam para formar uma linha extremamente compacta, dificultando infiltrações pelo centro e forçando cruzamentos para a área.
Quando encontra mais espaço para jogar, Curaçao demonstra qualidade técnica e capacidade de troca de passes. A equipe consegue construir jogadas por meio de combinações rápidas e movimentações constantes entre os jogadores do setor ofensivo. No entanto, diante de adversários mais fortes, é provável que tenha menos oportunidades para desenvolver esse tipo de jogo e precise adotar uma postura mais cautelosa.
Entre os destaques individuais está o goleiro Eloy Room, considerado uma peça decisiva na campanha de classificação. Durante as eliminatórias, acumulou 30 defesas e seis partidas sem sofrer gols. Além da segurança debaixo das traves, destaca-se pela qualidade nos lançamentos longos, frequentemente utilizados para iniciar contra-ataques.
No meio-campo, Juninho Bacuna é visto como o principal articulador da equipe. Com excelente técnica, visão de jogo e qualidade nas bolas paradas, ele é responsável por ditar o ritmo das ações ofensivas. Já Leandro Bacuna acrescenta experiência, liderança e capacidade de chegada ao ataque, embora ambos precisem assumir grande responsabilidade defensiva dentro do sistema de Advocaat.


Outro nome de destaque é Tahith Chong, jogador revelado pelo Manchester United. Dono de velocidade, habilidade no um contra um e versatilidade para atuar tanto pelas pontas quanto em posições mais centrais, ele representa uma das principais esperanças da seleção para criar desequilíbrios e decidir partidas.


Curaçao não possui uma tradição expressiva em Copas do Mundo, mas chega ao torneio com um elenco formado por jogadores acostumados ao futebol europeu e uma organização tática muito bem definida. Independentemente dos resultados, a simples participação já representa um marco histórico para o país. Ainda assim, a equipe tem potencial para surpreender em determinados momentos e mostrar que está longe de ser apenas um saco de pancadas, em sua primeira grande experiência mundial.


Costa do Marfim

 

A seleção da Costa do Marfim desembarca no Mundial de 2026 amparada por uma trajetória recente marcada pela superação e pelo espírito heroico. Marcados pelo roteiro quase inacreditável da Copa Africana de Nações de 2024 — quando a equipe precisou trocar de técnico no meio da competição para se sagrar campeã —, os “Elefantes” carregaram por algum tempo o rótulo de elenco puramente emocional e desordenado. No entanto, para o torneio de 2026, o cenário mudou completamente. A antiga anarquia tática deu lugar à disciplina sob a liderança de Emerse Faé, peça-chave para entender a atual maturidade do futebol marfinense. A ingenuidade defensiva e os confrontos francos e descontrolados foram substituídos por organização, pragmatismo e controle das ações, mostrando que o país não quer depender de milagres para avançar.

Embora o favoritismo do Grupo E esteja inicialmente voltado para Alemanha e Equador, a Costa do Marfim chega com excelente ritmo de jogo e moral elevada, respaldada por triunfos consistentes em amistosos contra Coreia do Sul e Escócia. O objetivo claro dos africanos é rivalizar diretamente com os equatorianos pela segunda vaga rumo aos dezesseis-avos de final, mantendo também o foco em carimbar a classificação como um dos melhores terceiros colocados. Consciente de suas virtudes e limitações, e sem complexos diante dos rivais, o time comandado por Faé tem ferramentas de sobra para frustrar os planos das potências do grupo caso haja qualquer descuido.

Taticamente, a equipe tem como base o 4-3-3, utilizado principalmente quando busca impor sua personalidade, valorizar a posse no meio-campo e exercer uma pressão alta na saída do adversário. Esse modelo transita com facilidade para o 4-2-3-1 para dar maior sustentação defensiva sem travar os homens de frente. Já em cenários que exigem resguardo e proteção ao bloco baixo, os marfinenses se estruturam em um compacto 4-4-2, priorizando a recomposição em velocidade. A grande virtude coletiva está na capacidade de acelerar o ritmo em campo contrário, mas também de recuar as linhas com inteligência para explorar contragolpes longos.

Na baliza, Yahia Fofana desponta como o favorito para a titularidade, embora sofra a forte concorrência de Alban Lafont, goleiro com boa rodagem no futebol europeu. A linha de zaga conta com Evan Ndicka e Odilon Kossounou, que iniciam a campanha se recuperando de pequenos problemas físicos, abrindo espaço para a afirmação do jovem Ousmane Diomande, defensor firme e impositivo em ambos os lados da área. Nas laterais, Ghislain Konan atua de forma mais equilibrada pela esquerda, enquanto a força de Wilfried Singo na direita permite ao treinador desenhar uma saída de bola asimétrica.

O meio-campo se consolidou como o setor mais forte da equipe, liderado pela intensidade de Franck Kessié, o autêntico box-to-box que dita o ritmo nos dois lados do campo. Ao seu lado, Ibrahim Sangaré funciona como o motor na contenção, protegendo os zagueiros com desarmes e vigor físico. Christantus Uche fecha o setor, enquanto atletas como Seko Fofana e o experiente Jean Michaël Seri surgem como ótimas alternativas para qualificar o passe e dar fluidez à saída de bola. No ataque, Amad Diallo garante o drible e o sacrifício defensivo na ala direita, complementado na esquerda pelo jovem Jan Diomande, de 19 anos, peça perigosa que une velocidade e capacidade de finalização ao cortar por dentro. No comando do ataque, a escalação varia entre a mobilidade de Evann Guessand e a forte presença de área de Victor Boniface, ideal para fixar os defensores e aproveitar os cruzamentos.

A grande transformação desta Costa do Marfim de Emerse Faé é a quebra do clichê de que as seleções africanas dependem exclusivamente do vigor atlético. O grupo atingiu um equilíbrio entre força física e inteligência tática, sendo capaz de criar jogadas por baixo ou acionar ligações diretas do goleiro para os pontas. Essa evolução se reflete na defesa, que terminou as eliminatórias sem sofrer gols, consolidando um bloco compacto onde todos os atletas participam ativamente da marcação. Com um meio-campo dominante e atacantes agudos, a Costa do Marfim chega credenciada a surpreender os analistas e brigar no topo do grupo.



Grupo F: Holanda, Japão, Suécia e Tunísia. 

 

Holanda

 

A seleção dos Países Baixos desembarca no Mundial de 2026 disposta a cometer o que muitos tradicionalistas consideram uma verdadeira heresia contra a sua própria história futebolística. Conhecida historicamente pela beleza técnica de seus “artistas” e pelo apego ao futebol associativo, a Laranja passa por uma mutação contracultural drástica liderada por Ronald Koeman. O peso de carregar a maldição histórica de três finais de Copa perdidas (1974, 1978 e 2010) empurrou a equipe para um ponto de virada: cair com honra já não é suficiente. Em 2026, o ecossistema holandês foi tomado pelo pragmatismo, priorizando atletas fisicamente imponentes em detrimento dos antigos fantasistas. Trata-se de uma seleção focada na solidez defensiva, na velocidade transitória devastadora e na punição cirúrgica aos erros adversários com o menor número de passes possível.

Sem o peso do favoritismo absoluto, o elenco já não sofre com a falta de liderança e se sente extremamente confortável jogando de forma vertical. Taticamente, o sistema de base se desenha em um 4-3-3 clássico que herda a amplitude e a posse da escola tradicional, mas que transita com total naturalidade para um 4-2-3-1 mais seguro, sustentado por um duplo pivô no meio-campo. Dependendo das exigências e para espelhar adversários que atuam com defesas de cinco homens, Koeman não hesita em acionar variações para o 3-4-3 ou o 3-5-2. Em momentos de recomposição e replique defensivo, as linhas se fecham rapidamente em um compacto e rígido 4-4-2.

Na meta neerlandesa, Bart Verbruggen desponta com ligeira vantagem para assumir a titularidade, sofrendo a forte concorrência de Robin Roefs, enquanto Mark Flekken corre por fora na rotação. A primeira linha defensiva é um dos setores mais robustos do futebol mundial, marcada por uma assimetria evidente no desenho de Koeman. O lateral-direito Denzel Dumfries atua com total liberdade ofensiva, funcionando quase como um ponta e dando imensa profundidade ao corredor. Para compensar essa subida, a lateral esquerda é ocupada de forma mais recuada por um central de origem: o velocíssimo Mickey van de Ven assume a função, permitindo que a linha de quatro se transforme em uma zaga de três homens na fase de construção. O miolo da defesa é liderado pela imponência de Virgil van Dijk, que atua ao lado de Jurriën Timber — jogador que ganhou bastante rodagem no Arsenal atuando aberto. Nomes como Nathan Aké e Lutsharel Geertruida dão profundidade e segurança para o setor.

O quadrado central que se forma nas zonas intermediárias é o cérebro da equipe. Na base do meio-campo, Ryan Gravenberch consolidou-se como o primeiro volante de contenção e distribuição. Ao seu lado, Frenkie de Jong atua como o autêntico motor tático da *Oranje*; o meio-campista dita o ritmo da partida, recua entre os centrais para iniciar as jogadas e utiliza sua condução de bola característica para quebrar linhas de pressão e atrair marcadores. Na faixa central avançada, Tijjani Reinders atua como um meia-atacante de muita infiltração. Longe de ser um armador estático, Reinders destaca-se pelo vigor de box-to-box, e pela imensa quilometragem coberta, invadindo a área adversária como um elemento surpresa de forte poder de finalização.

A dinâmica do ataque é fluida e inteligente. Cody Gakpo assume a ponta esquerda com a missão de reter a bola, gerar desequilibrios e garantir presença física na área. Embora tenha um teto de projeção mais baixo do que o esperado no início da carreira, Gakpo consolidou-se como a peça mais confiável e letal de cara para o gol no setor ofensivo. Pelo lado direito, Donyell Malen joga cortando sistematicamente para o carril interior para atuar quase como um segundo dez. Essa movimentação abre o corredor para as subidas de Dumfries e gera superioridade numérica por dentro. No comando do ataque, Memphis Depay parte como o favorito por sua capacidade de flutuar, baixar para articular e abrir espaços para os pontas. Caso o contexto peça maior imposição física ou uma referência clássica para escorar cruzamentos, Brian Brobbey e o especialista Wout Weghorst surgem como cartadas valiosas no banco.

Além da verticalidade nas transições, os Países Baixos de 2026 são uma das seleções mais perigosas do planeta nas jogadas de bola parada. A presença de exímios cabeceadores como Van Dijk, Van de Ven, Timber e Gravenberch transforma escanteios, faltas e até arremessos laterais longos em chances claras de gol. Embora falte à atual geração um centroavante refinado nos moldes clássicos da escola holandesa, a equipe compensa com potência atlética, conduções agressivas e uma zaga de elite capaz de sustentar linhas altas sem medo de defender em campo aberto. É o fim da lírica em busca da glória máxima: uma Holanda madura, impositiva e pronta para competir no mais alto nível tático.


Japão


A seleção do Japão chega à Copa do Mundo de 2026 disposta a deixar definitivamente para trás o rótulo de mera surpresa ou de “animadora exótica” das competições. Sob o comando de Hajime Moriyasu, os Samurais Azuis se transformaram em um camaleão perfeito, amparados por uma sincronização coletiva quase indecifrável e um algoritmo tático letal. Se na Copa de 2022 a equipe já havia chocado o mundo ao bater gigantes com mínimos históricos de posse de bola, o modelo atual evoluiu para uma matriz híbrida de alta maturidade. O elenco, que antes se dividia entre a liga local e clubes europeus de segundo escalão, agora conta com atletas consolidados nos principais palcos do Velho Continente. Com uma saída de bola muito mais organizada, redução drástica de erros não forçados e evolução nos duelos físicos, o Japão viaja com a obrigação real de romper seu teto histórico no torneio.

Inserido no Grupo F, o laboratório tático de Moriyasu baseia-se em uma estrutura de extrema adaptabilidade, variando com fluidez entre o 3-4-2-1 e o 3-4-3. A grande virtude desse sistema é a versatilidade dos perfis, permitindo que jogadores atuem fora de suas posições originais sem que o rendimento coletivo caia. No gol, Zion Suzuki assume a responsabilidade de dar sentido à construção de jogadas desde a base defensiva. O trio de zaga conta com Shogo Taniguchi e Hiroki Ito ganhando espaço na titularidade, uma vez que pilares como Ko Itakura e Takehiro Tomiyasu iniciam o torneio cercados por dúvidas médicas e arrastando dores físicas que os impedem de estar 100%.

A dinâmica dos corredores externos é fundamental no jogo japonês e conta com os alas Yukinari Sugawara e Keito Nakamura — este último assumindo papel de destaque após a dolorosa e importante ausência de Kaoru Mitoma na convocação. O desenho da equipe é inteligentemente assimétrico: embora Nakamura e Ritsu Doan atuem abertos, eles funcionam muitas vezes como pontas avançados, enquanto Junya Ito e Takefusa Kubo, posicionados logo atrás do centroavante, cortam sistematicamente para o carril interno. Essa movimentação confunde as marcações adversárias e força os oponentes a se defenderem em amplitude, abrindo lacunas preciosas nas zonas intermediárias que são severamente castigadas pelos homens de segunda linha.

No coração do meio-campo, o duplo pivô ganha contornos de muita força e equilíbrio. Embora Daichi Kamada apareça como uma opção de perfil bastante ofensivo para ditar o ritmo e atacar espaços vazios, a sustentação de segurança é garantida por Ao Tanaka e pelo incansável Wataru Endo. Caso esteja em plenas condições físicas, Endo é uma peça de liderança e disciplina tática inegociável, funcionando como o verdadeiro maestro da orquestra sem a bola. Quando se instala no campo rival, o desenho japonês forma quase um losango ofensivo central entre Junya Ito, Kubo, Kamada e o centroavante Ayase Ueda. A pressão exercida não é caótica; o Japão deixa linhas de passe abertas de propósito para induzir o rival ao erro em zonas de asfixia pré-determinadas, engatando transições verticais e fugazes imediatamente após a recuperação.

Na referência do ataque, Ayase Ueda consolida-se como o titular absoluto. Embora o promissor dezenove anos, Yutaro Goto, surja no horizonte como um perfil de maior imposição física, o instinto de Ueda e sua facilidade para engatilhar chutes rápidos o tornam extremamente valioso. Seus números de gols muitas vezes não refletem sua utilidade tática, sendo um exímio fixador de zagueiros e gerador de espaços para a chegada de Kubo e Junya Ito. Takefusa Kubo, por sua vez, desponta como o motor criativo diferencial: um atleta elétrico no um contra um que, mesmo perdendo um pouco da velocidade pura de ponta, evoluiu para um autêntico e genial meia-armador na interpretação do último passe.

Diante de adversários de menor expressão, o Japão domina a posse sem dificuldades, mas o time não tem qualquer receio de abdicar do balão contra potências exigentes. Nesses cenários, a equipe recua em um bloco compacto de excelente recomposição, estruturando uma linha de cinco defensores muito nítida em um resiliente 5-4-1 que bloqueia as investidas rivais e prepara o bote para o contragolpe. Além da fluidez com a bola rolando, os Samurais Azuis adicionaram um repertório perigoso de jogadas de bola parada exaustivamente ensaiadas, incluindo arremessos laterais longos direcionados à grande área.

O Japão de 2026 é um Japão forte em todos os sentidos, e muito competitivo.



Suécia

 

A seleção da Suécia passa por uma clara transformação tática, buscando se consolidar como uma equipe muito mais ousada e agressiva. Sob o comando de Graham Potter, a comissão técnica parece estar corrigindo os erros do passado e lapidando as deficiências coletivas. Estruturada a partir de uma linha com três zagueiros, a equipe demonstra muita inteligência na ocupação do último terço do campo. Essa postura promete transformar os suecos em uma das atrações mais interessantes neste novo formato de Copa do Mundo com 48 seleções.

Embora o coletivo chame a atenção, a Suécia também conta com ótimos talentos individuais. Na lousa tática, é fundamental compreender o papel dessas peças de referência e, principalmente, como Potter administrará suas principais estrelas. Enquanto nomes como Kulusevski ficaram de fora da lista, Alexander Isak foi convocado, embora ainda haja mistério sobre como ele se encaixará nesse contexto de Mundial — um torneio de tiro curto que costuma exigir justamente o poder de decisão individual que o atacante possui.

A vaga carimbada na repescagem elevou a autoconfiança do elenco, refletindo-se em um futebol mais criativo e vertical. A presença de atletas como Viktor Gyökeres, Benjamin Nygren e Anthony Elanga garante uma versatilidade preciosa ao setor ofensivo. A Suécia se apoia bastante no seu poder de fogo e na velocidade de suas transições, ganhando ainda mais oxigênio no meio-campo com promessas que vêm do banco de reservas, como o jovem Lucas Bergvall. O grande desafio de Potter será equilibrar esse ímpeto em um cenário de altíssima exigência, visando o mata-mata.

Em termos estruturais, a lousa de Graham Potter se destaca como uma das mais flexíveis da competição. O desenho inicial parte de um 3-4-2-1, mas frequentemente se altera para um 3-4-3 ofensivo. Nessa dinâmica, Nygren e Elanga dão profundidade ao ataque pelas pontas, enquanto os alas Svensson e Gudmundsson atuam bem espetados, alternando movimentos por fora ou por dentro para confundir a marcação.

Por outro lado, o calcanhar de Aquiles dessa proposta pode ser a transição defensiva. Apesar de flertar com variações mais conservadoras (como o 3-5-2 ou estruturas mais rígidas em 4-4-2 sem a bola), a Suécia se transforma totalmente na fase de posse. O time chega a se posicionar em um agressivo 2-3-5, a famosa pirâmide invertida, acumulando até cinco ou seis homens na linha de frente para sufocar o adversário.

No gol, a hierarquia está bem consolidada a favor de Nordfeldt, que oferece maior segurança e respaldo no momento. Já o setor de defesa gerou mais debates, mas a tendência é que Starfelt, Hien e Lindelöf formem o trio titular. Essa linha de três busca trazer mais imposição física e solidez para proteger a área e dar sustentação aos alas na recomposição, permitindo que o time se feche em um 5-4-1 ou 5-3-2 quando pressionado. Entre os defensores, Lindelöf se destaca pela liderança silenciosa, enquanto Hien e Starfelt trazem a bagagem de estarem habituados a esse sistema em seus clubes.

Nas alas, a ausência de Emil Holm por corte forçou adaptações. Svensson deve atuar improvisado com o pé trocado na direita, deixando o corredor esquerdo livre para as arrancadas de Gudmundsson. No meio-campo, Ayari e Karlström largam na frente como a dupla de volantes titulares, com Ayari funcionando como o motorzinho do setor. Contudo, a capacidade criativa de Lucas Bergvall pode cavar uma vaga entre os titulares, oferecendo passes mais refinados para municiar os pontas e meias de ligação.

Na frente, a grande questão é a minutagem de Alexander Isak. Com uma técnica refinada e repertório para atuar tanto por dentro quanto aberto, ele teoricamente faria uma dupla formidável com Gyökeres. No entanto, o encaixe de Elanga e Nygren parece ser a prioridade imediata do treinador. Quando o time decide atacar, os alas abrem o campo e Gyökeres cumpre o papel crucial de prender os zagueiros centrais, abrindo lacunas para as infiltrações em velocidade de seus companheiros no espaço entre o lateral e o zagueiro adversário.

O ponto forte da equipe é a sua marcação alta e por pressão, sufocando a saída de bola rival principalmente pelos lados e forçando o jogo para o meio, onde o funil sueco é mais denso. O problema surge quando essa primeira linha de pressão falha: em bloco baixo, o time se desgasta e expõe a fragilidade defensiva de seus alas. Nessas situações, a solução tem sido recuar as linhas e forçar o oponente a cruzar bolas na área, onde a estatura de Hien, Starfelt e Lindelöf prevalece.

A bola parada, inclusive, é outra arma letal da equipe, tanto para defender quanto para atacar. Na fase ofensiva, tudo gira em torno da potência de Viktor Gyökeres. O centroavante é um verdadeiro homem gol, e sempre incomoda os defensores rivais, e lidera o combate na pressão pós-perda. É o equilíbrio perfeito para o talento de Isak, que prefere receber em profundidade a jogar de costas para o gol.

A Suécia atual representa o triunfo do futebol vistoso e divertido sobre o pragmatismo. É uma seleção empolgante, que ataca em bloco e confia no talento de seus valores individuais, e pode surpreender e ir longe neste Mundial.


Tunísia


As Águias de Cartago chegam ao Mundial como uma das seleções mais chatas de se enfrentar. Conhecida como o “catenaccio africano”, a equipe consolidou sua fama na Copa do Mundo de 2022 ao parar ataques de grandes potências,  e garantir empates sem gols contra seleções como França e Dinamarca. Agora, sob o comando do técnico franco-tunisiano La Mouchi, que substituiu Traoui, a seleção mantém a sua essência defensiva e o esforço coletivo intenso como principais argumentos competitivos.
Do ponto de vista tático, o novo treinador demonstra grande flexibilidade na variação de esquemas no tabuleiro, embora os conceitos fundamentais permaneçam inalterados. A Tunísia costuma partir de uma base em 4-2-3-1 para garantir o equilíbrio do meio-campo, mas transita facilmente para um bloco defensivo em 4-4-2 ou 4-1-4-1 extremamente compactado, cujo objetivo é sufocar o rival e forçar o jogo para as laterais. Em cenários de maior pressão, a equipe não hesita em recuar para uma linha de cinco defensores (5-4-1), transformando sua área em um búnker impenetrável que prioriza os duelos aéreos.
Apesar da fama ultradefensiva, o time não se limita a jogar em bloco baixo, posicionando-se frequentemente em bloco médio para roubar a bola e iniciar transições rápidas. Nesse modelo, os laterais desempenham um papel crucial: jogadores como Jan Valeri e, principalmente, Ali Abdi avançam com profundidade para abrir o campo e cruzar bolas na área. No setor de criação, o jovem Hannibal Mejbri assume o protagonismo na zona de três quartos com sua visão de 360 graus, apoiado pela solidez de uma forte dupla de volantes composta por Ran Khedira e Ellyes Skhiri, este último destacado como o motor e a âncora tática do elenco.

Entre os pontos fortes da seleção, destacam-se o impressionante vigor físico e a eficiência nas jogadas de bola parada, onde o zagueiro Montassar Talbi se impõe como uma grande ameaça aérea em ambas as áreas. Por outro lado, a principal deficiência dos tunisianos é a falta de um “camisa 9 matador” de elite para finalizar as jogadas. A escolha pelo atacante Chawat busca um meio-termo entre referência e mobilidade, mas a ausência de um goleador nato faz com que a equipe dependa excessivamente do esforço coletivo e de raras oportunidades para conseguir pontuar.

Inserida no Grupo F da Copa do Mundo ao lado de potências como Japão, Países Baixos e Suécia, a Tunísia entra na competição como a seleção teoricamente mais fraca do agrupamento. Contudo, o análise alerta que subestimar o bloco tunisiano é um erro perigoso, já que a equipe compensa a falta de estrelas com uma união coletiva formidável. Sem a pressão do favoritismo, os comandados de La Mouchi têm o perfil ideal para desestabilizar adversários soberbos e estragar os planos de seleções mais cotadas no torneio.
 
 
Grupo G




Bélgica: Bélgica, Egito, Irã e Nova Zelândia.



Bélgica


A seleção belga chega à Copa do Mundo de 2026 com uma cara completamente renovada.
 A saída de Domenico Tedesco não parece ter sido apenas uma decisão esportiva, mas também um movimento estratégico para permitir o retorno de um dos maiores nomes da seleção: Thibaut Courtois.

O encerramento definitivo do ciclo da chamada “geração de ouro” pode ser benéfico para os belgas. Na Copa do Mundo de 2026, a equipe chega com a obrigação de ser competitiva, mais do que encantar o mundo com um futebol espetacular. Tudo indica que a seleção entendeu essa realidade e assumiu um perfil mais pragmático e realista.

Sob o comando de Rudi Garcia, a Bélgica parece ter recuperado parte de sua identidade competitiva. A transição geracional foi forçada, mas trouxe um grupo fisicamente forte, mais dinâmico e disposto a aceitar um papel diferente daquele que marcou os anos da geração de ouro. Houve uma renovação importante do elenco, embora veteranos como Kevin De Bruyne, Courtois, Axel Witsel e Romelu Lukaku ainda mantenham espaço e relevância dentro do grupo.

Ao mesmo tempo, surgiu uma nova geração promissora, liderada por nomes como Amadou Onana e Jeremy Doku. Este último desponta como uma das principais referências da equipe e deve assumir um protagonismo cada vez maior nos próximos anos.

Rudi Garcia implementou uma abordagem mais equilibrada. A Bélgica abandonou a pressão alta excessiva e passou a atuar com um bloco médio, priorizando a organização defensiva e a ocupação inteligente dos espaços. O treinador construiu um sistema mais flexível e adaptado às características do elenco atual, privilegiando a compactação e o fechamento dos corredores centrais para dificultar o jogo dos adversários.

Embora o elenco atual seja considerado menos talentoso do que o de anos anteriores, a equipe parece mais consciente de suas limitações e qualidades. Inserida em um grupo com Egito, Irã e Nova Zelândia na Copa do Mundo de 2026, a Bélgica surge como favorita para avançar na liderança. O objetivo é passar pela fase de grupos sem grandes sobressaltos e aproveitar a condição de “gigante adormecido”, um papel que pode até reduzir a pressão externa sobre o time.

Taticamente, a seleção pode alternar entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1. No primeiro sistema, a amplitude é garantida principalmente pelos pontas, especialmente Jeremy Doku e Alexis Saelemaekers. No meio-campo, Kevin De Bruyne, Youri Tielemans e Amadou Onana formam uma combinação equilibrada entre criatividade, inteligência tática e força física. Ainda assim, o 4-2-3-1 parece ser a formação mais adequada, pois oferece maior proteção a uma defesa relativamente jovem e inexperiente sem comprometer o potencial ofensivo da equipe.

O retorno de Thibaut Courtois é considerado fundamental. Além de ser um dos melhores goleiros do mundo, ele oferece segurança a uma defesa que ainda inspira dúvidas. Sua capacidade de decidir partidas com intervenções importantes pode compensar algumas fragilidades defensivas da equipe.

Kevin De Bruyne continua sendo o cérebro da seleção. Mesmo sem o vigor físico dos seus melhores anos, mantém a capacidade de controlar o ritmo das partidas, conectar defesa e ataque e criar oportunidades de gol através de sua visão de jogo e qualidade nos passes. Sua influência permanece enorme dentro da estrutura da equipe.

Jeremy Doku é provavelmente a principal arma ofensiva da Bélgica. Extremamente veloz e habilidoso no um contra um, ele é responsável por grande parte dos desequilíbrios criados no ataque. A equipe procura constantemente explorar suas características, colocando-o em situações favoráveis para acelerar, driblar adversários e atacar a área. Sua capacidade de gerar perigo transforma-o no jogador mais imprevisível do setor ofensivo.

Já Romelu Lukaku continua sendo uma referência importante dentro da área, especialmente em cruzamentos e bolas paradas. Sua força física, presença aérea e capacidade de atuar de costas para o gol ainda são recursos valiosos para a seleção. No entanto, existem dúvidas em relação à sua condição física, ao ritmo de jogo e à sua capacidade de manter o nível que apresentou em temporadas anteriores.

A proposta ofensiva da Bélgica está baseada principalmente nas transições rápidas. Ao recuperar a posse de bola, a equipe procura acelerar imediatamente e explorar a velocidade de seus jogadores de frente. Doku é o principal beneficiado desse modelo, mas outros jogadores também participam ativamente dessas movimentações. Diferentemente de algumas seleções europeias que valorizam longos períodos de posse de bola, a Bélgica utiliza a posse como uma ferramenta para encontrar espaços e criar oportunidades de ataque, e não como um objetivo em si.

Apesar da evolução coletiva, a equipe ainda apresenta algumas vulnerabilidades. Os laterais possuem forte vocação ofensiva, o que frequentemente deixa espaços nas costas da defesa. Além disso, os zagueiros ainda carecem de maior experiência em competições de alto nível internacional. Por esse motivo, o time escolhe cuidadosamente os momentos em que pressiona mais alto e evita assumir riscos desnecessários.

Essa cautela é compreensível, especialmente diante de adversários capazes de explorar transições rápidas. Seleções como Egito e Irã possuem jogadores com características que podem causar dificuldades caso a Bélgica se exponha excessivamente.

No geral, a equipe passou por uma transformação significativa. Deixou para trás a pressão associada à antiga geração de ouro e construiu uma identidade mais pragmática, solidária e coletiva. Hoje, ataca e defende de forma mais compacta, valoriza a organização tática e procura potencializar as qualidades de seus principais jogadores. Talvez já não seja vista como uma das grandes favoritas ao título mundial, mas justamente por isso pode se tornar uma adversária mais perigosa. Menos brilhante do que no passado, porém mais sólida e consciente de sua realidade, a Bélgica chega à Copa do Mundo de 2026 com condições de competir em alto nível e surpreender quem ainda a avalia pelos padrões de sua antiga geração.


Egito



Há uma discussão que inevitavelmente vai surgir quando se olha para o cenário do futebol africano: o Egito pode até ser, em termos de títulos continentais, uma das seleções mais dominantes do continente, mas ainda carrega um contraste quase paradoxal quando o palco é o maior de todos.


No discurso esportivo mais duro, quase implacável, há um dado que sempre reaparece: o Egito nunca venceu uma partida em Copas do Mundo. Nenhuma. Desde a sua estreia em 1934, a seleção egípcia não conseguiu transformar presença em resultado no cenário mundial. É uma espécie de tabu histórico que atravessa gerações e que, inevitavelmente, se transforma em obsessão à medida que se aproxima 2026.


E é justamente nesse contexto que a federação egípcia parece ter encerrado a era das apostas exóticas, das soluções importadas e dos projetos experimentais. O comando agora é interno, quase identitário. A equipe foi entregue a uma figura que simboliza resistência e pertencimento: Hossam Hassan.


Mais do que treinador, Hassan é uma referência histórica. Ídolo como jogador, artilheiro, agora líder técnico. Um perfil que mistura autoridade emocional com exigência quase militar. E ele chega com uma missão clara: reorganizar o teto competitivo de um time que sempre flerta com o potencial, mas raramente o transforma em ruptura.


No centro de tudo, como não poderia ser diferente, está Mohamed Salah. Talvez o maior jogador da história do país, vivendo o que pode ser seu último grande ciclo com a seleção. Um “last dance” carregado de simbolismo, responsabilidade e urgência.


A classificação para o Mundial veio com um tom diferente dos ciclos anteriores. Mais sólida, mais dominante, com a sensação de uma equipe que reencontrou um certo “instinto competitivo”. O Egito não apenas venceu jogos — ele impôs ritmo, controle e, em muitos momentos, intensidade física e agressiva.


Há uma mudança estrutural clara: menos estética, mais verticalidade. Menos construção lenta, mais transição direta. Um time que tenta encurtar o campo e acelerar decisões. E isso não é casual. É projeto.


Hassan desenha uma equipe que pode alternar entre um 4-3-3 mais elástico e um 4-2-3-1 como estrutura base. Em jogos grandes, especialmente contra seleções como Bélgica, a tendência é baixar linhas, compactar zonas centrais e explorar o erro adversário. Já diante de rivais mais acessíveis no grupo — como Nova Zelândia ou até mesmo uma seleção física e competitiva como Irã — o plano passa por acelerar transições e buscar profundidade.


O desenho defensivo também chama atenção. Não se trata de uma equipe que quer ter a bola a qualquer custo. Pelo contrário: o Egito aceita sofrer sem posse, mas não aceita desorganização. O bloco médio-baixo é a base do sistema. Curto, compacto, quase disciplinado em excesso.


A lógica é simples: recuperar e atacar em poucos toques. E nesse ponto, a seleção é perigosa. Com poucos jogadores, consegue gerar muito impacto. Salah como referência absoluta, mas com complementos importantes como Omar Marmoush, que oferece profundidade e explosão, e Emam Ashour, que surge como um cérebro criativo capaz de conectar meio e ataque com agressividade.


Há também espaço para variações, como o uso de Trézéguet em amplitude, oferecendo desequilíbrio pelo lado esquerdo, ou mesmo soluções mais conservadoras em jogos específicos. Outro ponto-chave está nas bolas paradas. Em seleções com limitações criativas em determinados contextos, esse tipo de recurso vira arma estratégica — e o Egito sabe explorar isso. Com qualidade de execução e presença física, torna-se uma via real de decisão.

O ponto central, porém, continua sendo o mesmo: tudo passa por Salah. Ele não é apenas finalizador, mas também catalisador. Atrai marcações, abre espaços, reorganiza estruturas defensivas adversárias. E, em torno dele, o time tenta se reorganizar para potencializar o restante.

O Egito de 2026 não parece mais o time travado, previsível ou excessivamente dependente de inspiração individual. É uma seleção mais agressiva, mais direta e, sobretudo, mais consciente das próprias limitações.


Irã


O desafio sociopolítico que a seleção do Irã enfrentará em território norte-americano durante a Copa do Mundo de 2026 não pode obscurecer uma realidade fundamental: estamos falando de uma das maiores potências do futebol asiático. Ainda assim, existe uma contradição difícil de ignorar. Em seis participações em Mundiais, os iranianos jamais conseguiram superar a fase de grupos. É justamente essa barreira histórica que a equipe tentará derrubar em 2026, em um contexto cercado por tensões geopolíticas e por uma pressão que vai muito além das quatro linhas.


A sensação é de que o Irã vive uma mudança de ciclo. O período marcado pelo pragmatismo extremo e pela postura excessivamente reativa parece ter ficado para trás. Sob o comando de Amir Ghalenoei, a seleção passou a buscar soluções mais ambiciosas sem abrir mão da solidez defensiva que sempre caracterizou o futebol iraniano. O resultado é uma equipe que continua difícil de enfrentar, mas que agora demonstra maior capacidade criativa e ofensiva.


A campanha nas Eliminatórias reforçou essa impressão. O Irã atravessou a classificação com autoridade, impondo seu ritmo e demonstrando um poder de decisão que poucas seleções asiáticas conseguiram igualar. Mesmo sem contar com Sardar Azmoun, durante anos a principal referência técnica da equipe, os iranianos encontraram novos protagonistas e consolidaram uma geração que já não vive apenas de promessas. Muitos dos jogadores que antes representavam o futuro agora assumem o presente da seleção.


No Grupo G, o cenário parece relativamente favorável. O confronto diante do Egito surge como o principal divisor de águas da campanha, enquanto a Nova Zelândia aparece, ao menos teoricamente, um degrau abaixo. Já a Bélgica continua sendo o grande parâmetro competitivo da chave. No papel, os europeus possuem mais talento e profundidade, mas o Irã reúne características suficientes para equilibrar esse duelo e transformar qualquer partida em uma batalha estratégica.


Taticamente, a equipe costuma partir de um 4-2-3-1 bastante flexível. Dependendo do adversário, o sistema pode facilmente se transformar em um 4-5-1 ou até mesmo em uma linha de cinco defensores. O objetivo é claro: reduzir espaços entre os setores, proteger a última linha e obrigar o adversário a circular a bola longe das zonas mais perigosas do campo.

No gol, Alireza Beiranvand continua sendo uma figura incontestável. Sua experiência, segurança sob as traves e capacidade de iniciar contra-ataques rapidamente fazem dele uma peça central no funcionamento coletivo da equipe. À frente dele, a defesa procura manter organização e disciplina, enquanto o meio-campo combina intensidade física com qualidade técnica através de jogadores como Saman Ghoddos e Saeid Ezatolahi.

Ghoddos, aliás, talvez seja o grande cérebro criativo da seleção. É dele que surgem muitas das conexões entre meio-campo e ataque. Sua visão de jogo, capacidade de encontrar espaços e qualidade nas bolas paradas oferecem ao Irã uma ferramenta valiosa em partidas equilibradas. Ao seu lado, Ezatolahi acrescenta força física, cobertura defensiva e equilíbrio posicional.

Mais à frente, Alireza Jahanbakhsh representa a experiência e a inteligência tática de quem acumulou anos de futebol europeu. Com o passar do tempo, deixou de ser apenas um ponta veloz para se transformar em um jogador mais associativo, capaz de participar da construção das jogadas e interpretar diferentes momentos da partida. Sua leitura de jogo tornou-se tão importante quanto sua capacidade técnica.

Mas a principal referência ofensiva continua sendo Mehdi Taremi. Sem Azmoun, o atacante assume ainda mais responsabilidades dentro da estrutura iraniana. Além de ser o principal finalizador da equipe, Taremi oferece mobilidade, jogo de costas para a defesa e capacidade para criar espaços para os companheiros. É um atacante completo, experiente e extremamente frio diante do gol. Sua influência vai muito além dos números.

Uma das características mais interessantes deste Irã está na maneira como administra os momentos sem a bola. Diferentemente de seleções que apostam em um bloco excessivamente baixo, os iranianos preferem defender em uma altura intermediária, mantendo a equipe compacta e pronta para pressionar quando surge a oportunidade. A ideia não é apenas sobreviver à pressão rival, mas criar as condições ideais para recuperar a posse e acelerar imediatamente.

Quando recupera a bola, a equipe costuma ser extremamente objetiva. Os extremos alternam movimentos por dentro e por fora, os meias aproximam-se rapidamente da área e Taremi oferece a referência necessária para concluir as jogadas. Não é um time que precisa de muitos passes para chegar ao gol adversário. Pelo contrário: sua força está justamente na velocidade com que transforma recuperação em ataque.

Por outro lado, existem limitações evidentes. Em ataques posicionais, quando precisa propor o jogo contra defesas fechadas, o Irã perde parte de sua eficiência. Falta fluidez na circulação da bola e sobram dificuldades para desmontar blocos muito compactos. É uma equipe que se sente mais confortável reagindo aos acontecimentos da partida do que assumindo completamente o protagonismo.

Nesse contexto, as bolas paradas ganham importância ainda maior. Escanteios, faltas laterais e cobranças próximas da área fazem parte do arsenal ofensivo iraniano. A equipe possui bons executores e jogadores fortes no jogo aéreo, transformando esse recurso em uma arma permanente.

Outro aspecto relevante é a experiência do elenco. Poucas seleções chegam ao Mundial com uma média de idade tão elevada. Embora isso possa levantar dúvidas sobre intensidade física em determinados momentos, também significa maturidade competitiva, liderança e capacidade para lidar com cenários adversos. Em torneios curtos, esse tipo de bagagem costuma ter valor considerável.


O Irã chega à Copa do Mundo cercado por desafios que ultrapassam o futebol. Ainda assim, dentro de campo, apresenta uma combinação interessante de organização defensiva, experiência e talento ofensivo. Talvez não seja uma seleção que encante pela estética, mas certamente possui recursos para incomodar qualquer adversário do grupo. E, pela primeira vez em muito tempo, existe a sensação de que superar a fase de grupos não é apenas um sonho distante, mas uma possibilidade concreta.



Nova Zelândia



A Nova Zelândia garantiu sua vaga na Copa do Mundo apresentando uma evolução tática considerável. Embora o vigor físico e o jogo direto continuem sendo marcas registradas do futebol da Oceania, os “All Whites” chegam aos Estados Unidos com uma equipe muito mais organizada coletivamente e capaz de alternar ritmos de jogo.


A equipe se organiza prioritariamente em um 3-4-2-1 (que se transforma em um sólido 5-4-1 na fase defensiva). A linha de três defensores dá sustentação para que os alas, especialmente Liberato Cacace pela esquerda, tenham liberdade total para apoiar o ataque. No meio-campo, a Nova Zelândia aposta na capacidade de retenção e distribuição de Marko Stamenic para ditar o ritmo e evitar que o time apenas abuse dos chutões para frente.

O plano ofensivo neozelandês converge inteiramente para a figura de Chris Wood. O veterano centroavante é o ponto focal de todas as ações: ele ganha os duelos aéreos para acionar os meias que chegam de trás (como Sarpreet Singh) e limpa as jogadas na força física. Além disso, a Nova Zelândia trata a bola parada (escanteios e faltas laterais) como um argumento tático de elite. Em jogos fechados contra defesas pesadas, o jogo aéreo surge como a principal via de sobrevivência e pontuação para a equipe da Oceania.




Grupo H: Espanha, Uruguai, Cabo Verde e Arábia Saudita. 




Espanha



A Espanha desembarca na Copa do Mundo de 2026 consolidada como uma das principais forças do planeta futebolístico. Sob o comando de Luis de la Fuente, a La Roja carrega o prestígio da conquista maiúscula da Euro 2024 e a solidez de um ciclo contínuo de evolução. O modelo implementado funde a tradicional capacidade técnica de controle de jogo com a agressividade elétrica de seus jovens pontas. Entretanto, a transposição automática do sucesso de 2024 para o cenário atual muitas vezes ignora uma variável crítica, que é a avalanche de lesões e a instabilidade física de peças fundamentais ao longo da temporada de preparação.


Historicamente, o futebol de clubes apresenta uma superioridade tática e de entrosamento em relação ao futebol de seleções devido ao tempo de trabalho diário. Contudo, a Espanha de Luis de la Fuente desafia essa lógica, operando com mecanismos tão bem definidos que se assemelha a uma equipe de elite de clubes no seu mais alto nível. Mais do que apenas reter a bola de forma protocolar, a seleção atual sufoca o adversário por meio de uma pressão pós-perda agressiva e linhas extremamente adiantadas. O objetivo é claro, que consiste em recuperar a bola ainda no campo de ataque para disparar transições verticais e avassaladoras. Se antes a Espanha apenas era reconhecida por controlar os rivais com a posse de bola, hoje ela os agride diretamente com ela.

Na meta defensiva, embora as grandes temporadas de David Raya na Premier League e de Joan García em La Liga ofereçam alternativas de nível elevado, a hierarquia estabelecida por De la Fuente assegura a titularidade de Unai Simón. A linha de zaga projeta-se com a juventude de Pau Cubarsí e a experiência de Aymeric Laporte na faixa central, enquanto as laterais apresentam dinâmicas assimétricas. Na esquerda, Marc Cucurella desponta como a opção principal pela profundidade e combatividade, mantendo Álex Grimaldo como um reserva de alto impacto estatístico. Na direita, a escolha tende a ser Marcos Llorente, lateral que atua de forma interna — semelhante ao comportamento de Joshua Kimmich —, compensando defensivamente e permitindo que as alternativas de Pedro Porro e Marc Pubil ofereçam maior profundidade externa quando necessário.

O meio-campo espanhol destaca-se pela capacidade de circulação e controle, tendo Rodri como a peça mais vital do sistema. O volante do Manchester City atua como o eixo criativo e o principal esteio na transição defensiva, ditando o ritmo da equipe em cenários de blocos baixos. Diante das condições físicas incertas de Fabián Ruiz e da ausência de Fermín López, Pedri assume a responsabilidade de gerenciar o volume criativo na faixa central. O posicionamento de Pedri como um interior associativo abre espaço para que Dani Olmo ou Gavi operem na zona de entrelinhas como autênticos meias de ligação, garantindo fluidez e criatividade no terço final do campo.

Os setores laterais do ataque enfrentam dilemas físicos importantes, especialmente pela dúvida em relação às condições de Nico Williams para iniciar o torneio entre os titulares. Diante dessa limitação, o desenho tático ganha contornos mais dinâmicos com a entrada de Álex Baena pelo lado esquerdo, atuando de maneira construtiva e liberando o corredor para as investidas de Cucurella. No flanco oposto, Lamine Yamal consolida-se como o elemento mais desequilibrante da seleção. A tendência evolutiva do jovem atacante aponta para diagonais frequentes em direção ao centro, gerando superioridade numérica por dentro, abrindo espaço para as ultrapassagens de Llorente e oferecendo o recurso do chute de média distância.

A posição de centroavante permanece como o setor de maior debate tático e variação de características. Mikel Oyarzabal inicia o ciclo como a referência principal devido à sua inteligência para desmarchar, flutuar pelos lados e arrastar marcações, gerando espaços para a infiltração dos meio-campistas. Como alternativas para o comando de ataque, o elenco dispõe da mobilidade de Ferran Torres e da presença de Borja Iglesias, centroavante específico para reter a zaga adversária e atuar dentro da área. Integrada no Grupo H ao lado de Uruguai, Arábia Saudita e Cabo Verde, a Espanha projeta sua força na capacidade de ditar o ritmo através da posse e na genialidade individual de suas promessas para furar defesas compactas e buscar uma vaga nas fases agudas do Mundial.




Cabo Verde



Cabo Verde chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das histórias mais improváveis e fascinantes do torneio. Com pouco mais de meio milhão de habitantes espalhados por um arquipélago no Atlântico — e com uma diáspora maior do que a própria população residente — os Tubarões Azuis conquistaram pela primeira vez uma vaga em um Mundial. Só isso já bastaria para chamar atenção. Mas há mais motivos para acompanhar essa seleção.

No Grupo H, ao lado de Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, os cabo-verdianos aparecem naturalmente como a equipe menos favorita. Ainda assim, seria um erro tratá-los apenas como figurantes. Cabo Verde construiu sua campanha apoiada em uma identidade muito clara: organização defensiva, disciplina tática e eficiência nas transições. É um time que aprendeu a competir a partir da resistência e que raramente perde sua estrutura dentro dos jogos.

O trabalho de Bubista consolidou uma seleção sem grandes estrelas globais, mas extremamente comprometida coletivamente. O ambiente interno é descrito como saudável, sem disputas de protagonismo, algo que se reflete em campo. A equipe sabe exatamente quais são suas limitações e, principalmente, quais são suas virtudes. Em um grupo onde Espanha e Uruguai chegam como favoritos absolutos, Cabo Verde pode desempenhar um papel decisivo na definição das posições finais.

A possibilidade de avançar para a fase eliminatória não é uma fantasia distante. O novo formato da Copa amplia o peso dos melhores terceiros colocados, e isso abre uma janela real para os africanos. A disputa direta com a Arábia Saudita pode ser determinante nessa corrida, especialmente porque os sauditas chegam ao torneio cercados de dúvidas após uma preparação turbulenta.

Taticamente, a base da equipe é um 4-3-3 bastante funcional. Em determinados contextos, especialmente contra adversários de maior qualidade técnica, o sistema pode se transformar em um 4-2-3-1 mais conservador. A prioridade é sempre a mesma: fechar os espaços por dentro, proteger o corredor central e obrigar o adversário a construir pelos lados. Quando recupera a posse, o time acelera imediatamente pelos corredores, aproveitando a velocidade dos pontas e a chegada dos laterais.

A defesa tem como principal referência Logan Costa. O zagueiro, que atua no futebol espanhol, é dominante pelo alto, forte nos duelos e transmite segurança ao sistema defensivo. Ao seu lado, Pico López completa uma dupla que será constantemente exigida diante da qualidade ofensiva de espanhóis e uruguaios.

No meio-campo, Jamiro Monteiro é provavelmente o jogador mais importante na construção das jogadas. Inteligente, técnico e com boa visão de jogo, ele funciona como o cérebro criativo da equipe. É dele que saem os passes que conectam defesa e ataque, além da capacidade de encontrar soluções em espaços reduzidos. Mesmo sem ser um meia de números exuberantes, sua influência no funcionamento coletivo é enorme.

Pelas pontas, Cabo Verde possui diferentes alternativas. Ryan Mendes segue como uma das grandes referências da seleção. Capitão, líder técnico e um dos maiores nomes da história do futebol cabo-verdiano, combina experiência internacional com capacidade de decisão. Pode atuar aberto ou por dentro, participa da construção das jogadas e ainda mantém eficiência na finalização. Jogadores como Garry Rodrigues, Giovane Cabral e Willy Semedo ampliam o leque de opções para um setor que será fundamental nas transições rápidas.

Na frente, todas as atenções se voltam para Dion Rocha Livramento. Ainda jovem, o atacante representa o perfil moderno de centroavante: veloz, agressivo atacando espaços e capaz de finalizar de diferentes maneiras. É o jogador que simboliza a principal arma ofensiva da equipe. Quanto mais espaço encontrar para correr nas costas das defesas adversárias, mais perigoso Cabo Verde se tornará.

A dinâmica ofensiva dos africanos é relativamente simples, mas muito eficiente. As linhas permanecem compactas durante a fase defensiva, os jogadores encurtam espaços e tentam recuperar a bola em zonas estratégicas. A partir daí, a transição acontece com poucos passes. Os pontas aceleram pelos lados, Monteiro procura ocupar os espaços entre linhas e Livramento ataca a área. Não é um futebol elaborado em posse longa, mas sim um modelo construído para maximizar recursos e explorar erros dos adversários.

Contra Espanha e Uruguai, a tendência é ver um bloco médio-baixo durante boa parte dos jogos. A equipe deve aceitar períodos sem a bola e apostar na sua capacidade de sobrevivência. Já diante da Arábia Saudita, é possível imaginar um cenário mais equilibrado, com Cabo Verde tendo condições de pressionar mais alto e assumir alguns riscos adicionais.

O grande desafio será manter a consistência defensiva ao longo de três partidas extremamente exigentes. O Mundial colocará à prova justamente aquilo que trouxe a seleção até aqui: organização, concentração e capacidade de competir contra equipes tecnicamente superiores. Se conseguir preservar essas características, Cabo Verde tem condições de transformar sua estreia em Copa do Mundo em uma das histórias mais marcantes do torneio.

Sem a pressão que recai sobre as potências do grupo, os Tubarões Azuis chegam ao Mundial carregando apenas a ambição de continuar surpreendendo. E talvez seja exatamente essa combinação de humildade, disciplina e convicção tática que faça de Cabo Verde um adversário muito mais perigoso do que a tabela sugere à primeira vista.




Arábia Saudita


A Arábia Saudita chega à Copa do Mundo de 2026 cercada por uma contradição difícil de ignorar. Nos últimos anos, o país investiu bilhões para transformar a Saudi Pro League em uma das ligas mais atrativas e midiáticas do planeta. O projeto trouxe estrelas internacionais, ampliou a visibilidade do futebol saudita e acelerou o crescimento da competição local. Mas, ao mesmo tempo, produziu um efeito colateral importante: muitos jogadores da seleção nacional perderam espaço, minutos e protagonismo dentro dos próprios clubes.

O reflexo desse processo apareceu dentro de campo. A classificação para o Mundial foi muito mais complicada do que se imaginava, expondo limitações que há algum tempo vinham sendo mascaradas. A seleção que surpreendeu o mundo ao derrotar a Argentina na Copa de 2022 não conseguiu sustentar a mesma competitividade nos anos seguintes e precisou recorrer à repescagem asiática para garantir presença no torneio de 2026.

Os resultados recentes aceleraram uma mudança drástica. A passagem de Hervé Renard chegou ao fim após uma sequência negativa de amistosos e, a menos de dois meses da Copa, a federação decidiu apostar em Georgios Donis. A troca de comando não resolve automaticamente os problemas da equipe, mas representa uma tentativa de recuperar uma identidade que parece ter se perdido ao longo do ciclo.

A escolha de Donis não aconteceu por acaso. Diferentemente de muitos treinadores estrangeiros que passaram pelo país nos últimos anos, ele conhece profundamente o futebol saudita. Trabalhou em clubes importantes da liga local, entende as características dos jogadores e chega com a missão de extrair o máximo de um elenco formado quase integralmente por atletas que atuam na Saudi Pro League. Dos convocados, apenas Saud Abdulhamid joga fora do país.

O cenário, porém, está longe de ser confortável. A Arábia Saudita caiu em um grupo extremamente complicado, ao lado de Espanha, Uruguai e Cabo Verde. Em teoria, espanhóis e uruguaios aparecem como favoritos naturais às duas primeiras posições. Isso transforma o duelo contra Cabo Verde em uma partida potencialmente decisiva, embora subestimar qualquer adversário seja um erro para uma seleção que ainda busca estabilidade.

Taticamente, a equipe deve partir de uma estrutura baseada no 4-2-3-1, embora possa variar dependendo do contexto da partida. Mais do que o desenho em si, a principal preocupação parece ser a organização defensiva. Nos amistosos recentes, ficou evidente a dificuldade da equipe para defender em bloco e reagir quando pressionada por adversários de maior qualidade técnica.

Um dos principais problemas está na distância entre os setores. Quando acelera suas transições ofensivas, a Arábia Saudita frequentemente se alonga demais em campo. Os jogadores de ataque avançam rapidamente, mas o restante da equipe nem sempre acompanha na mesma velocidade. Isso cria espaços consideráveis entre defesa, meio-campo e ataque, facilitando a vida dos adversários quando recuperam a posse.

Ao mesmo tempo, existe uma virtude clara nesse modelo. Quando consegue roubar a bola em zonas intermediárias, a seleção saudita é extremamente perigosa. A transição ofensiva continua sendo uma de suas principais armas. Contra equipes que costumam controlar a posse, como Espanha e Uruguai, é provável que a estratégia passe justamente por esperar, compactar os espaços centrais e acelerar pelos corredores laterais assim que recuperar a bola.

Nesse contexto, Salem Al-Dawsari continua sendo a principal referência técnica da equipe. Herói da histórica vitória sobre a Argentina em 2022, ele segue sendo o jogador mais talentoso e criativo do elenco. Parte da esquerda, mas tem liberdade para circular por diferentes setores do campo. Sua capacidade de conduzir, driblar em espaços curtos e finalizar de média distância faz dele o principal responsável por gerar desequilíbrios no ataque saudita.

Outro nome fundamental é Mohamed Kanno. Talvez não seja o jogador mais midiático da equipe, mas é possivelmente o mais importante para o funcionamento coletivo. Atua como ponto de equilíbrio entre os setores, protege a defesa, ajuda na saída de bola e frequentemente recua entre os zagueiros para organizar a construção das jogadas. É o tipo de jogador que raramente aparece nas manchetes, mas cuja ausência costuma ser percebida imediatamente.

Na defesa, Saud Abdulhamid representa uma exceção dentro do elenco. Único convocado atuando fora da Arábia Saudita, chega após uma temporada competitiva no futebol europeu. Sua intensidade física, velocidade e capacidade de percorrer todo o corredor direito oferecem uma alternativa importante tanto para apoiar o ataque quanto para corrigir problemas defensivos em transições.

No ataque, Firas Al-Buraikan surge como a principal referência. Embora não tenha o mesmo peso técnico de Al-Dawsari, oferece presença física, mobilidade e capacidade de atacar espaços. Sua função será fundamental para transformar as transições rápidas da equipe em oportunidades concretas de gol.

A sensação é de que a Arábia Saudita chega ao Mundial vivendo um momento de redefinição. O crescimento da liga local não foi acompanhado por uma evolução equivalente da seleção, e a troca de treinador às vésperas da competição evidencia a preocupação da federação com o rumo do projeto esportivo.

Ainda assim, seria um erro tratar os sauditas apenas como coadjuvantes. A vitória sobre a Argentina em 2022 permanece como um lembrete de que a equipe é capaz de competir quando encontra o contexto ideal. O problema é que, desta vez, o desafio parece ainda maior. Entre a busca por uma nova identidade e a necessidade de sobreviver a um dos grupos mais difíceis da competição, a Arábia Saudita tentará provar que ainda pode surpreender. Mas, para isso, precisará encontrar rapidamente respostas que não conseguiu construir ao longo de todo o ciclo.


Uruguai
 
 

O Uruguai chega à Copa do Mundo de 2026 carregando o peso de uma das histórias mais ricas do futebol mundial e, ao mesmo tempo, convivendo com a sensação de que ainda não conseguiu transformar seu potencial recente em uma campanha verdadeiramente marcante. Tetracampeã mundial se forem considerados os dois títulos olímpicos reconhecidos pela FIFA antes da criação da Copa do Mundo e bicampeã do torneio em seu formato atual, a Celeste segue sendo uma potência histórica. No entanto, desde o quarto lugar conquistado na África do Sul, em 2010, a seleção uruguaia tem alternado bons momentos e frustrações, sem conseguir dar o salto definitivo que sua geração parece prometer há anos.

O ciclo comandado por Marcelo Bielsa talvez seja o melhor retrato dessa dualidade. Em alguns momentos, o Uruguai apresentou um futebol agressivo, intenso e capaz de competir de igual para igual com qualquer adversário do planeta. Em outros, revelou fragilidades que impediram a consolidação de um projeto mais estável. Ainda assim, a sensação é de que a equipe chega ao Mundial mais madura, mais consciente das suas virtudes e limitações e, principalmente, mais preparada para lidar com a pressão que naturalmente acompanha uma seleção de tanta tradição.

Inserida em um grupo complicado ao lado de Espanha, Arábia Saudita e Cabo Verde, a equipe sul-americana aparece como uma das favoritas à classificação. O confronto contra os espanhóis surge como um dos mais aguardados da fase de grupos e pode acabar definindo a liderança da chave. Mas, para além da tabela, o que chama atenção é a construção de uma equipe que parece cada vez mais alinhada às ideias de Bielsa.

O desenho tático base continua sendo o 4-3-3, embora apresente variações constantes ao longo das partidas. A principal dúvida gira em torno da condição física de Giorgian De Arrascaeta. O meia é uma das referências criativas da seleção e sua eventual ausência representa uma perda considerável. Caso não tenha condições de atuar, Nicolás De La Cruz surge como a alternativa mais natural para ocupar esse espaço entre o meio-campo e o ataque, assumindo a responsabilidade de conectar os setores e acelerar a circulação da bola.

No gol, Sergio Rochet parece consolidado como titular. Seguro, experiente e acostumado a jogos de alta exigência, oferece estabilidade a uma equipe que costuma defender muitos metros à frente da própria área. Atrás dele, nomes como Fernando Muslera e Santiago Mele garantem profundidade a uma posição tradicionalmente forte no futebol uruguaio.

A linha defensiva reúne alguns dos principais talentos da geração. Ronald Araújo e José María Giménez formam uma dupla de zaga capaz de competir fisicamente com qualquer ataque do torneio. São defensores agressivos, dominantes nos duelos e confortáveis em sistemas que exigem marcação adiantada. O desafio estará justamente em administrar os riscos inerentes ao modelo de Bielsa, que frequentemente expõe seus zagueiros a grandes espaços nas costas da defesa.

Pelas laterais, a tendência é que Guillermo Varela ocupe o lado direito, enquanto Maxi Araújo apareça pela esquerda em uma função híbrida, repetindo um papel que lhe trouxe bons resultados no futebol europeu. A adaptação de Maxi como lateral ampliou significativamente as possibilidades ofensivas da equipe, oferecendo profundidade sem comprometer a intensidade defensiva.

No meio-campo, Manuel Ugarte é uma peça central. Sua importância vai muito além da recuperação de bolas. É ele quem organiza a pressão, equilibra a equipe e oferece suporte aos companheiros quando o jogo se torna mais caótico. Sua leitura de jogo permite que o Uruguai pressione alto sem perder completamente a estrutura, algo essencial em um modelo tão agressivo.

Ao seu lado está Federico Valverde, provavelmente o jogador mais completo da seleção. Poucos atletas no futebol mundial conseguem influenciar tantas fases do jogo quanto o camisa 15 uruguaio. Ele participa da construção, protege espaços, acelera transições, chega à área e ainda oferece uma ameaça constante em chutes de média distância. Sua capacidade de interpretar diferentes cenários faz dele o grande motor da equipe.

Mais à frente, De La Cruz assume um papel de articulação que combina mobilidade, intensidade e inteligência posicional. É um jogador que raramente permanece estático. Circula por toda a faixa central, aproxima setores e encontra espaços onde outros não enxergam. Sua conexão com os atacantes pode ser determinante para o sucesso uruguaio.

Nas pontas, Bielsa conta com jogadores que encaixam perfeitamente em sua ideia de futebol vertical. Brian Rodríguez e Agustín Canobbio oferecem velocidade, profundidade e capacidade de atacar espaços constantemente. Ambos podem atuar abertos ou infiltrar por dentro, criando movimentações que confundem marcações e abrem corredores para as ultrapassagens dos laterais.

No comando do ataque está Darwin Núñez. Poucos jogadores simbolizam tão bem as contradições desta seleção. Ao mesmo tempo em que desperta dúvidas pela irregularidade, continua sendo uma ameaça permanente para qualquer defesa. Sua potência física, capacidade de atacar profundidade e presença de área fazem dele a principal referência ofensiva da equipe. Nem sempre converte todas as oportunidades que cria, mas participa de um volume tão grande de ações perigosas que acaba sendo decisivo com frequência.

A identidade de jogo é claramente influenciada por Bielsa. O Uruguai procura pressionar alto, recuperar a bola rapidamente e acelerar as jogadas sempre que possível. A posse de bola não é um objetivo em si mesma. Ela serve para criar condições de atacar. Quando encontra espaço, a equipe verticaliza imediatamente, buscando aproveitar a velocidade dos pontas e os movimentos de Darwin Núñez.

Ao mesmo tempo, existe uma evolução importante em relação às primeiras versões do trabalho do treinador argentino. Hoje, a equipe demonstra maior capacidade de adaptação. Em determinados momentos, consegue baixar suas linhas, fechar espaços e defender em um bloco mais compacto. Essa flexibilidade pode ser decisiva em partidas de mata-mata, onde nem sempre será possível controlar o ritmo do jogo através da pressão.

Ainda assim, alguns problemas permanecem. O principal deles aparece justamente quando a pressão inicial é superada. Como a equipe atua com muitos jogadores à frente da linha da bola, os espaços deixados nas costas podem se tornar perigosos. Por isso, a atuação dos zagueiros e a capacidade de recuperação coletiva serão determinantes ao longo da competição.

Entre os nomes mais importantes do elenco, Valverde surge como a principal figura. Não apenas pelo talento individual, mas pela influência que exerce em todas as fases do jogo. Darwin Núñez continua sendo a referência ofensiva, enquanto Araújo e Giménez formam uma das duplas defensivas mais respeitadas do torneio. Ugarte, por sua vez, é o jogador que dá equilíbrio ao sistema, muitas vezes sem receber o mesmo reconhecimento dos companheiros mais midiáticos.

O potencial desta seleção é inegável. O elenco combina experiência internacional, intensidade física e qualidade técnica suficiente para enfrentar qualquer adversário. A questão é saber se conseguirá transformar essas virtudes em uma campanha consistente. O Uruguai chega ao Mundial com recursos para sonhar alto, mas também com a consciência de que precisará encontrar o equilíbrio perfeito entre a ousadia proposta por Bielsa e a solidez que os grandes torneios exigem. Se conseguir unir essas duas dimensões, a Celeste tem tudo para voltar a ocupar um lugar de destaque entre as protagonistas da Copa do Mundo.




Grupo I: França, Noruega, Senegal e Iraque.


França


A França chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das grandes favoritas. Campeã do mundo em 2018 e vice de forma dramática contra a Argentina em 2022, a seleção esteve nas últimas duas finais e segue muito forte. Quando olhamos para o elenco, para a força do grupo e para o trabalho consolidado, não tem como tirá-la dessa lista. É claro que surpresas sempre podem acontecer — a própria França já protagonizou grandes decepções em copas neste século —, mas o fato é que ela entra certamente no topo entre as favoritas, impulsionada principalmente por sua imensa capacidade individual.

Para 2026, especificamente, a França tem uma enorme quantidade de grandes nomes, o que gera o desafio de como montar o time ideal encaixando todo mundo. Com Mbappé, Dembélé, Olise, Doué e Cherki, são muitos recursos individuais do meio para a frente. Dificilmente esses cinco estarão em campo ao mesmo tempo; o mais provável é que joguem três ou quatro deles. Antes de projetar o time atual, porém, vale lembrar que a França costuma trazer novidades em cima da hora. Em 2022, passou o ciclo testando três zagueiros e chegou na Copa jogando com linha de quatro e uma função totalmente nova para Griezmann. Em 2018, a competição foi muito marcada pela presença de Matuidi.

Essas compensações históricas servem para entender como Deschamps deixa suas peças principais mais confortáveis e decisivas, mesmo que o time não domine o tempo todo. Em 2018, Matuidi era o meia pela esquerda em um teórico 4-2-3-1 assimétrico. Enquanto Mbappé era o ponta pela direita e Griezmann o camisa 10, Matuidi funcionava na prática como um terceiro meio-campista junto a Pogba e Kantê. Isso dava sustentação para que Griezmann e Mbappé desequilibrassem perto de Giroud. Naquela época, Mbappé corria um pouco mais para marcar por ser mais jovem, e a França ainda contava com laterais bem defensivos, como Pavard e Lucas Hernández.

Em 2022, a compensação tática foi ainda mais surpreendente. A ideia era ter Mbappé atacando os espaços vindo da ponta esquerda, que é onde ele mais gosta de atuar, sem a obrigação de trombar com os zagueiros como um 9 clássico. Para reequilibrar o time sem a bola, Griezmann teve uma dedicação gigantesca: ele baixava para virar um segundo volante por dentro, fechando uma segunda linha de quatro junto com Rabiot (que abria pela esquerda) e Dembélé (que baixava pela direita). Isso permitia que Mbappé ficasse mais solto e descansado na altura do meio-campo. Sabendo que a França permite que o adversário ataque, recuperar a bola com um Mbappé descansado para correr nas costas da defesa era uma arma e tanto.

Essa estratégia funcionou tão bem que Mbappé chega a esta Copa com 12 gols somados, podendo tranquilamente pensar em bater o recorde de Klose (16 gols) já em 2026 ou em edições futuras. No entanto, um ponto crucial para este novo ciclo é a ausência de Griezmann, que se aposentou da seleção. Ele foi o grande craque e a engrenagem do equilíbrio coletivo da França na última década. Sem ele, os franceses perdem esse esteio, embora tenham várias outras peças de muita qualidade.

Olhando para a montagem do ataque atual no 4-2-3-1, muitos pensam em Mbappé como o 9 centralizado, mas ele rende melhor com liberdade para flutuar ao lado de outro atacante. Nos testes de março, contra o Brasil, Deschamps vinha testando Ekitike para fazer essa função: sem a bola, ele fechava o corredor esquerdo e virava o 9 na marcação para liberar Mbappé; com a bola, abria espaço e permitia que Mbappé caísse pelo lado esquerdo. Infelizmente, a lesão de Ekitike foi um desfalque muito relevante para o plano do treinador.

Sem Ekitike, Marcus Thuram surge como o favorito para exercer esse papel de compensação, algo que ele já fez vindo do banco em 2022. Com bola, Thuram aparece mais entre os zagueiros; sem bola, ele ajuda muito mais na marcação do que Mbappé. Caso Deschamps não opte por Thuram ou Kolo Muani nessa função, o cenário muda e abre espaço para jogadores de outras características no lado esquerdo, como o meia driblador Désiré Doué ou a velocidade de Barcola em transições rápidas — este último mais provável para o segundo tempo.

 

Senegal


A seleção de Senegal chega à Copa do Mundo de 2026 credenciada pelo título da Copa Africana de Nações conquistado em 2025 dentro das quatro linhas, ainda que a taça seja alvo de uma disputa jurídica nos tribunais da FIFA. Sob o comando de Pape Thiaw, que na histórica campanha do Mundial de 2002 deu a assistência para o gol da vitória sobre a então campeã França na partida de abertura, a equipe reencontra os franceses no Grupo I. O treinador tem implementado um processo de renovação geracional pautado na flexibilidade tática e em uma identidade mais jovem e veloz, transformando o estilo senegalês em um modelo focado em posses de bola dinâmicas, associações internas e liberdade ofensiva, com capacidade de alteração estrutural no decorrer das partidas.

A tendência para a competição é a manutenção do esquema 4-3-3 em detrimento de variações como o 4-4-2 ou o 4-2-3-1, as quais devem ser utilizadas pontualmente como ferramentas defensivas ou contra adversários de maior peso. A plataforma com três meio-campistas favorece a circulação fluida da bola e potencializa o rendimento dos pontas Ismaïla Sarr e Sadio Mané. Na meta, Edouard Mendy se consolida como o titular incontestável, enquanto a linha defensiva é liderada por Kalidou Koulibaly e Moussa Niakhaté na zaga. Nas laterais, o jovem El Hadji Malick Diouf assume papel de destaque na esquerda, enquanto o meio-campista de origem Krépin Diatta atua improvisado no lado direito.

O equilíbrio do meio-campo sustenta-se em uma trinca composta por Idrissa Gana Gueye, Pape Gueye e Lamine Camara, com Habib Diarra surgindo como alternativa imediata. Esse trio confere solidez para baixar no terreno e atrair a pressão rival, abrindo linhas de passe para os atacantes. No setor ofensivo, Nicolas Jackson fixa a zaga adversária e serve como referência física para reter lançamentos longos, enquanto Ismaïla Sarr garante profundidade e amplitude pelo flanco direito. A grande dinâmica do ataque se dá pela assimetria do posicionamento de Sadio Mané, que deixa o corredor esquerdo livre para as subidas de Malick Diouf e se projeta para dentro, operando na zona de três quartos como um legítimo segundo atacante.

O modelo de jogo de Pape Thiaw destaca-se pela transição camaleônica entre fases de posse curta e acelerações verticais com poucos passes, explorando a explosão de suas peças em velocidade. Diante de propostas ofensivas que sobem as linhas de marcação, a velocidade de recomposição e o vigor físico de Koulibaly tornam-se vitais para proteger o espaço nas costas da zaga. No banco de reservas, a presença de Iliman Ndiaye oferece um perfil de drible elétrico e criatividade em curto espaço, despontando como o herdeiro técnico natural de Mané, enquanto jovens como Sandiao e Amara Diouf acrescentam profundidade ao elenco para fazer frente a um grupo exigente, que conta ainda com a competitividade de Noruega e Iraque.



Noruega


A Noruega retorna aos Mundiais, encerrando um hiato que durava desde 1998. O trabalho de Ståle Solbakken m muitodestaque porque ele conseguiu romper essa barreira competitiva, transformando uma equipe historicamente associada ao jogo direto e físico em um coletivo muito mais refinado, que preza pela posse de bola, saídas sustentadas e passes curtos, sem perder o peso de suas individualidades.

Quando a gente olha para a prancheta tática, a estrutura base do 4-3-3 se desenha com uma fluidez muito interessante, alternando para um 4-2-3-1 que encorpa o meio-campo e dá um controle maior com a bola, além de oferecer um bloco médio bem compacto defensivamente. No gol, o Nyland se consolidou como o titular dessa engrenagem, protegido por uma linha de quatro que tem uma assimetria bem nítida. Pela direita, o Ryerson é um lateral de enorme imposição, que avança o tempo todo e dá uma profundidade absurda ao corredor, enquanto o Møller Wolfe, na esquerda, atua de forma mais contida, quase como um elemento de equilíbrio para estruturar a pressão pós-perda e não poluir o espaço do ponta. Na zaga, a escolha pelo Østigård ao lado do Ajer prioriza demais a agressividade e a soberania nos duelos por cima, embora a opção pelo Heggem fizesse muito sentido para quem busca uma saída de bola mais limpa com um zagueiro canhoto de origem.

O grande segredo para essa engrenagem funcionar na fase de construção passa diretamente pelo Sander Berge como esse primeiro homem de meio-campo. Ele tem a capacidade de recuar entre os zagueiros, gerando uma saída de três que liberta os laterais e abre o leque de opções. Ao lado dele, o Aursnes é o operário perfeito, um jogador de rara inteligência tática, que preenche espaços, dita o ritmo da circulação e ainda pisca na área como elemento surpresa, disputando essa influência com o ótimo Patrick Berg. E, claro, a grande referência técnica para clarear as jogadas no último terço é o Martin Ødegaard. Mesmo vindo de temporadas abaixo do seu teto estipulado no Arsenal, ele continua sendo a bússola criativa da equipe, o cara que inicia a pressão alta e tem o passe de ruptura para acionar o ataque, tendo no Jens Petter Hauge um reserva imediato de características bem particulares.

Na frente, o desenho ofensivo potencializa o que a Noruega tem de melhor, a começar pelo Antonio Nusa na esquerda, que é o único ponta agudo e de drible desse elenco, o cara responsável por alargar o campo e buscar o um contra um. Pelo outro lado, o Sørloth atua de maneira muito inteligente, abandonando a linha lateral para se aproximar do miolo da área como um segundo atacante, abrindo o corredor para as subidas do Ryerson e oferecendo uma alternativa de peso ao Oscar Bobb, que seria um ponta mais clássico de manutenção. Essa movimentação toda orbita ao redor do Erling Haaland, um centroavante de instinto letal e potência física avassaladora que castigou os adversários com dezesseis gols nas eliminatórias. O plano do Solbakken é brilhante justamente por mesclar esse jogo associativo por baixo com a capacidade de esticar a bola no Haaland para ganhar a segunda jogada, além de explorar os cruzamentos laterais, aproveitando que a Noruega ostenta a maior média de altura da competição.

No momento defensivo, o recuo para um 4-4-2 bem desenhado e estreito protege a equipe contra transições rápidas, deixando o Ødegaard na transição e o Haaland pronto para disparar no contragolpe em campo aberto. É uma seleção com repertório rico, argumentos táticos muito bem consolidados e que chega com credenciais legítimas para ser uma das grandes surpresas do torneio. O desafio de enfrentar potências como a França e o Senegal na fase de grupos é imenso, e vai exigir o máximo desse equilíbrio coletivo.




Iraque


A seleção do Iraque retorna à Copa do Mundo de 2026 após um longo hiato de 40 anos, sendo sua última participação em 1986, justamente no México, um dos países sedes da atual edição ao lado de Estados Unidos e Canadá. A vaga foi conquistada de forma contundente nas eliminatórias da Confederação Asiática de Futebol (AFC), um feito histórico que encerra décadas de frustrações em fases decisivas. Após enfrentar períodos severos de conflitos políticos, sanções e instabilidade interna que afetaram diretamente o desenvolvimento do esporte no país, os chamados Leões da Mesopotâmia demonstram uma maturidade competitiva inédita, impulsionada por uma reformulação profunda em seu elenco através da captação de atletas da diáspora iraquiana formados em ligas estruturadas da Suécia, Holanda e Alemanha.

Sorteada no Grupo I ao lado de potências como França, Senegal e Noruega, a equipe asiática enfrenta um cenário no qual todos os seus adversários apresentam superioridade técnica e física. O objetivo principal do Iraque se concentra em realizar uma campanha digna e competitiva, sabendo que avançar para a fase eliminatória configuraria uma surpresa de proporções globais. Para fazer frente a esse desafio, a comissão técnica tende a abandonar o sistema $4-2-3-1$ utilizado em compromissos recentes para adotar uma estrutura em $4-4-2$ extremamente compacta, priorizando um bloco de marcação baixo para negar espaços centrais ao oponente, estratégia que já foi colocada à prova em amistoso preparatório contra a Espanha.

A provável formação titular apresenta uma disputa na meta defensiva, onde Ahmed Basil desponta como o favorito devido ao ritmo recente e aos problemas físicos do capitão e experiente Jalal Hassan. A linha de quatro defensores deve contar com os zagueiros Sulaka e Zaid Tahseen, ladeados por Merchas Doski na esquerda e Hussein Ali na direita. Os laterais atuam de forma contida, aproximando-se dos defensores centrais para resguardar a área de meta e cobrir os setores interiores, enquanto a responsabilidade de vigiar os corredores externos e as subidas dos pontas adversários é transferida aos meio-campistas que atuam pelas faixas laterais.

No setor de meio-campo, a sustentação defensiva e o combate direto nas linhas de passe ficam a cargo de Amir Al-Ammari, que exerce a função de primeiro volante no futebol polonês. Ao seu lado na faixa central, Zidane Iqbal assume o papel de principal articulador e bússola criativa da equipe. Diante da perspectiva de pouca posse de bola durante as partidas, a eficiência de Iqbal na transição ofensiva será determinante para acionar os jogadores de lado, Youssef Amin e Ibrahim Bayesh, que se destacam pela velocidade e pelo sacrifício na recomposição defensiva.

O plano de ataque iraquiano baseia-se prioritariamente nas transições rápidas e na exploração dos contragolpes. Na linha de frente, Aymen Hussein atua como a referência posicional, utilizando sua força física no jogo de costas para a meta e no combate aéreo para reter a bola e gerar segundas jogadas. Essa característica complementa o estilo de Ali Al-Hamadi, atacante com experiência no futebol inglês pelo Luton Town, cuja principal virtude é a aceleração e a capacidade de romper nos espaços vazios deixados pelas defesas adiantadas. O maior risco tático para o Iraque reside na possibilidade de descompactação do bloco, caso o setor defensivo recue excessivamente e isole os atacantes, impedindo a ligação dos contra-ataques.

Diante das dificuldades previstas para a criação de jogadas em bola rola, a bola parada surge como um recurso indispensável para as ambições da equipe no torneio. Cobranças de faltas laterais e escanteios serão exaustivamente exploradas para buscar o cabeceio de atletas altos como o próprio centroavante Hussein e os zagueiros Tahseen e Sulaka. Construída sob uma perspectiva de resiliência e com clara noção de suas virtudes e limitações, a seleção do Iraque entra na competição sem a pressão dos holofotes, amparada pelo rigor tático e pela entrega física na tentativa de neutralizar os favoritos do grupo.




Grupo J: Argentina, Argélia, Áustria e Jordânia. 


Argentina


A seleção da Argentina apresenta a atual campeã do mundo em uma posição de enorme prestígio, mas sob a intensa pressão de defender a sua coroa. O técnico Lionel Scaloni, que se consolidou como uma das mentes mais brilhantes e serenas do futebol internacional, comanda a Albiceleste em busca de um feito histórico que apenas Itália e Brasil conseguiram: conquistar o bicampeonato mundial consecutivo. Após passar por turbulências internas na federação local e questionamentos sobre o nível de seus amistosos preparatórios, a equipe chega à América do Norte com o foco totalmente renovado e sem espaço para acomodação.

A Argentina costuma se estruturar em um 4-3-3 ou 4-4-2. A grande marca da Argentina é o “meio-campo de meias” (jogadores com extrema qualidade de passe e retenção, como Alexis Mac Allister e Rodrigo De Paul). Eles desaceleram o jogo para atrair a pressão adversária e, de repente, aceleram com passes verticais para as infiltrações de Julián Álvarez ou jogadas de ruptura.

A grande história da seleção continua orbitando o gênio incontestável de Lionel Messi, que estende sua lendária trajetória futebolística ao liderar o país em mais um Mundial. O camisa dez e capitão, embora cercado por cuidados físicos específicos para suportar a alta intensidade do torneio, permanece como a principal referência técnica, o líder espiritual do vestiário e o criador das jogadas mais decisivas. Scaloni montou uma estrutura tática, geralmente formatada em 4-4-2, que protege o craque defensivamente, e potencializa sua genialidade no ataque, garantindo que o envelhecimento natural do craque não diminua seu impacto avassalador em campo.

A base defensiva argentina, conhecida por sua agressividade e lealdade ao esquema, mantém pilares inabaláveis para garantir a segurança na retaguarda. O goleiro Emiliano “Dibu” Martínez segue como uma figura mística em decisões de pênaltis e jogos de alta pressão, enquanto o zagueiro Cristian Romero impõe respeito na linha defensiva. A comissão técnica também abriu espaço para a oxigenação do elenco durante o ciclo de Eliminatórias, integrando jovens talentos promissores como o ala esquerdo Valentín Barco, que adiciona novas opções de profundidade e velocidade à equipe.

Sorteada no Grupo J da competição, a Argentina iniciará a defesa de seu título mundial em um caminho que exige atenção, mas que teoricamente a coloca como ampla favorita. A Albiceleste fará sua estreia em Kansas City contra a física seleção da Argélia, um confronto que exigirá paciência tática, e depois medirá forças contra a organização europeia da Áustria e contra a seleção da Jordânia. Antes de a bola rolar oficialmente na Copa, os comandados de Lionel Scaloni farão seus últimos testes em solo norte-americano enfrentando Honduras e Islândia em amistosos, ajustando os detalhes finais para tentar bordar a quarta estrela no peito.



Argélia


De volta ao cenário mundial, as 'Raposas do Deserto' chegam sob o comando do técnico Vladimir Petkovic, com ótimas opções no elenco, como Riyad Mahrez, Bensebaini e Bentaleb. A Argélia está acostumada a ter grandes estreias. Sua primeira aparição em Copas do Mundo foi no Mundial da Espanha em 1982. Na ocasião, surpreenderam com uma vitória por 2 a 1 contra a Alemanha Ocidental, mas depois foram vítimas do que ficou conhecido como "o pacto de Gijón", um empate entre Alemanha e Áustria que deixou a Argélia de fora, impedindo a sua passagem da fase de grupos naquele mundial. Eles conseguiram superar essa primeira fase no Brasil em 2014, avançando para as oitavas de final, onde enfrentaram justamente a Alemanha e a deixaram contra as cordas por muitos minutos. Mas vamos focar no que é a Argélia neste Mundial de 2026 e no que ela nos oferece a nível futebolístico, que é muita coisa.


Falar da prancheta de Vladimir Petkovic é falar de uma seleção muito vertical, com transições velozes, com um jogo bastante relacional, muita troca de posições e muita liberdade, especialmente nas zonas criativas. Além disso, acho que Petkovic precisa perceber o que tem no banco de reservas. Vocês vão me entender conforme formos avançando, pois acredito que ele tem uma peça que pode ser muito útil para ir longe neste Mundial ou, pelo menos, aspirar a algo a mais.


Para começar, eu parto de um sistema base 4-2-3-1. Acontece um pouco como em outras seleções em que me dirão que normalmente jogam em um 4-3-3. É verdade, e poderíamos considerar que isso é um 4-3-3 com Bentaleb, Aouar e Boudaoui. No entanto, tenho a sensação de que se assemelha mais a um 4-2-3-1 pela capacidade que esta equipe tem de se transformar em um 4-4-2 em condições normais de defesa, ou em um 4-5-1 em fase defensiva. Com a bola, pode chegar a ser um 3-2-4-1, como veremos mais adiante. É uma equipe que tem muitíssima habilidade dentro do campo contrário, sobretudo quando tem a posse e realiza a transição ofensiva, desfrutando de muita liberdade nessa zona de ataque.


No campo adversário, a Argélia acumula muitos jogadores. É um time que prioriza bastante o equilíbrio, com certeza, mas quando vai ao ataque, vai com tudo. Analisando linha por linha, temos Anthony Mandrea no gol. Acredito que ele seja o goleiro com mais chances de jogar. É verdade que há Mustapha Zeghba, que me parece um goleiro com certas garantias, mas pelo rendimento recente, tenho a impressão de que Mandrea será o titular. Na linha defensiva de quatro, temos Kevin Van Den Kerkhof Guitoun pela direita, um jogador que entra justamente pela ausência dolorosa de Youcef Atal e assume a titularidade dando certo frescor àquela ala. Pela esquerda, Rayan Aït-Nouri é um nome fixo e importantíssimo. Na zaga, temos Aïssa Mandi e Ramy Bensebaini. Gosto muito desses dois zagueiros, principalmente porque Bensebaini tem muita experiência jogando como lateral, uma característica de perfil canhoto que lhe dá muita capacidade para sair jogando ou buscar o passe longo na ponta esquerda.


No meio-campo, vemos Nabil Bentaleb partindo mais como o primeiro volante ou jogador de contenção, embora ele tenha bastantes dúvidas físicas. Portanto, poderia surgir Ramiz Zerrouki, que tem muito peso nesse setor; um camisa 5 clássico, organizador e de contenção, bastante parecido com Bentaleb. Depois temos Hicham Boudaoui, um jogador que funciona muito bem nesse perfil misto como segundo volante. E temos, obviamente, Houssem Aouar, um atleta com muito talento e capacidade, mas que no momento está tirando a vaga de Ibrahim Maza. Esta é a questão que eu comentava: me dói na alma ver Ibrahim Maza não ser titular nesta equipe, porque acho que ele é um jogador com um talento incrível e deveria ser titular 100% das vezes, sabendo inclusive que Aouar poderia se encaixar em outras posições. O próprio Ibrahim Maza, mesmo longe da posição de meia-armador, funcionaria bem, como já vimos no Leverkusen em algumas ocasiões.


Pela ponta direita, temos Riyad Mahrez, um velho conhecido de todos. Temos também Mohamed Amoura, que parte mais como um centroavante, mas possui uma velocidade e uma capacidade com espaços que o obriga a começar pela ponta. E, claro, temos Amine Gouiri, um jogador que adoro jogando de costas para o gol e que agrega muito ao time. Esta é uma Argélia que busca sempre atacar com muitos jogadores. Há quatro que ficam literalmente muito expostos a nível ofensivo e, depois, as subidas tanto de Aït-Nouri por dentro quanto de Guitoun em profundidade dão ótimas opções ao ataque.


É preciso entender que a Argélia tem uma certa "alergia" à posse de bola, preferindo o jogo direto. É uma seleção muito projetada para a frente. Todos conhecemos a tendência de Mahrez de cortar para dentro, a possibilidade de Guitoun subir pela ala e Aït-Nouri se projetando muito para as zonas centrais, somando quase como mais um meia interno e aparecendo em zonas bem avançadas para finalizar. Enquanto isso, Amoura ataca muito os espaços, atuando quase como um complemento ofensivo para Gouiri, que é um jogador excelente para gerar segundas jogadas tanto para Aouar quanto para Aït-Nouri. A equipe vai se movimentar muito a partir de suas posições iniciais.


Além disso, é um time com facilidade para sustentar um recuo defensivo equilibrado, com um bom entendimento do posicionamento de cada um. Se Aït-Nouri entra por dentro, Bensebaini faz a cobertura na lateral esquerda. Raramente ele vai passar pelo companheiro, mas tem uma ótima leitura de espaço para cobrir as costas de Bentaleb, que fisicamente talvez não consiga responder a todas as necessidades de recomposição. Há uma linha de três defensores muito bem formada, com a presença de quase um duplo pivô entre Aït-Nouri e Boudaoui na gestão da bola. Eles se associam muito com Aouar, que por sua vez se conecta com Mahrez, contando ainda com o suporte de Guitoun na direita.


A equipe busca a presença de jogadores que abram bem o campo para dar liberdade ao pessoal de dentro para circular a bola com segurança. Sendo Amoura esse perfil duplo de ponta e jogador de área, ele acaba sendo o atleta mais exigido e com menos liberdade no futebol ofensivo, e ao mesmo tempo o que mais cria. Riyad Mahrez já se acostumou a jogar cortando para o meio, conseguindo muitos parceiros de associação como Aouar, que distribui o jogo. É aqui que Ibrahim Maza ganharia protagonismo, pois ele não seria apenas um ponta, mas um jogador que se associaria muito mais com esse triângulo central, manifestando mais perigo na zona de três quartos do campo. A Argélia recupera a bola com relativa facilidade e lança ataques velozes, tentando construir através da figura de Mahrez.


Percebe-se uma construção assimétrica bastante interessante, onde praticamente todo o jogo se move para o lado direito. O que buscam com isso é fazer o rival balançar em direção a essa posição para facilitar a infiltração de outros jogadores. Se Amoura entra por ali, a movimentação do time adversário sempre acompanha esse lado direito onde os argelinos estão se acumulando. Isso favorece um envio rápido de bola em diagonal para a área, atacando o lado fraco da defesa. Mahrez domina muito bem esse passe longo cruzado, buscando o companheiro mais livre, o que causa um grande dano aos oponentes. É uma tendência forte na Argélia de Petkovic: inclinar o jogo pela direita, mudar a orientação para a esquerda e definir.


No aspecto defensivo, eles se situam em um bloco médio-baixo para garantir que a equipe seja difícil de penetrar pelas zonas interiores. Isso facilita para que os jogadores mais rápidos fiquem livres para engatar um contra-ataque com garantias, com Bentaleb recuando às vezes como um terceiro zagueiro em uma linha de 5-4-1. Quando o time recua, ele convida o adversário a jogar pelas laterais para depois tentar roubar e atacar os espaços deixados, buscando um pivô como Gouiri para baixar as bolas e dar sequência à jogada rápida.


Essa projeção tão alta dos laterais e a subida dos zagueiros muitas vezes faz com que as costas da defesa sejam atacadas com facilidade. Quando qualquer seleção conseguir explorar as costas dos laterais da Argélia, certamente causará muitos problemas. Falando das figuras essenciais, o primeiro é Riyad Mahrez, o líder e a mente mestra indiscutível. Ele recua muito para iniciar as jogadas e obriga o adversário a modificar seu sistema. O segundo é Ibrahim Maza, que tem uma qualidade tremenda, sendo ágil e potente em corrida. Embora Petkovic não o venha escalando como titular, ele tem um talento puro. Também há Mohamed Amoura, dono de uma velocidade final letal, peça-chave para pressionar a saída de bola rival devido à sua intensidade física. Por fim, Aït-Nouri, como lateral invertido, cria um triângulo associativo muito interessante com Aouar e Mahrez, sendo muito perigoso chegando como elemento surpresa vindo de trás e finalizando na entrada da área.


Para entender o futuro desta seleção, precisamos ver como serão esses duelos diretos no Grupo, e se eles conseguirão surpreender as potências do grupo.


Áustria


A Áustria possui uma equipe extremamente organizada, com um futebol intenso, e comandada por um técnico extremamente competente, Ralf Rangnick. É esse conjunto que vamos desvendar melhor, porque vem construindo, sem alardes, uma estrutura sólida no cenário europeu.

 

O que mais chama a atenção é que ela não depende mais de uma única grande estrela para brilhar. Há alguns anos, costumava ter uma figura central, que concentrava todas as atenções e era a referência da criação de jogadas. Hoje, o futebol austríaco é muito mais coletivo. Essa mudança de perfil, discreta mas eficaz, permitiu que a equipe construísse uma imagem de seleção de perfil baixo, sim, mas com capacidade real de dominar o jogo e surpreender adversários de peso.

Para entender como ela funciona, vamos analisar primeiro a parte tática. O esquema principal costuma ser o 4-2-3-1, embora não seja uma fórmula rígida. Alguns podem questionar: se Kalajdzic, o atacante de referência, tem o hábito de recuar um pouco, por que não usar outro formato ou até um ataque com dois homens? É uma dúvida válida e existem outras opções, como o 4-4-2 ou o 4-2-2, mas a disposição adotada faz sentido. Colocar Kalajdzic mais à frente, com Gregoritsch ou Arnautovic como alternativas, evita sobreposições e cria espaço para o atacante buscar as jogadas mais centrais — o que, na prática, mantém o funcionamento como um 4-2-3-1 funcional.

 

No aspecto posicional, a Áustria tem uma característica marcante: abre muito o campo pelas laterais e muda constantemente de desenho durante a partida. Quando está atacando, um dos volantes recua para ficar entre os zagueiros, liberando alas como Posch e Alaba para subirem com força. Nesse momento, o time pode parecer um 5-2-3 ou até um 3-4-3. Já na defesa, a ordem é ficar compacta perto da linha central, pressionar alto e sufocar o adversário no seu próprio campo. Se não consegue recuperar a bola rapidamente, se fecha em um bloco médio ou baixo — e é aí que mora um detalhe: ela joga muito melhor quando tem iniciativa e atua no campo rival.

 

Na escalação, a escolha no gol é um ponto de análise. Alexander Schlager é o titular mais provável, embora Patrick Pentz também tenha méritos, especialmente pela boa campanha que fez na Eurocopa de 2024. Mas Schlager se encaixa melhor no que Rangnick quer: é um goleiro seguro com os pés, atrevido e fundamental para começar as jogadas de saída de bola.

Na defesa, a dupla principal é formada por Posch e David Alaba. A condição física do capitão, que já tem uma trajetória vitoriosa no futebol europeu, é algo a ficar de olho; se houver necessidade, Kevin Danso é quem entra para suprir a vaga. Mas, quando está bem, Alaba é insubstituível: comanda a linha, tem visão de jogo e dá muita segurança na construção das jogadas. Pela esquerda, Konrad Laimer atua mesmo não sendo um lateral de origem — e faz isso com muita competência. Se precisar de substituição, jogadores como Mühling podem entrar, com a vantagem de ter mais velocidade para atacar o espaço.

No meio-campo, temos a dupla de proteção formada por Seiwald e Laimer, que equilibra marcação e saída de bola. Mais à frente, Sabitzer e Baumgartner assumem a função de criar jogadas e levar perigo ao terço final do campo. É ali que passam os passes decisivos e onde se buscam os espaços para desequilibrar. O homem mais adiantado é Kalajdzic: um jogador alto, forte no ar, que funciona como uma espécie de elo entre o meio e o ataque. Não é o centroavante que só fica parado esperando a bola; ele chega de surpresa na área, deixando para veteranos como Arnautovic — o maior artilheiro da história da seleção, aos 37 anos — ou Gregoritsch a tarefa de segurar a defesa adversária e finalizar de cabeça.

O estilo de jogo dessa Áustria pode ser definido como um “caos controlado”, com semelhanças ao que vemos em seleções como a Argentina. Não tem a obrigação de manter a posse de bola por posse; o importante é progredir rapidamente. Passar para trás quase não faz parte do vocabulário tático. Cada recuperação de bola é um sinal para avançar com velocidade e ocupar os espaços vazios do adversário. Os laterais sobem muito, o meio-campo troca de posição constantemente e os jogadores se movimentam sem parar. Essa troca de funções é intencional: um pode ocupar o lugar do outro, confundindo a marcação e criando caminhos livres para chegar à área.

O grande trunfo de Rangnick é o chamado “contra-pressão”. A regra é simples e rigorosa: se perder a bola, tente recuperá-la em até 8 segundos. Se conseguir, finalize a jogada em até 10 segundos. Quanto mais perto da área adversária a bola for recuperada, menor o caminho para o gol e maior a chance de sucesso. Para que isso dê certo, o time todo precisa correr, se posicionar e trabalhar em conjunto — e é aí que a Áustria mostra sua força. Ela não tem os maiores nomes individuais do futebol mundial, mas compensa com o esforço coletivo. Não depende da inspiração de um craque isolado; cada um cumpre sua parte com disciplina e entrega.

Mas esse estilo também traz riscos. Para pressionar alto, o time deixa espaços na retaguarda, e o desgaste físico é enorme. Se não resolver a partida nos primeiros 60 minutos, a tendência é cair de rendimento no final. Isso pode ser um problema ainda maior na Copa do Mundo de 2026, com jogos em cidades dos Estados Unidos, Canadá e México, onde o calor do verão norte-americano vai exigir preparo físico acima da média.

Mesmo com essas limitações, a seleção tem peças de muita qualidade. David Alaba é o cérebro que organiza tudo desde a defesa. Schlager é mais um elemento para construir o jogo com segurança. Laimer, pela sua versatilidade, atua bem em várias posições e tem uma garra competitiva fora do comum. Sabitzer, mesmo que já não tenha o brilho de alguns anos atrás, continua sendo essencial para criar jogadas. E Kalajdzic, com seu estilo de jogo, complementa muito bem os outros atacantes, oferecendo opções diferentes na hora de finalizar.

Resumindo: essa é a Áustria que chega à Copa do Mundo de 2026. Uma equipe que não vai se impor por nomes famosos, mas por organização, intensidade e espírito coletivo. Pode ser uma das surpresas do torneio e, sem dúvida, será um adversário difícil para qualquer um no Grupo J — inclusive para a Argentina, atual campeã mundial, que vai ter de lidar com esse estilo de jogo agressivo e bem treinado.


Jordânia





Um Mundial com 48 seleções inevitavelmente abre espaço para histórias alternativas, e a Jordânia surge como uma das estreias mais curiosas da edição de 2026. Ocupando a 62ª posição no ranking da FIFA, a seleção asiática carimbou o passaporte inédito após liderar seu grupo na segunda fase das Eliminatórias, superando a Arábia Saudita, e avançar na etapa seguinte à frente de equipes mais tradicionais do continente, como Iraque e Omã, ficando atrás apenas da Coreia do Sul. Sob o comando do técnico Jamal Sellami, a Jordânia não apresenta uma coletividade brilhante com a bola, mas compensa com um pragmatismo defensivo muito bem delineado. Trata-se de uma equipe essencialmente reativa, que abdica voluntariamente da iniciativa do jogo — suas médias de posse de bola ficaram abaixo dos 40% mesmo contra adversários de menor expressão no cenário asiático.

O desenho base da equipe flutua entre o 3-4-3 e o 3-4-2-1, mutando para uma linha de cinco defensores no momento de transição defensiva. Na linha de defesa, Yazan Al-Arab atua como o líbero centralizado, ladeado por Abdallah Nasib na esquerda e Saad Al-Nadi na direita. Os alas, Ehsan Haddad e Mohammad Abu Taha, recuam com velocidade para compor um bloco baixo, priorizando o preenchimento dos espaços interiores para forçar o adversário a jogar pelos corredores laterais. Já a sustentação central do meio-campo é feita por uma dupla de volantes, normalmente composta por Noor Al-Rawabdeh e Rajaei Ayed, focados na proteção da área de rebote.

A grande perda estrutural para o torneio foi o atacante Yazan Al-Naimat, que rompeu o ligamento cruzado anterior durante a Copa Árabe. Ele era a principal referência ofensiva do time e, sem ele, Ali Olwan assume o comando do ataque, oferecendo um perfil de muita entrega física, pressão nos zagueiros e capacidade de retenção. O principal argumento competitivo da Jordânia passa a ser o contragolpe vertical. No cenário asiático, foi uma das seleções que mais gerou volume a partir de recuperações em bloco baixo. Quando retoma a posse, o time busca acionar rapidamente os lados do campo para projetar os alas ou os pontas, tentando criar situações de superioridade numérica na transição rápida. Na área, Olwan busca o confronto direto e o ataque ao espaço nas costas dos defensores centrais. Apesar do pouco volume ofensivo geral, a equipe mostrou eficiência nas Eliminatórias, anotando 32 gols ao longo das fases qualificatórias.

Um ponto que chama a atenção na análise estatística da equipe é a ambiguidade no comportamento das bolas paradas. O porte físico dos zagueiros jordanianos transforma as faltas laterais e escanteios a favor em uma arma perigosa de ataque. Paradoxalmente, o time apresenta dificuldades crônicas na defesa dessas mesmas situações, mostrando falhas de posicionamento e desatenção em bolas alçadas na própria área, algo que costuma cobrar um preço caro em torneios de tiro curto.

Individualmente, Musa Al-Tamari, jogador do Montpellier, é a grande referência técnica e criativa. Atuando com pé trocado pela ponta direita, ele oferece capacidade de desequilíbrio no um contra um, condução em velocidade nas transições e poder de finalização cortando para dentro. Na frente, além de Olwan, surge como alternativa o jovem Ibrahim Sabra, de 19 anos, uma peça de mobilidade para o segundo tempo caso o treinador precise alterar a estrutura para um 5-3-2. Atrás, Yazan Al-Arab se consolida como o pilar da resistência defensiva, destacando-se pela antecipação, imposição nos duelos individuais e por ser o elemento com melhor capacidade de passe longo para acionar as pontas a partir de trás. Sendo a equipe de menor repertório no papel dentro de um grupo que conta com Argentina, Áustria e Argélia, a Jordânia deve passar a maior parte do tempo defendendo em seu próprio campo, testando se sua disciplina sem a bola será suficiente para resistir e pontuar no torneio.



Grupo K: Portugal, Colômbia,  República Democrática do Congo e Uzbequistão. 

 
 
Portugal
 
 
Portugal apresenta uma seleção que chega à América do Norte com uma das gerações mais profundas e talentosas do planeta. Sob o comando do técnico Roberto Martínez, que estabilizou a equipe após a conquista da Liga das Nações de 2024/2025 e uma boa campanha no Euro, os portugueses foram sorteados no Grupo K, ao lado de Colômbia, Uzbequistão e RD Congo. Com um elenco repleto de estrelas mundiais e o lendário capitão Cristiano Ronaldo em sua última dança aos 41 anos, Portugal desponta como um forte candidato, embora Martínez prefira rechaçar o rótulo de favorito número um.
A flexibilidade tática é a grande marca de Martínez, mas a tendência principal para o torneio é o desenho no formato 4-3-3 que se transforma em um 3-2-4-1 na fase de construção. O gol tem a total segurança de Diogo Costa. Na linha defensiva, Rúben Dias lidera as ações, frequentemente acompanhado pelo canhoto Gonçalo Inácio para qualificar a saída de bola, enquanto João Cancelo e Nuno Mendes dão um enorme poder de apoio ofensivo pelas laterais. O grande motor desta equipe está na dupla do PSG formada por Vitinha e pelo jovem João Neves, que garantem uma circulação de bola dinâmica, limpa e de muita pressão pós-perda. A armação de jogadas fica totalmente sob a responsabilidade de Bruno Fernandes e Bernardo Silva, os cérebros criativos do time. Nas pontas, a velocidade e o drible agressivo no um contra um de Rafael Leão e Francisco Conceição são os caminhos favoritos para quebrar defesas fechadas, servindo Cristiano Ronaldo, que atua como a grande referência letal dentro da área. Se ele não puder atuar por conta da idade, há outras opções de qualidade para o comando do ataque.
O principal ponto forte de Portugal reside no seu absurdo repertório criativo e na profundidade do banco de reservas. Trata-se de uma equipe com imensa facilidade para ditar o ritmo das partidas, alternando momentos de paciência e troca de passes curtos no meio-campo com acelerações verticais devastadoras pelos lados. A capacidade de empurrar os adversários para o seu próprio campo através do controle da posse de bola faz com que o time crie chances de gols com naturalidade contra quase qualquer bloco defensivo. Além disso, o entrosamento do núcleo centralizado de jogadores que atuam juntos no Manchester City e no PSG eleva o nível técnico coletivo.

Por outro lado, o grande gargalo tático mora na transição defensiva e no equilíbrio em jogos de alta exigência contra potências mundiais. Como as ideias de Martínez projetam muitos jogadores no campo de ataque ao mesmo tempo, a equipe por vezes fica exposta a contragolpes rápidos quando perde a bola de forma descuidada por dentro. Outro fator sob os holofotes é a gestão física e tática de Cristiano Ronaldo. Embora sua capacidade de finalização permaneça indiscutível, a sua menor mobilidade para iniciar a pressão defensiva em bloco alto obriga os meio-campistas a dobrarem o esforço físico para cobrir os espaços, o que pode se tornar um problema crônico na fase de mata-mata contra seleções que sabem explorar essa vantagem numérica.
 


Colômbia
 
 
 
A seleção da Colômbia chega à Copa do Mundo de 2026 cercada de enorme expectativa e fé por parte de sua torcida, integrando o competitivo Grupo K ao lado de Portugal, República Democrática do Congo e Uzbequistão. Desde as emblemáticas gerações da década de 1990, que encantaram o mundo mas não atingiram o ápice nos Mundiais de 1990 e 1994, o país não via um elenco com tanto potencial para brilhar no cenário internacional. Sob o comando técnico de Néstor Lorenzo, a equipe consolidou uma identidade alegre e extremamente competitiva, caracterizada por transições ofensivas verticais, triangulações por dentro, solidez na saída de bola e uma pressão pós-perda sufocante no campo adversário.

O modelo tático estrutural de Lorenzo baseia-se em um 4-2-3-1 bem definido, que confere equilíbrio defensivo e liberdade para os atletas técnicos circularem a bola. Como alternativas dinâmicas, a comissão técnica projeta variações para o 4-3-3, visando aproximar os pontas da área rival, além de desenhos com três defensores, como o 3-4-2-1 ou o 5-3-2, acionados de acordo com a exigência do oponente. No gol, Camilo Vargas desfruta da total confiança do treinador, superando a concorrência dos experientes Álvaro Montero e David Ospina. A linha de zaga titular é composta por Jhon Lucumí e Davinson Sánchez, que se destacam pela capacidade de atuar com muito espaço às suas costas, respaldados pelos defensores Yerry Mina, Gustavo Puerta e Willer Ditta na rotação.

Nas laterais, Daniel Muñoz assume papel preponderante pela direita devido à precisão de seus cruzamentos e força no apoio, enquanto Johan Mojica garante a amplitude pelo setor esquerdo, ambos com grande capacidade de circulação em seus respectivos corredores. O suporte a essa postura agressiva dos laterais é dado pelo duplo pivô de meio-campo, formado por Richard Ríos e Jefferson Lerma. Lerma atua como a principal força de contenção e compensação tática, cobrindo as subidas de Muñoz e preenchendo os espaços defensivos, o que libera Ríos para exercer sua função de segundo volante box-to-box, aportando verticalidade e condução de bola.

A engrenagem criativa no terço final é centralizada na figura de James Rodríguez como o clássico camisa dez sul-americano. Embora sua capacidade física seja mais comedida atualmente, James dita o ritmo de jogo através de sua visão, passes de ruptura e cobranças de falta, sendo protegido pelo vigor dos companheiros ao seu redor. Como alternativas de características semelhantes na armação, Lorenzo conta com Juan Fernando Quintero e Jorge Carrascal. Pelos lados do campo, Jhon Arias opera na direita com muita inteligência no um contra um, enquanto Luis Díaz, destaque do Bayern de Munique na temporada, assume o protagonismo na ponta esquerda como a principal arma de desequilíbrio e finalização em transição.

O comando do ataque apresenta opções complementares importantes para o funcionamento do coletivo. Luis Javier Suárez desponta como o favorito para iniciar as partidas por sua mobilidade, entendimento dos espaços e capacidade de sair da área para articular e arrastar os zagueiros, abrindo caminhos para as infiltrações em diagonal de Díaz e Arias. Caso a partida exija uma referência física para reter lançamentos longos e brigar com os defensores, Jhon Córdoba surge como a peça ideal, enquanto o Cucho Hernández oferece uma variante de velocidade pelos lados e agressividade no primeiro combate defensivo. Pela riqueza de seu repertório ofensivo e entrosamento de suas peças, a Colômbia se projeta como uma das forças capazes de surpreender e avançar às fases decisivas deste Mundial.


 
Uzbequistão
 
 
A seleção do Uzbequistão faz história ao estrear na Copa do Mundo de 2026. Após décadas batendo na trave nas Eliminatórias Asiáticas, os “Lobos Brancos” chegam à América do Norte embalados pela melhor geração de sua história e sob o comando de um verdadeiro especialista em Copa do Mundo: o italiano Fabio Cannavaro.

O Uzbequistão caiu no Grupo K, ao lado de Colômbia, Portugal e RD Congo. Abaixo, destrinchamos como joga a equipe e o que esperar taticamente dessa estreante.

Cannavaro manteve a espinha dorsal física e defensiva moldada no ciclo anterior pelo ex-técnico Timur Kapadze (que permaneceu na comissão como auxiliar), mas trouxe um toque de pragmatismo e rigor europeu. A equipe atua prioritariamente em um 3-5-2 elástico, que varia para um 5-3-2 muito compacto em momentos defensivos.

O Uzbequistão é uma equipe que se sente muito confortável jogando sem a bola, apostando em gatilhos específicos de pressão e transições em velocidade máxima.

A grande força defensiva do trio de zagueiros está na velocidade. O jovem Abdukodir Khusanov (Manchester City) é a grande referência na sobra, aliando força física a uma impressionante capacidade de recuperação. Como os defensores são velozes, Cannavaro se permite subir as linhas e fazer pressão alta na saída de bola adversária sem medo de ser pego em bolas longas. Quando recuam, formam uma linha rígida de 5 defensores muito difícil de penetrar pelo centro.

A sustentação no meio passa pelos volantes Chukurov e Khamrobekov. Enquanto Khamrobekov é o “perseguidor” — o encarregado de caçar o meia criativo adversário e morder na marcação —, Shukurov dita o ritmo com um excelente passe de ruptura entrelinhas, acionando os homens de frente no momento em que a bola é roubada.

No ataque, o Uzbequistão joga em um modelo vertical. Abbos Fayzullaev (Istanbul Basaksehir) e o experiente camisa 10 Jaloliddin Masharipov são os cérebros criativos. Eles flutuam das pontas para o meio para alimentar a grande estrela da companhia: Eldor Shomurodov. O centroavante atua como o pivô clássico, retendo a bola na frente e abrindo espaço para as infiltrações em diagonal de Oston Urunov.
 
 

República Democrática do Congo

 
A seleção da República Democrática do Congo apresenta-se na Copa do Mundo de 2026 como uma das equipes mais intrigantes e fisicamente imponentes do Grupo K, dividindo a chave com Colômbia, Portugal e Uzbequistão. Conduzida pelo técnico Sébastien Desabre, a seleção congolesa carimbou seu passaporte para o Mundial após uma campanha de enorme mérito nas Eliminatórias Africanas, terminando a fase inicial na segunda colocação de seu grupo — superando forças como Togo e Sudão, e ficando atrás apenas de Senegal —, eliminando potências tradicionais como Nigéria e Camarões, e superando a Jamaica na repescagem intercontinental. Com um elenco repleto de atletas com rodagem pelas principais ligas europeias, o Congo projeta-se como um adversário indigesto, moldado para atuar de forma pragmática e punir os oponentes através da velocidade de suas transições.

O desenho tático prioritário de Desabre estrutura-se no 4-2-3-1, um sistema maleável que se transforma facilmente em um 4-3-3 ou 4-5-1 em fase defensiva para compactar as linhas territoriais. Em contextos de máxima exigência defensiva ou preservação de resultado, a equipe adota variações estruturais como o 5-3-2 ou o 4-4-1-1, mantendo sempre os gatilhos de velocidade acionados. Sob as traves, Lionel Mpasi assume o posto de titular, tendo a sombra de Timothy Fayulu, arqueiro que se tornou herói nacional e figura muito querida pela torcida devido ao seu desempenho decisivo nas disputas por pênaltis ao longo das eliminatórias.

A linha de defesa destaca-se pela experiência internacional e robustez física. O miolo de zaga encontra em Chancel Mbemba o seu grande pilar e capitão; o defensor lidera tecnicamente o setor, oferecendo excelente jogo aéreo e capacidade para romper linhas com passes longos e diagonais em direção aos pontas. Ao seu lado, nomes como Axel Tuanzebe dão sustentação ao bloco. Nas laterais, o Congo apresenta uma característica peculiar de contenção, onde Aaron Wan-Bissaka dita a segurança pela direita, controlando as subidas e oferecendo cobertura interna quando o bloco médio se fecha devido à sua excelente capacidade no um contra um. Pela esquerda, Arthur Masuaku possui boa capacidade de apoio, mas assimila com frequência o posicionamento por dentro, atuando de forma invertida para qualificar a saída e fechar o corredor central, enquanto Joris Kayembe surge como a opção mais ofensiva quando o plano exige amplitude por aquele flanco.

O meio-campo congolês abdica de um modelo puramente associativo e foca na imposição de duelos e no controle dos espaços centrais. A dupla de volantes formada por Noah Sadiki e Samuel Moutoussamy atua como o coração físico da equipe, sendo que Sadiki se destaca como um motor incansável de vaivém, cobrindo faixas extensas de campo, quebrando linhas de passe adversárias e dando liberdade para os homens de frente. Eles jogam de forma simples e vertical, evitando reter a bola na zona de pressão. À frente do duplo pivô, a engrenagem criativa no terço final é liderada por Théo Bongonda. O jogador, com boa passagem pelo futebol espanhol, evoluiu de um ponta incisivo para um autêntico camisa dez ou segundo atacante, oferecendo refino técnico no último passe, drible em velocidade e finalização em transição. Quando a partida pede maior retenção ou cadência na entrelinha, o experiente Gaël Kakuta torna-se o substituto imediato com características semelhantes.

O verdadeiro perigo da República Democrática do Congo reside na agressividade de seu jogo direto e na explosividade de seus extremos. Pelas bandas, Yoane Wissa consolida-se como o elemento de maior desequilíbrio e letalidade, atacando tanto por fora quanto cortando em diagonal para finalizar na área, enquanto pelo lado oposto, Meschack Elia garante a profundidade e a intensidade nas transições rápidas, municiados por alternativas dinâmicas no banco como Nathan Ngoumou. No comando do ataque, a grande referência e esperança de gols é Cédric Bakambu, que suporta a responsabilidade de ser o principal finalizador, destacando-se pela capacidade de jogar de costas, prender os zagueiros e atacar os espaços criados pelos pontas. Caso Desabre necessite de uma abordagem de maior imposição física na área e retenção de bolas longas sob pressão, Simon Banza surge como o substituto ideal, enquanto o jovem Jérémy de Sousa oferece uma alternativa de maior mobilidade e flutuação.

O Congo é uma seleção assumidamente de estilo direto, que se sente confortável entregando a posse ao adversário e defendendo em bloco médio-baixo. Sua força reside em forçar o erro na faixa central para acionar suas flechas em transições de poucos segundos, demonstrando uma agressividade impressionante na busca por bolas divididas. Caso a equipe consiga abrir o placar, torna-se um ferrolho robusto e extremamente difícil de ser superado por adversários que monopolizam a posse de bola.




Grupo L: Inglaterra, Croácia, Gana e Panamá. 


Inglaterra
 
 
A seleção da Inglaterra apresenta um cenário de profunda transformação, ousadia e renovação radical. Sob o comando técnico do alemão Thomas Tuchel, os Three Lions chegam à América do Norte decididos a abandonar o pragmatismo que marcou os anos anteriores e a adotar uma postura muito mais agressiva. O grande objetivo do país é encerrar de vez o longo jejum de títulos mundiais que dura desde 1966, aproveitando o auge técnico de estrelas globais e a energia de uma nova geração de atletas.

A grande história desta campanha inglesa começou antes mesmo do pontapé inicial do torneio, com o anúncio de uma lista de convocados que chocou o país. Thomas Tuchel não hesitou em tomar decisões drásticas e cortou nomes de peso como Phil Foden, Cole Palmer e o veterano zagueiro Harry Maguire. O treinador justificou as ausências afirmando que priorizou a intensidade tática, a recomposição defensiva e o equilíbrio do vestiário em detrimento do status ou do clamor popular em torno das estrelas da Premier League.

A lista oficial de vinte e seis jogadores reflete essa mentalidade de renovação, trazendo nove atletas que farão suas estreias absolutas em competições deste porte. O gol será defendido por Jordan Pickford, Dean Henderson e James Trafford. O setor defensivo conta com Dan Burn, Marc Guéhi, Reece James, Ezri Konsa, Tino Livramento, Nico O’Reilly, Jarell Quansah, Djed Spence e John Stones. Essa linha de defesa aposta na versatilidade e na velocidade para sustentar o modelo de transição rápida exigido pela nova comissão técnica.

A Inglaterra joga em um 4-2-3-1 de forte controle posicional. A Inglaterra sufoca os adversários empurrando seus pontas para a linha de fundo para dar amplitude, enquanto Harry Kane flutua como um “falso 9”, recuando para armar o jogo e abrindo espaço para as infiltrações de Bellingham vindo de trás. Os ingleses costumam sufocar os adversários empurrando seus pontas para a linha de fundo para dar amplitude, enquanto Harry Kane flutua como um falso nove, recuando para armar o jogo e abrindo espaço para as infiltrações de Bellingham vindo de trás. O grande ponto forte do time é o repertório ofensivo e a qualidade técnica para rodar a bola rapidamente até encontrar espaços no bloco adversário. Por outro lado, o principal gargalo tático é a vulnerabilidade contra transições rápidas nas costas dos laterais, já que quando os alas ingleses sobem simultaneamente, a equipe cede espaços generosos para os contragolpes.
No meio-campo e no ataque, a Inglaterra manteve pilares experientes, mas adicionou opções de muita força física e velocidade. Os meio-campistas chamados foram Elliot Anderson, Jude Bellingham, Eberechi Eze, Jordan Henderson, Kobbie Mainoo, Declan Rice e Morgan Rogers. Para o setor ofensivo, Tuchel selecionou Anthony Gordon, Harry Kane, Noni Madueke, Marcus Rashford, Bukayo Saka, Ivan Toney e Ollie Watkins. Um dos grandes destaques históricos dessa convocação é o veterano Jordan Henderson, que alcança sua quarta participação em Copas do Mundo e iguala o recorde de Sir Bobby Charlton.

A espinha dorsal que tentará carregar a Inglaterra ao título mistura a liderança de veteranos consagrados com o auge técnico de jovens astros. O capitão Harry Kane lidera a seleção pela terceira vez em um Mundial, alcançando o recorde histórico de Billy Wright e permanecendo como a principal referência de gols da equipe. Ao seu lado, o meio-campista Jude Bellingham chega no ápice de sua forma física e mental para ditar o ritmo do time, enquanto a dupla do Arsenal, composta por Bukayo Saka e Declan Rice, garante a solidez necessária para o equilíbrio entre a defesa e o ataque.
 

Croácia


A seleção da Croácia têm o desafio de manter o legado de uma das gerações mais vitoriosas e resilientes do futebol nos últimos anos. Conhecida por sua impressionante capacidade de superação em mundiais anteriores, a equipe quadriculada chega ao torneio na América do Norte vivendo um delicado processo de transição. Sob o comando do experiente técnico Zlatko Dalić, os croatas buscam provar que o espírito competitivo e a inteligência tática de seus veteranos ainda podem se fundir perfeitamente com a energia dos novos talentos que começam a assumir o protagonismo do país.

A Croácia mantém sua identidade histórica de ser um time cerebral, frio e especialista em controlar os nervos e o ritmo das partidas através da posse de bola. O tradicional esquema 4-3-3 croata baseia-se na rotação contínua de seus meio-campistas. A equipe adora atrair a pressão adversária perto de sua própria área para criar linhas de passe limpas e progredir em bloco, valorizando a posse de bola. Essa maturidade tática e a capacidade de desacelerar jogos intensos funcionam como o ponto forte ideal para tirar o ímpeto físico de adversários mais elétricos. Contudo, o gargalo tático croata é a falta de profundidade e de velocidade pura, pois a equipe prefere o passe ao drible, o que às vezes torna seu ataque previsível contra defesas muito bem postadas.

O coração e a mente da seleção croata continuam centralizados na figura lendária de Luka Modrić, que estende sua trajetória histórica ao liderar a equipe em mais um Mundial. Aos 40 anos, o meio-campista do Real Madrid desafia o tempo e permanece como o maestro incontestável do time, ditando o ritmo de jogo e servindo de referência técnica e emocional para os companheiros. Ele terá ao seu lado no setor de criação a consistência e a liderança de Mateo Kovačić, formando uma das parcerias mais refinadas e experientes do futebol de seleções, capaz de controlar a posse de bola contra qualquer adversário do planeta.
Enquanto o meio-campo mantém sua essência clássica, o setor defensivo consolida uma nova realidade com a afirmação total de Joško Gvardiol como um dos defensores mais dominantes do mundo. O jogador do Manchester City lidera a retaguarda croata com sua imponência física, capacidade de antecipação e qualidade para iniciar as jogadas a partir do campo de defesa. No gol, Dominik Livaković, herói de disputas de pênaltis memoráveis em torneios passados, reassume o posto com a missão de garantir a solidez de uma equipe historicamente moldada para resistir à pressão e crescer nos momentos mais dramáticos.

A grande renovação croata para 2026 se concentra no setor ofensivo, que busca maior poder de finalização e dinamismo para preencher o vazio deixado por goleadores do passado. Jogadores como Andrej Kramarić e Mario Pašalić ganham a companhia de jovens atacantes mais verticais e velozes, que atuam nas principais ligas europeias e oferecem opções de contra-ataque rápido ao esquema de Dalić. Essa mistura de juventude operária na frente com a sofisticação técnica do meio-campo é a grande aposta para manter a Croácia competitiva nos cenários mais exigentes.


Gana

 
A seleção de Gana chega para a Copa do Mundo de 2026 de cara nova e com uma das mudanças técnicas mais impactantes do continente africano. Após carimbar seu passaporte de forma direta ao liderar o Grupo I das Eliminatórias da CAF (selado com uma vitória crucial sobre Comores), os Black Stars surpreenderam o mercado da bola. A federação local contratou o experiente treinador português Carlos Queiroz para assumir o comando da equipe exclusivamente para a disputa do Mundial. Queiroz substituiu Otto Addo e alcançará o feito histórico de dirigir sua quinta Copa do Mundo consecutiva por seleções diferentes.
Sob a batuta de Carlos Queiroz, a expectativa é que Gana adote uma identidade tática baseada em seus trabalhos anteriores de sucesso (como na seleção do Irã): uma defesa extremamente compacta em bloco baixo ou médio, que prioriza a solidez tática para depois disparar em contragolpes fulminantes. O esquema de preferência do treinador varia entre o 4-3-3 clássico e o 4-2-3-1, focando no preenchimento de espaços e na disciplina tática defensiva que faltou à equipe em torneios africanos recentes.


O grande pilar técnico e cérebro da equipe continua sendo o talentoso meio-campista Mohammed Kudus. Atuando como o principal armador e válvula de escape criativa, Kudus é o termômetro do time, responsável por conduzir a transição da defesa para o ataque. No setor de contenção, os Black Stars contam com o retorno e a liderança do experiente Thomas Partey, que atua como o principal protetor da zaga e dita o ritmo dos passes na saída de bola, dando a sustentação necessária para o modelo reativo de Queiroz.

O ataque de Gana é um dos setores mais físicos e velozes da competição. O setor combina a juventude explosiva dos pontas Antoine Semenyo e Abdul Fatawu com o faro de gol e a experiência internacional do centroavante Iñaki Williams. Além deles, o veterano capitão Jordan Ayew traz o equilíbrio tático e a malícia necessários para os momentos de maior pressão na competição.

No sorteio oficial da FIFA para o torneio de 48 seleções, Gana ficou alocada no Grupo L. A equipe fará sua estreia em solo norte-americano diante do Panamá, em um duelo onde os africanos despontam como favoritos. Nas rodadas seguintes da fase de grupos, os comandados de Carlos Queiroz enfrentarão testes de fogo contra as potências europeias da Inglaterra e da Croácia, adversários tradicionais que exigirão o máximo da organização defensiva proposta pelo novo treinador.

O principal objetivo dos Black Stars em 2026 é resgatar o orgulho das grandes campanhas históricas, como a de 2010. Com um elenco repleto de atletas atuando nas principais ligas da Europa e comandados por um estrategista especialista em Copas do Mundo, o país entra no torneio maduro o suficiente para brigar não apenas pela classificação, mas para tentar ser a grande surpresa do chaveamento eliminatório.




Panamá


 
A seleção do Panamá chega para a Copa do Mundo de 2026 consolidada como a principal força da América Central. Em franca evolução técnica e tática no cenário continental, a equipe carimbou seu passaporte de forma direta após liderar o Grupo A da terceira fase das Eliminatórias da Concacaf, selando a vaga com uma vitória categórica por 3 a 0 sobre El Salvador. Esta será a segunda participação de Los Canaleros na história dos Mundiais, retornando ao torneio após a estreia em 2018, na Rússia.

O grande arquiteto por trás do crescimento panamenho é o treinador Thomas Christiansen, que comanda a seleção desde julho de 2020 e se tornou o técnico mais longevo da história do país. O estrategista dinamarquês naturalizado espanhol — ex-jogador do Barcelona de Johan Cruyff — transformou a identidade do time. Sob sua liderança, o Panamá abandonou o estilo puramente reativo para adotar um modelo de jogo focado na posse de bola, organização coletiva e transições dinâmicas, fazendo a seleção saltar da 80ª para a 30ª posição no ranking da FIFA. O estilo de jogo se baseia em uma linha de cinco defensores bem nítida, variando entre 5-3-2 e o 5-4-1.

O grande motor e cérebro da equipe em campo é o meio-campista Adalberto “Coco” Carrasquilla, eleito o melhor jogador da Copa Ouro da Concacaf. Carrasquilla dita o ritmo do jogo com extrema qualidade técnica e criatividade na armação das jogadas. Ele atua protegido pelo experiente volante e capitão do time, Aníbal Godoy, que atualmente defende o San Diego e traz a liderança necessária para dar equilíbrio ao setor de meio-campo de Los Canaleros.

Nas alas e no setor ofensivo, o Panamá aposta na velocidade e na força física para surpreender as defesas adversárias. O lateral-direito Amir Murillo, que joga no Olympique de Marseille da França, é uma das principais válvulas de escape e referência internacional do elenco. Na frente, os gols da classificação contaram com o faro do atacante José Fajardo, da Universidad Católica, que conta com o suporte do habilidoso ponta Ismael Díaz no ataque titular projetado por Christiansen.

Com o chaveamento oficial da FIFA já definido para o torneio de 48 seleções, o Panamá caiu no Grupo L e terá uma missão altamente desafiadora na fase de grupos. Os panamenhos farão sua estreia diante de Gana, em um confronto chave para as pretensões de classificação. Na sequência, a equipe centro-americana medirá forças contra dois gigantes do futebol europeu: a Croácia e a Inglaterra.

Diferente da campanha de 2018, quando entrou como mera coadjuvante e sofreu três derrotas, a seleção panamenha chega madura e sem complexos para encarar as potências mundiais. A expectativa da comissão técnica e dos torcedores é brigar de igual para igual e tentar uma vaga inédita no mata-mata, avançando seja nas duas primeiras posições ou como um dos melhores terceiros colocados do torneio.