
Guia da Copa do Mundo 2026
Bem-vindo ao Guia da Copa do Mundo 2026. Com o torneio se aproximando, preparamos uma análise detalhada de cada grupo, destacando as forças, estilos de jogo e expectativas de cada seleção. Organizado por grupos, o guia aprofunda as características de cada equipe, revelando os caminhos que podem trilhar rumo às fases decisivas da competição.
Bem-vindo ao Guia da Copa do Mundo 2026. Com o torneio se aproximando, preparamos uma análise detalhada de cada grupo, destacando as forças, estilos de jogo e expectativas de cada seleção. Organizado por grupos, o guia aprofunda as características de cada equipe, revelando os caminhos que podem trilhar rumo às fases decisivas da competição.
Novo formato: agora com 48 seleções
A FIFA implementou mudanças históricas para a Copa de 2026. O torneio passará de 32 para 48 seleções, ampliando significativamente o número de países participantes.
O formato funcionará da seguinte forma:
12 grupos com 4 seleções cada
Classificação dos dois melhores de cada grupo
Os 8 melhores terceiros colocados também avançam
Mata-mata começando nos 16 avos de final
Com isso, o total de jogos sobe para 104 partidas.
A FIFA implementou mudanças históricas para a Copa de 2026. O torneio passará de 32 para 48 seleções, ampliando significativamente o número de países participantes.
O formato funcionará da seguinte forma:
12 grupos com 4 seleções cada
Classificação dos dois melhores de cada grupo
Os 8 melhores terceiros colocados também avançam
Mata-mata começando nos 16 avos de final
Com isso, o total de jogos sobe para 104 partidas.
Cidades-sede e países
Estados Unidos
New York City / New Jersey
Los Angeles
Dallas
Miami
Atlanta
Seattle
Houston
Philadelphia
Kansas City
Boston
Área da baía de San Francisco
New York City / New Jersey
Los Angeles
Dallas
Miami
Atlanta
Seattle
Houston
Philadelphia
Kansas City
Boston
Área da baía de San Francisco
México
- Mexico City
- Guadalajara
- Monterrey
- Mexico City
- Guadalajara
- Monterrey
Canadá
- Toronto
- Vancouver
- Toronto
- Vancouver
Os estádios da Copa do Mundo 2026
A Copa do Mundo de 2026 terá alguns dos estádios mais modernos e icônicos do planeta. Muitos deles já recebem partidas da NFL, grandes shows internacionais e finais históricas. A seguir, conheça um pouco sobre cada arena confirmada para o Mundial.
A Copa do Mundo de 2026 terá alguns dos estádios mais modernos e icônicos do planeta. Muitos deles já recebem partidas da NFL, grandes shows internacionais e finais históricas. A seguir, conheça um pouco sobre cada arena confirmada para o Mundial.
MetLife Stadium
Será o palco da grande final da Copa do Mundo 2026. Localizado na região de Nova York, o estádio tem capacidade para mais de 80 mil torcedores e é casa das equipes da NFL New York Giants e New York Jets. É conhecido pela enorme estrutura moderna e por receber grandes eventos internacionais.
Será o palco da grande final da Copa do Mundo 2026. Localizado na região de Nova York, o estádio tem capacidade para mais de 80 mil torcedores e é casa das equipes da NFL New York Giants e New York Jets. É conhecido pela enorme estrutura moderna e por receber grandes eventos internacionais.
Estadio Azteca
Um dos estádios mais lendários da história do futebol mundial. Já recebeu as finais das Copas de 1970 e 1986, eternizadas por exibições geniais de Pelé e Maradona. Em 2026, fará história ao se tornar o primeiro estádio do planeta a sediar três partidas de abertura da Copa do Mundo. É ali que a bola rolará pela primeira vez no torneio, no dia 11 de junho, com a estreia da seleção mexicana.
SoFi StadiumConsiderado um dos estádios mais tecnológicos do mundo, possui arquitetura futurista, cobertura translúcida e um gigantesco telão suspenso em 360 graus. Inaugurado em 2020 na região de Los Angeles, a arena é uma referência em entretenimento esportivo. No torneio de 2026, ele terá um papel de enorme destaque ao sediar a partida de abertura da seleção dos Estados Unidos na competição
Um dos estádios mais lendários da história do futebol mundial. Já recebeu as finais das Copas de 1970 e 1986, eternizadas por exibições geniais de Pelé e Maradona. Em 2026, fará história ao se tornar o primeiro estádio do planeta a sediar três partidas de abertura da Copa do Mundo. É ali que a bola rolará pela primeira vez no torneio, no dia 11 de junho, com a estreia da seleção mexicana.
AT&T Stadium
Conhecido como “Palácio do Cowboy”, é um dos maiores estádios da NFL e impressiona pelo tamanho e luxo. Seu telão central é um dos maiores já instalados em arenas esportivas. Deve receber partidas decisivas da Copa.
Conhecido como “Palácio do Cowboy”, é um dos maiores estádios da NFL e impressiona pelo tamanho e luxo. Seu telão central é um dos maiores já instalados em arenas esportivas. Deve receber partidas decisivas da Copa.
Mercedes-Benz Stadium
Famoso pelo design inovador do teto retrátil em formato circular, o estádio é uma das arenas mais modernas dos Estados Unidos. Também é reconhecido pela sustentabilidade e pela experiência tecnológica oferecida ao público.
Famoso pelo design inovador do teto retrátil em formato circular, o estádio é uma das arenas mais modernas dos Estados Unidos. Também é reconhecido pela sustentabilidade e pela experiência tecnológica oferecida ao público.
Hard Rock Stadium
Localizado em Miami, o estádio combina clima tropical e atmosfera vibrante. Além do futebol americano, recebe Fórmula 1, tênis e grandes shows. Deve ser uma das sedes mais animadas do Mundial.
Localizado em Miami, o estádio combina clima tropical e atmosfera vibrante. Além do futebol americano, recebe Fórmula 1, tênis e grandes shows. Deve ser uma das sedes mais animadas do Mundial.
Lumen Field
Conhecido pela torcida extremamente barulhenta, o estádio de Seattle possui uma atmosfera intensa durante os jogos. Sua arquitetura oferece excelente acústica e visão privilegiada do campo.
Conhecido pela torcida extremamente barulhenta, o estádio de Seattle possui uma atmosfera intensa durante os jogos. Sua arquitetura oferece excelente acústica e visão privilegiada do campo.
NRG Stadium
Foi um dos primeiros grandes estádios dos EUA com teto retrátil. Possui estrutura moderna e costuma receber eventos esportivos de enorme porte, incluindo Super Bowl e partidas internacionais.
Foi um dos primeiros grandes estádios dos EUA com teto retrátil. Possui estrutura moderna e costuma receber eventos esportivos de enorme porte, incluindo Super Bowl e partidas internacionais.
Lincoln Financial Field
Casa do Philadelphia Eagles, é conhecido pela atmosfera intensa criada pelos torcedores. O estádio passou por modernizações recentes e terá papel importante durante o torneio.
Casa do Philadelphia Eagles, é conhecido pela atmosfera intensa criada pelos torcedores. O estádio passou por modernizações recentes e terá papel importante durante o torneio.
Arrowhead Stadium
Um dos estádios mais tradicionais do futebol americano. O local é famoso pelo recorde de barulho da torcida e pela paixão dos fãs do Kansas City Chiefs.
Um dos estádios mais tradicionais do futebol americano. O local é famoso pelo recorde de barulho da torcida e pela paixão dos fãs do Kansas City Chiefs.
Gillette Stadium
Localizado próximo a Boston, o estádio é conhecido por sediar partidas históricas da NFL e por sua excelente infraestrutura para grandes eventos internacionais.
Localizado próximo a Boston, o estádio é conhecido por sediar partidas históricas da NFL e por sua excelente infraestrutura para grandes eventos internacionais.
Levi’s Stadium
Arena moderna da região de San Francisco, destaca-se pelo foco em sustentabilidade e tecnologia. Foi palco do Super Bowl 50 e receberá importantes jogos da Copa.
Arena moderna da região de San Francisco, destaca-se pelo foco em sustentabilidade e tecnologia. Foi palco do Super Bowl 50 e receberá importantes jogos da Copa.
BC Place
Principal estádio do Canadá na costa oeste, possui teto retrátil e localização privilegiada no centro de Vancouver. Será uma das principais sedes canadenses do Mundial.
Principal estádio do Canadá na costa oeste, possui teto retrátil e localização privilegiada no centro de Vancouver. Será uma das principais sedes canadenses do Mundial.
BMO Field
Tradicional casa do futebol canadense, o estádio será ampliado especialmente para a Copa. Toronto receberá jogos importantes da fase de grupos.
Tradicional casa do futebol canadense, o estádio será ampliado especialmente para a Copa. Toronto receberá jogos importantes da fase de grupos.
Estadio BBVA
Um dos estádios mais bonitos da América Latina, chama atenção pela vista impressionante das montanhas ao fundo. É moderno, confortável e muito elogiado pelos torcedores.
Um dos estádios mais bonitos da América Latina, chama atenção pela vista impressionante das montanhas ao fundo. É moderno, confortável e muito elogiado pelos torcedores.
Estadio Akron
Conhecido pelo design moderno inspirado em um vulcão, é um dos estádios mais tecnológicos do México e receberá partidas importantes do torneio.
Com estádios gigantescos, tecnologia de ponta e ambientes históricos, a Copa do Mundo 2026 promete oferecer uma experiência inédita para jogadores e torcedores do mundo inteiro.
Conhecido pelo design moderno inspirado em um vulcão, é um dos estádios mais tecnológicos do México e receberá partidas importantes do torneio.
Com estádios gigantescos, tecnologia de ponta e ambientes históricos, a Copa do Mundo 2026 promete oferecer uma experiência inédita para jogadores e torcedores do mundo inteiro.
Maple, Zayu e Clutch: Os Mascotes Oficiais da Copa do Mundo 2026!
Em 2026, o torneio não apenas receberá mais seleções, mas também fará história ao ser sediado por três países de forma conjunta: Canadá, México e Estados Unidos.
Para representar essa união inédita na América do Norte, a FIFA decidiu inovar: em vez de apenas um personagem, fomos apresentados a um trio de mascotes oficiais: Maple, Zayu e Clutch. Cada um deles carrega a identidade, a fauna e o espírito de seu país natal.
Em 2026, o torneio não apenas receberá mais seleções, mas também fará história ao ser sediado por três países de forma conjunta: Canadá, México e Estados Unidos.
Para representar essa união inédita na América do Norte, a FIFA decidiu inovar: em vez de apenas um personagem, fomos apresentados a um trio de mascotes oficiais: Maple, Zayu e Clutch. Cada um deles carrega a identidade, a fauna e o espírito de seu país natal.
A Bola da Copa do Mundo
Divulgação/Adidas
Anunciada pela Fifa em parceria com a Adidas, a Trionda, é a bola oficial da Copa do Mundo 2026.
As seleções

Anunciada pela Fifa em parceria com a Adidas, a Trionda, é a bola oficial da Copa do Mundo 2026.
As seleções
Grupo A: México, África do Sul, Coreia do Sul e República Tcheca.
México
O México chega à Copa do Mundo cercado por expectativas e pela necessidade de deixar para trás a imagem negativa construída na edição anterior. Contando com o apoio de sua torcida e com o Estádio Azteca como um de seus principais trunfos, a seleção mexicana busca transformar o fator casa em vantagem competitiva. Não por acaso, as únicas ocasiões em que alcançou as quartas de final ocorreram justamente em Mundiais disputados em território mexicano, em 1970 e 1986. Como um dos países-sede da competição de 2026, a esperança é repetir esse feito e superar os obstáculos que têm marcado sua trajetória recente.
O retrospecto mais próximo aumenta a cobrança. Em 2022, o México ficou abaixo das expectativas ao ser eliminado ainda na fase de grupos, terminando atrás de Argentina e Polônia na classificação. Além disso, a equipe carregava o peso de uma sequência incômoda de sete eliminações consecutivas nas oitavas de final, um ciclo que reforçou a sensação de estagnação e ampliou a pressão por uma campanha mais consistente diante de sua torcida.
Sob o comando técnico atual de Javier Aguirre, a seleção aposta em uma renovação geracional (com jovens como o meia Gilberto Mora ganhando espaço ao lado de veteranos experientes). O planejamento para o gol sofreu um forte impacto com a lesão grave de Luis Malagón no início de 2026, ele que havia sido o titular no título da Copa Ouro em 2025. Esse imprevisto forçou a convocação do veterano Guillermo Ochoa na data FIFA de março. Aos 40 anos e conhecido por crescer em Copas, Ochoa surge como uma sombra e uma liderança experiente, mas a tendência natural é que Tala Rangel assuma a titularidade no mundial.
Tradicionalmente agressivo no ataque, o México tenta controlar a posse no campo do adversário usando um 4-3-3 flexível que se transforma em 3-4-3 na fase de construção. Os laterais sobem muito para dar amplitude. Pela direita, Israel Reyes se estabeleceu com uma função mais defensiva, atuando na base da saída de bola quase como um terceiro zagueiro — tendo Jorge Sánchez como alternativa mais ofensiva. Pela esquerda, Jesús Gallardo é o dono da posição e tem total liberdade para atacar o corredor. No miolo da zaga, o cenário é estável e sem contestação, com a dupla formada por Johan Vásquez e César Montes consolidada após os amistosos de março.
O setor de meio-campo adota uma estrutura baseada no 4-3-3, mas lida com problemas físicos frequentes. O primeiro volante e pilar do time é o experiente Edson Álvarez (autor do gol do título da Copa Ouro contra os Estados Unidos), mas suas lesões recentes abriram espaço para Erik Lira mostrar serviço. Para a segunda função do meio, o desfalque é definitivo: Marcelo Ruiz sofreu uma lesão grave de ligamento e está fora da Copa. Isso abriu caminho para Álvaro Fidalgo, jogador espanhol formado na base do Real Madrid que fez carreira no México (e recentemente foi para o Betis). Fidalgo já é bem conhecido da torcida e oferece muita qualidade no passe e na construção desde a defesa.
A grande esperança de criatividade e o principal símbolo da juventude mexicana é Gilberto Mora. Destaque do Mundial Sub-20 em 2025 e já testado na Copa Ouro, Mora chega à Copa do Mundo com apenas 17 anos com status de potencial titular. Embora exista o debate sobre o peso de colocar tamanha responsabilidade em um jovem em uma Copa em casa, seu talento em espaços reduzidos o credencia para a vaga. Como alternativa para essa função mais avançada ou para as pontas, Aguirre testou Brian Gutiérrez, atleta nascido nos Estados Unidos que se destacou no início de 2026 pelo Chivas.
Nas pontas, Roberto Alvarado é o favorito pelo lado direito, enquanto a ponta esquerda vive uma disputa aberta entre Alexis Vega e Julián Quiñones. Quiñones é colombiano de nascimento, construiu carreira no futebol mexicano e vive grande fase goleadora no Al-Qadsiah, da Arábia Saudita, oferecendo uma verticalidade agressiva que complementa a camisa 9.
A referência central do ataque continua sendo o veterano Raúl Jiménez. Apesar de ter perdido os holofotes por um tempo devido à grave lesão na cabeça sofrida há alguns anos, Jiménez é o titular por sua capacidade de fazer o pivô e dar sustentação ao ataque. O jovem Santiago Giménez, que teve boa passagem pela Holanda mas sofreu para se firmar no Milan e também se lesionou, corre por fora como opção.Contudo, o grande gargalo tático é a transição defensiva. Quando o bloco avança para pressionar, deixa muito espaço às costas dos volantes, o que se torna um perigo imenso contra os velocistas deste grupo.
África do Sul
A seleção da África do Sul se apresenta nesta Copa do Mundo de 2026 após um hiato considerável. São 24 anos sem conseguir uma classificação dentro de campo — já que em 2010 a participação veio por direito de país-sede — e 16 anos longe do maior palco do futebol mundial. É um retorno pesado do ponto de vista nostálgico para quem se acostumou com o carisma dos Bafana Bafana.
No entanto, o ponto mais fascinante desse projeto comandado pelo experiente técnico belga Hugo Broos é a estrutura do time. A comissão técnica conseguiu replicar na seleção o ecossistema tático do clube mais dominante do país: o Mamelodi Sundowns. Um time que, embora ainda distante do grande público europeu, foi semifinalista da Champions Africana, esteve no Mundial de Clubes de 2025 e serve como a verdadeira espinha dorsal da seleção.
É impossível não olhar para o Grupo A desta Copa e não sentir o peso das coincidências históricas. A Coreia do Sul, adversária nesta chave, nos remete a 2002, a última Copa que os sul-africanos disputaram via Eliminatórias. E o reencontro com o México traz imediatamente à memória o jogo de abertura de 2010, aquele gol antológico do Siphiwe Tshabalala.
Agora, a história se repete, mas em solo mexicano. A África do Sul entra no grupo teoricamente como o "patinho feio", disputando espaço com a favorita Coreia do Sul (que tem teto competitivo alto, se resolver seus problemas de oscilação) e a sempre física República Tcheca de Jaroslav Šilhavý.
O grande mérito de Hugo Broos foi resgatar um conceito que andava em desuso no futebol moderno globalizado pós-Lei Bosman: o bloco de clube como base da seleção. Sete ou oito titulares absolutos convivem diariamente no Mamelodi Sundowns, time que foi muito bem moldado taticamente pelo português Miguel Cardoso (ex-Celta de Vigo). Isso acelera processos, traz automatismos e uma memória tática valiosíssima para torneios de tiro curto.
Embora no cenário local o Sundowns seja um time de posse asfixiante, Broos sabe equilibrar isso com muito pragmatismo no nível competitivo de uma Copa do Mundo. O time flerta com o 4-3-3, mas tende a se consolidar num 4-2-3-1 mais protegido, ou até mesmo numa linha de 5 atrás em momentos de forte pressão (5-4-1). A África do Sul não é um time que se sente desconfortável sem a bola. Broos implementou muito rigor no equilíbrio pós-perda e na compactação em bloco médio. O problema mora no desenho do 4-4-2 quando Mocoena fica sobrecarregado: se os zagueiros (Mokwena/Esnat) afundarem demais a linha defensiva, cria-se um espaço perigoso entre as linhas, um prato cheio para adversários com meias criativos.
A engrenagem começa lá atrás com Ronwen Williams, um goleiro muito seguro e fundamental para qualificar o início das jogadas. O time tem predileção por iniciar a construção pelo lado esquerdo com Modiba, buscando passes limpos para quebrar linhas por dentro.
Contudo, não há vergonha nenhuma em acionar o passe longo e direto. É aqui que entra a figura de Lyle Foster. O centroavante do Burnley (que fez boa Premier League apesar do rebaixamento da equipe para a Championship) tem ótima mobilidade, sabe jogar de pivô e é o alvo perfeito para sustentar a bola e acionar a chegada da segunda linha.
Teboho Mocoena é o verdadeiro termômetro do meio-campo. Atua como o "âncora", faz a leitura perfeita de coberturas quando Adams se lança ao ataque e pode até recuar entre os zagueiros para qualificar a saída de três. Oswwin Appollis e Elias Mokwana são pontas agudos, verticais, que garantem a profundidade pelos lados e pisam na área para finalizar quando o time acumula peças no setor ofensivo.
O grande trunfo da África do Sul nesta Copa de 2026 não é o brilho individual — afinal, não estamos falando de um elenco recheado de estrelas das cinco grandes ligas europeias —, mas sim a capacidade de funcionar como um organismo único. Se o adversário morder a isca da pressão alta e deixar as costas expostas, as transições em velocidade desse time, baseadas no entrosamento do Mamelodi Sundowns, podem machucar.
Resta saber se essa sincronização tática de clube será suficiente para bater de frente com a hierarquia física e técnica dos adversários do Grupo A.
Coreia do Sul
A Coreia do Sul atual vai muito além da dependência de Heung-min Son. No banco de reservas, há um equilíbrio estratégico promissor: a identificação de um ídolo histórico nacional combinada à visão metodológica e complementar do futebol europeu. O objetivo aqui é analisar os fatores que desenham o panorama dos sul-coreanos para 2026, dissecando o trabalho conjunto entre o técnico principal, Hong Myung-bo, e seu assistente, João Aroso.
Esse modelo de “duplo cérebro” sinaliza o amadurecimento de uma seleção que busca apagar a antiga impressão de ser um time composto por “Son e mais dez”. Após a crise enfrentada na última Copa da Ásia, o país parece decidido a evoluir coletivamente. Nesse cenário, a contratação de João Aroso foi uma jogada de mestre. O profissional, que já havia integrado a comissão de Paulo Bento e possui sólida formação na vanguarda tática portuguesa, agrega novos conceitos a Hong Myung-bo — uma lenda viva local que, curiosamente, está marcado na história do futebol espanhol por converter um dos pênaltis que eliminou a Fúria na Copa de 2002. Agora, em 2026, a meta da dupla é provar que encontrou a fórmula ideal para o elenco.
Existe, contudo, uma dualidade que pode ser perigosa. Por um lado, Hong Myung-bo prefere estruturar a equipe em um bloco médio-baixo, valorizando a troca de passes curta para atrair a pressão adversária e explorar os espaços em velocidade. Por outro, João Aroso — respaldado por anos de experiência como assistente de grandes técnicos e consolidado como peça-chave no futebol coreano — tende a um modelo mais associativo. Ele preconiza a busca pelo “terceiro homem” na saída de bola e automatismos para que os meias infiltrem nas costas da defesa, priorizando o protagonismo ofensivo por meio da posse.
Resta saber se essa mistura funcionará na prática, já que a Coreia do Sul chega ao torneio cercada de incertezas sobre o seu real desempenho. Sorteada no Grupo A ao lado de México, África do Sul e República Tcheca, a seleção deve travar um duelo direto com os tchecos pela segunda vaga rumo aos mata-matas. É um grupo equilibrado e repleto de incógnitas: a África do Sul precisará de um encaixe defensivo perfeito; o México carrega uma cobrança midiática esmagadora; e a República Tcheca provou na repescagem ser um oponente defensivamente duríssimo. Em condições normais, a Coreia poderia ser apontada como favorita da chave, mas o histórico recente de atuações abaixo do esperado liga o sinal de alerta.
Do ponto de vista tático, a assinatura de Hong Myung-bo se apoia em uma notável flexibilidade estrutural, geralmente desenhada no 5-4-1. Esse sistema se caracteriza por um “quadrado” bem definido no meio-campo e pela liberdade concedida a Heung-min Son, além do forte apoio dos alas em amplitude e da liderança defensiva de Kim Min-jae. O zagueiro do Bayern de Munique é o pilar de confiança para ditar o ritmo e qualificar a saída de bola. A formação costuma se moldar conforme o nível do adversário, explorando a capacidade adaptativa do elenco.
No aspecto individual, os meias-atacantes têm total liberdade para flutuar para as pontas. É o caso de Kang-in Lee, jogador extremamente versátil que pode atuar como volante criativo, meia centralizado ou ponta (funções que já exerceu no Valencia e no PSG), destacando-se pela excelente capacidade de associação. O mesmo vale para Jae-sung Lee, encarregado de ocupar a zona de três quartos do campo para aproveitar as segundas bolas geradas pelas jogadas de Son.
Esses automatismos que dão liberdade aos meias nascem da variação tática da equipe. Dependendo do contexto, o 5-4-1 se transforma facilmente em um 3-4-2-1 ao adiantar os alas. Em outras situações, o time pode se posicionar em um 4-4-2, recuando Seol Young-woo para compor uma dobra de laterais com Lee Ki-je — uma das grandes surpresas da convocação —, o que fortalece a compactação em bloco médio-baixo, onde o sacrifício defensivo de todos é inegociável.
A engrenagem começa lá atrás, a partir do goleiro e de Kim Min-jae. A presença do zagueiro do Bayern eleva o patamar da Coreia do Sul: ele domina o início das jogadas, vence duelos físicos e lê perfeitamente os espaços vazios no meio-campo. Essa liderança transmite a segurança necessária para que nomes como Paik Seung-ho e Park Jin-seob funcionem como esteios na base da jogada, projetando os demais meio-campistas ao ataque assim que a bola ultrapassa a primeira linha de pressão.
Apesar dos ensaios de um jogo associativo mais cadenciado por parte de Aroso, a Coreia do Sul se destaca mesmo quando acelera. O time transita da defesa para o ataque em poucos segundos e com raros toques, evitando retenções desnecessárias. Isso ocorre por dois motivos: a falta de características técnicas para um jogo de paciência na maioria do elenco e a eficiência desse estilo direto. Embora Kang-in Lee e Jae-sung Lee tenham qualidade para ditar o ritmo e clarear lances entrelinhas, a equipe prefere não arriscar e aposta na velocidade de alas profundos como Seol e Kim Tae-hwan.
Diante disso, Heung-min Son não joga como um centroavante estático de referência. Ele atua com muita mobilidade, caindo pelos flancos e arrastando a marcação graças à sua inteligência e velocidade de raciocínio. Embora o elenco conte com atacantes de maior presença de área, como Hwang Hee-chan, a comissão técnica prefere a dinâmica móvel de Son para pegar as defesas rivais desprotegidas.
Defensivamente, a Coreia do Sul é paciente. A equipe não se incomoda em ceder a posse de bola e não sofre de ansiedade por passar longos períodos defendendo. O bloco médio-baixo se mantém compacto e com linhas estreitas, oferecendo um ferrolho difícil de ser quebrado pelos oponentes. O plano consiste em fechar espaços, induzir o erro adversário e acionar o contragolpe imediato com seus velocistas, tendo Son como a principal ponta de lança. A pressão pós-perda é intensa, mas executada de forma inteligente no próprio campo, poupando a energia física dos atletas ofensivos para o momento da transição.
Dentre os destaques individuais, vale reforçar o papel de Lee Ki-je. Aos 26 anos e vindo de uma excelente temporada no Gangwon FC, o defensor surpreendeu ao cavar seu espaço na lista após raras aparições anteriores. Sua polivalência para atuar como zagueiro, lateral-esquerdo ou meio-campista oferece a Hong Myung-bo o encaixe perfeito para mudar o esquema tático sem a necessidade de substituições.
No setor de criação, Kang-in Lee surge como o elemento diferenciado. Rápido, habilidoso e dono de uma visão de jogo apurada, ele consegue encontrar linhas de passe em espaços congestionados, sendo o elo indispensável entre o meio-campo e o ataque — uma virtude rara em seleções asiáticas.
Por fim, a liderança técnica e emocional permanece com Heung-min Son. Aos 33 anos e atualmente jogando no futebol norte-americano (MLS), o craque compensa a natural perda de explosão física com posicionamento inteligente, drible curto e um poder de finalização letal. Ele continua sendo o jogador mais decisivo do país.
Em suma, a Coreia do Sul caminha em busca de sua maturidade tática e estrutural, ironicamente no momento em que seu principal astro se aproxima da reta final da carreira. Corrigida a ingenuidade defensiva do passado, o grupo agora conta com alternativas sólidas para além do plano principal. O sucesso nesta Copa do Mundo dependerá de como a equipe vai reagir em um cenário fora da Ásia, onde não é o time a ser batido.
República Tcheca (Tchéquia)
A seleção da Chéquia retorna à Copa do Mundo após um longo hiato de 20 anos, revivendo a lembrança de sua última participação em 2006, quando a equipe repleta de expectativas acabou eliminada ainda na fase de grupos. Embora o país carregue uma história riquíssima no futebol desde os tempos da Tchecoslováquia, a geração atual não se compara tecnicamente ao nível elevado dos anos 2000, que contava com craques como Pavel Nedved, que hoje atua como gerente de futebol da federação. A vaga para o Mundial foi conquistada de forma dramática na repescagem, superando Dinamarca e Irlanda nos pênaltis sob o comando do veterano treinador Miloslav Koubek. Assumindo o cargo em dezembro de 2025, menos de um ano antes da Copa, Koubek herdou uma seleção em crise que havia acabado de perder para as Ilhas Faroé, conseguindo estabilizar o elenco em pouquíssimo tempo de trabalho.
A principal identidade desta equipe checa reside na sua extrema capacidade física, uma característica impulsionada pelo sucesso recente de clubes locais em competições europeias, especialmente o Slavia Praga, que exerce forte influência no número de convocados. O modelo de jogo é baseado no choque, na imposição física e em disputas constantes de jogo aéreo, sustentado por uma média de altura do time titular que fica acima de 1,85m.
Defensivamente, a Chéquia se estrutura em uma linha de cinco defensores sem a bola, optando por atuar em bloco médio ou baixo. O time evita pressionar de forma agressiva no campo de ataque porque sua linha de zaga demonstra desconforto ao defender em campo aberto ou enfrentar situações de velocidade no um contra um, preferindo proteger a própria área de forma compacta.
Na montagem da equipe, o goleiro Kovář assume a titularidade, protegido por um trio de zaga que tem como base Holeš pela direita, Hranáč como central e Krejčí pela esquerda, embora o jovem Chalupek apareça como alternativa para aumentar o vigor aéreo. Pelos lados do campo, o cenário é completamente assimétrico. Enquanto a ala direita é preenchida por Vladimir Coufal, jogador fundamental do Hoffenheim que entrega fôlego para cobrir o corredor e excelente precisão em cruzamentos, o lado esquerdo varia de acordo com o adversário. Para uma postura mais defensiva, atua Zelený, um zagueiro de origem que se comporta de maneira conservadora, enquanto Jurásek surge como opção de maior projeção ofensiva e Sadílek aparece como um meio-campista capaz de se sacrificar pela lateral.
No meio-campo, a grande engrenagem é Tomáš Souček, jogador do West Ham que, apesar de ter perdido a braçadeira de capitão por punição disciplinar do técnico, é peça indispensável pela sua capacidade de cobrir grandes áreas e infiltrar na área adversária para finalizar. Ao seu lado na volância, Červ vinha sendo o titular do ciclo, mas Koubek convenceu o experiente Darida a abdicar da aposentadoria para jogar a repescagem, adicionando maior controle e qualidade na saída de bola. À frente deles, Provod transita entre a armação e a recomposição, enquanto Šulc atua como o principal elemento criativo vindo de fora para dentro, flutuando como um falso ponta para abastecer o centroavante Patrik Schick, a grande referência técnica e esperança de gols do país.
Em termos de dinâmica tática, a Chéquia demonstra versatilidade nas saídas de bola, onde o zagueiro pela direita se posiciona como um lateral tradicional e libera Coufal para atacar como um meia avançado, aproveitando que Šulc e Provod centralizam o jogo. Caso o cenário exija uma postura de abafa total, Koubek costuma mudar o esquema para o 5-3-2 com a entrada de Chorý, um centroavante de quase dois metros de altura, para atuar ao lado de Schick e sobrecarregar a área adversária com cruzamentos. Alternativas como Chytil, que entrega mais mobilidade ao ataque, e Kara, que oferece drible pelo lado direito, completam o leque de opções de um time que pode não esbanjar criatividade técnica, mas promete ser um dos adversários mais duros de se enfrentar no embate físico.
Grupo B: Canadá, Catar, Bósnia e Suíça.
Canadá
O Canadá chega à Copa do Mundo 2026, cercado de expectativas. A equipe se transformou em uma das seleções mais verticais da Concacaf. Sem a preocupação de dominar as partidas através da posse de bola, os canadenses apostam em um futebol extremamente físico que promete trazer muita dor de cabeça aos adversários. Jogando em casa, com sedes em Vancouver e Toronto, o país carrega a enorme responsabilidade de ser um dos anfitriões do evento mundialista, e o ambiente hiperrevolucionado das arquibancadas precisa ser canalizado como combustível para abastecer um estilo de jogo baseado na eletricidade e no ritmo intenso.
O grande catalisador dessa mudança de postura atende pelo nome de Jesse Marsch. O treinador chegou com a missão clara de potencializar as transições rápidas e implementar o conhecido DNA da franquia Red Bull na seleção nacional. Na prática, Marsch erradicou os passes de segurança e a temporização do vocabulário da equipe, transformando cada recepção de bola em um passe para frente ou em uma condução vertical. O plano consiste em atrair o adversário para o seu próprio campo, convidando-o a atacar pelas laterais, para então ativar emboscadas asfixiantes. Ao recuperar a bola na intermediária defensiva, o Canadá não quer criar de forma estática, mas sim castigar as costas da defesa rival em alta velocidade, aproveitando os metros de campo aberto que foram deixados para trás.
Essa proposta exige um desdobramento físico hercúleo e um vaivém constante que testa o limite atlético do elenco. Embora o perfil do grupo seja naturalmente veloz, essa ausência de pausa esconde algumas carências perigosas, especialmente quando o Canadá enfrenta equipes que se fecham em blocos baixos. Em cenários de ataque posicional, o time costuma se mostrar plano e com pouca criatividade. Além disso, a seleção precisa de um volume muito alto de oportunidades para conseguir balançar as redes, sofrendo com a falta de pontaria em momentos decisivos. A repetição exaustiva de esforços na transição defensiva também pode cobrar o seu preço ao longo da competição, deixando dúvidas se as pernas vão aguentar a intensidade exigida até o fim.
Para fazer esse sistema funcionar no complexo Grupo B — onde enfrentarão a competitiva Suíça, a surpreendente Bósnia e Herzegovina e o atual campeão asiático Catar —, Jesse Marsch desenhou uma estrutura que flutua entre o 4-4-2 e o 4-2-2-2. A ideia central é estreitar os homens de frente para ocupar os corredores internos e abrir espaço para a subida dos alas. O grande farol e capitão do time continua sendo Alphonso Davies, o líder natural que dita o teto competitivo do país, seja atuando na lateral, na ponta ou até por dentro, graças ao seu poder de finalização e drible. Embora venha de uma temporada marcada por lesões que geram incertezas sobre sua forma física ideal, todo o desenho coletivo é moldado para favorecer a sua capacidade de romper jogos.
Ao lado de Davies, o atacante Jonathan David assume um papel vital devido à sua movimentação inteligente entre as linhas e à agressividade para atacar os espaços vazios. No miolo do meio-campo, jovens como Nathan Saliba e Ismaël Koné garantem a estabilidade e o balanço necessários, destacando-se pelo poder de desarme e pela clareza para clarear as jogadas logo após a roubada de bola. O Canadá entra em 2026 com uma proposta refrescante, agressiva e muito divertida de assistir, totalmente dependente de sua vitalidade e do fator emocional de jogar diante de sua torcida. Se o vigor físico for mantido e os principais astros corresponderem, os canadenses têm tudo para deixar de ser uma promessa e consolidar de vez a sua nova identidade no futebol mundial.
Suíça
A Suíça chega mais uma vez competitiva à uma Copa do Mundo. Embora frequentemente receba o rótulo de equipe pragmática ou sem brilho, a realidade é que os helvéticos sempre entregam resultados sólidos. Sob o comando de Murat Yakin, o grupo deu um salto evolutivo impressionante, transformando-se em um camaleão tático capaz de alternar entre linhas de três ou quatro defensores sem perder a organização. Essa flexibilidade permite tanto ditar o ritmo com a bola quanto explorar os espaços vazios, tornando os suíços um time extremamente interessante de assistir, com capacidade para neutralizar as principais armas de praticamente qualquer oponente.
Mesmo com a saída de figuras históricas e muito queridas pelo público, como Xherdan Shaqiri, a comissão técnica liderada por Yakin conseguiu estruturar um bloco que domina com maestria os espaços intermediários e as diferentes fases do jogo. A Suíça chega à Copa do Mundo de 2026 em seu ponto máximo de maturidade, contando com uma geração talentosa cujos principais pilares atuam nas ligas mais importantes da Europa. O grande trunfo da equipe reside na capacidade de alterar sua geometria interna durante os noventa minutos, ajustando os papéis dos atletas de acordo com as necessidades do confronto sem causar desconforto ou desespero tático. Essa bagagem credencia os helvéticos como os principais favoritos a liderar o Grupo B, superando o status de incógnita de Catar e Bósnia, e o fator casa do Canadá.
Dentro desse rico repertório estratégico, a Suíça transita confortavelmente entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, utilizando Dan Ndoye e Ruben Vargas para acelerar o ataque, enquanto Granit Xhaka e Remo Freuler oferecem a sustentação necessária no duplo pivô. Quando opta por três zagueiros, o time se desenha no 3-4-2-1 ou 3-4-3, recuando Ricardo Rodríguez para a sobra defensiva e liberando Silvan Widmer para dar amplitude pela ala. Dependendo do peso do rival, o sistema se transforma rapidamente em um bloco baixo estruturado no 5-4-1 ou 5-3-2. O pragmatismo suíço dita que a equipe assuma as rédeas da posse contra adversários teoricamente inferiores, mas saiba ceder o terreno e se fechar de maneira compacta contra potências, tornando-se uma ameaça letal em contragolpes verticais focados na velocidade dos extremos.
A saída de bola, coordenada desde o goleiro Gregor Kobel, ganha muita qualidade com a presença de Manuel Akanji e Nico Elvedi, permitindo que Xhaka atue em um segundo escalão sem a obrigação de se enfiar constantemente entre os zagueiros. No terço final do campo, as infiltrações em diagonal são exaustivamente trabalhadas, com os pontas cortando por dentro para abrir o corredor lateral para os defensores, enquanto homens de meio-campo como Remo Freuler e a jovem promessa Johan Manzambi chegam de trás para pisar na área. Na frente, a referência é Breel Embolo, um atacante de grande potência física que não se incomoda em cair pelas pontas para arrastar a marcação, servindo como pivô para clarear as jogadas ou buscando o arremate direto contra a meta adversária.
No plano individual, três engrenagens sustentam o teto competitivo do país. Granit Xhaka é o cérebro e o coração da equipe, controlando a distribuição e ditando os gatilhos de pressão com sua leitura impecável, além de assustar em chutes de longa distância. Na retaguarda, Manuel Akanji se consolidou como um defensor de elite mundial, funcionando como um verdadeiro mariscal que oferece segurança absoluta e uma condução de bola refinada digna de um meio-campista. Por fim, Johan Manzambi surge como o elemento surpresa após grande temporada no Freiburg, oferecendo um perfil misto de muita intensidade no “box-to-box” e uma excelente capacidade de finalização.
Catar
O Catar chega à Copa do Mundo 2026, tentando deixar para trás a decepção de ter sido em 2022 o país anfitrião, e terminar eliminado sem conseguir brilhar. Para a Copa do Mundo de 2026, o Catar promoveu uma verdadeira revolução em sua equipe e surge como um projeto muito mais maduro e liberto dos holofotes do extracampo. O grande responsável por essa mudança de patamar é o técnico espanhol Julen Lopetegui, que deu uma nova identidade competitiva aos cataris. A resposta definitiva desse amadurecimento veio com o título da Copa da Ásia, mostrando ao mundo que a seleção aprendeu a jogar sob forte exigência e que não precisa mais provar nada a ninguém, chegando ao torneio com o querendo surpreender no Grupo B.
A grande marca registrada de Lopetegui foi a implementação de um estilo de jogo corajoso e focado no protagonismo através da posse de bola. Bebendo diretamente da forte influência do futebol espanhol — enraizada há anos na base da Aspire Academy —, o Catar deixou de ser uma seleção puramente contragolpeadora. O plano agora consiste em dominar as partidas de maneira paciente e associativa. O pilar desse modelo é a saída limpa desde o campo de defesa, onde os zagueiros se abrem e os meio-campistas recuam para criar linhas de passe sem recorrer aos balões longos. Jogadores como Lucas Mendes, Waad e Madibo assumem funções cruciais nessa engrenagem, sendo os responsáveis por receber a bola de costas, girar e ditar o ritmo da circulação.
Taticamente, a equipe flutua com facilidade entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, mantendo uma linha defensiva de quatro homens bem definida e um triângulo articulador no meio-campo. Quando enfrenta adversários de maior hierarquia física ou técnica que a obrigam a recuar, a seleção se fecha em um 4-4-2 compacto com marcação zonal. Para evitar que esse bloco baixo se torne dramático, Lopetegui equilibra a postura defensiva com gatilhos de pressão máxima em setores específicos, tentando morder a posse rival para acionar seus atacantes. Ao chegar no terço final do campo, o Catar demonstra uma interessante riqueza de repertório, sentindo-se confortável tanto para trabalhar a bola de pé em pé quanto para buscar desmarques de ruptura em profundidade.Os caminhos do ataque catari passam obrigatoriamente pelos pés de Akram Afif, o líder técnico indiscutível do setor ofensivo, e pela velocidade de Edmilson Junior, dois atletas capazes de desestabilizar as defesas adversárias recebendo a bola no pé ou atacando os espaços vazios. A grande referência na área é o histórico Almoez Ali, um centroavante letal com mais de cinquenta gols pela seleção que superou lesões recentes para chegar em plena forma ao mundial. Além disso, o Catar se apoia em uma bola parada ofensiva muito bem ensaiada para romper defesas fechadas, explorando cruzamentos frontais e laterais mirados no excelente jogo aéreo de Boualem Khoukhi e Pedro Miguel.Embora a falta de jogos oficiais no início de 2026 tenha dificultado o desenho definitivo dos convocados, a identidade coletiva proposta por Lopetegui está perfeitamente assimilada pelo grupo. O Catar entra neste mundial praticando um futebol contracultural para a sua região, desafiando o favoritismo da Suíça e a solidez da Bósnia e Herzegovina na disputa pelas vagas do grupo.
Trata-se de uma seleção esteticamente atraente, agressiva com a bola e que guardou a sua melhor versão para o gramado norte-americano. Se conseguirem replicar o domínio continental em um nível de exigência global, os cataris têm tudo para apagar de vez a má impressão do passado e escrever uma história completamente diferente.
Bósnia e Herzegovina
A Bósnia e Herzegovina, encontrou na repescagem o caminho que a reconduziu ao grande cenário do futebol mundial, doze anos após a sua última participação, na Copa do Brasil em 2014. O técnico Sergej Barbarez assinou uma classificação agônica, histórica e passional, deixando para trás concorrentes de peso como País de Gales e a poderosa Itália, consolidando um bloco de enorme dureza competitiva que aprendeu a equilibrar a experiência da velha guarda com uma estrutura física imponente.
O reflexo dessa mentalidade está em uma equipe rochosa, difícil de ser batida e que promete dar muita guerra no Grupo B, ao lado de Canadá, Catar e Suíça. Taticamente, a lousa de Barbarez costuma oscilar entre o 4-4-2 e o 3-5-2. Essa variação acontece muito em função do comportamento dos alas, com Amar Dedić dando extrema profundidade pela direita e Amar Memić atacando pela esquerda, enquanto Sead Kolašinac se junta aos zagueiros para dar sustentação atrás. Independentemente do desenho, a Bósnia se sente completamente confortável em presentear o adversário com a iniciativa do jogo. A estratégia principal é fechar as linhas em um bloco baixo, bem perto da própria área, para diminuir os espaços do rival e acionar contragolpes rápidos assim que a bola é recuperada em campo próprio.
A engrenagem ofensiva bósnia não depende de uma elaboração lenta ou de trocas excessivas de passes no meio-campo, mas sim de um dogma absoluto: o jogo direto pelos lados e os cruzamentos na área. Toda a dinâmica do time é desenhada para abastecer o seu capitão e referência máxima, Edin Džeko. O veterano centroavante continua demonstrando uma capacidade única de transformar bolas difíceis em gols limpos ou em escoradas inteligentes. Essas segundas jogadas são o combustível ideal para a chegada dos homens de trás, como Ermedin Demirović, um atacante de muita mobilidade que flutua pelos lados abrindo espaços, e Esmir Bajraktarević, o jovem ponta do PSV Eindhoven que, aos 21 anos, desponta como uma das mentes mais criativas e ousadas do elenco, sendo capaz de desequilibrar no mano a mano tanto por dentro quanto por fora.
Além das transições verticais, a grande arma secreta da Bósnia é a bola parada. Com uma estatura média impressionante de 1,88m, impulsionada por defensores como Nikola Katić, qualquer escanteio, falta na intermediária ou até mesmo arremesso lateral longo vira uma oportunidade real de gol. O pragmatismo de Barbarez conseguiu convencer o grupo de que o sacrifício e a intensidade defensiva são inegociáveis, gerando um modelo de jogo sólido que independe das peças que entram em campo. Minimizar erros e evitar faltas perto da área será o grande desafio dos adversários que quiserem conter essa equipe inquietante. Embalada pela inércia competitiva de uma repescagem épica, a Bósnia entra em 2026 pronta para castigar qualquer um que se atreva a subestimar a sua capacidade de resistir.
Grupo C: Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti.
Brasil
A seleção brasileira chega à Copa do Mundo cercada por dúvidas, mudanças e desafios. Depois de um ciclo turbulento, marcado por trocas de treinadores, atuações irregulares e resultados abaixo do esperado, Carlo Ancelotti assumiu a missão de reconstruir a equipe praticamente a um ano do torneio. O cenário, que já era delicado, ficou ainda mais complicado por causa das lesões importantes sofridas ao longo do caminho, especialmente as de Militão, Estevão, Vanderson e Rodrygo.
Mesmo com a enorme quantidade de talentos disponíveis, o Brasil passou a demonstrar menos profundidade de elenco do que parecia ter inicialmente. Isso afeta diretamente a montagem do time titular e a maneira como Ancelotti organiza a equipe em campo. O Brasil atua prioritariamente em um 4-4-2 ou 4-2-3-1 que preza pelo preenchimento racional dos espaços. Na fase de construção, a equipe utiliza uma saída de três (com um dos laterais ou um volante recuando), dando liberdade para que os pontas (como Vinicius Junior e Raphinha) espetem as defesas adversárias em amplitude máxima.
Casemiro e Bruno Guimarães formam a dupla de volantes que virou a base do meio-campo de Ancelotti. Casemiro reapareceu como peça central do sistema, enquanto Bruno Guimarães atua ao seu lado com liberdade para participar da construção. Ainda assim, outras alternativas surgem no horizonte, como Danilo e Paquetá, dependendo das necessidades de cada jogo.A principal peça ofensiva do time é Vinícius Júnior. Com Ancelotti, tanto no Real Madrid quanto na seleção, ele deixou de ter tantas obrigações defensivas pelos lados do campo e passou a atuar mais próximo do gol, quase como um segundo atacante. Sem a bola, Vinícius compõe a dupla da frente; com a posse, ganha liberdade para atacar os espaços, cair pelos lados e explorar transições rápidas — exatamente onde se sente mais confortável.Essa mudança também altera a dinâmica dos companheiros ao redor dele. Matheus Cunha, por exemplo, funciona menos como um centroavante tradicional e mais como um articulador ofensivo, aproximando-se do meio-campo para criar jogadas. Rodrygo, quando estava disponível, fazia um papel híbrido pela esquerda, ajudando na recomposição defensiva e participando da armação por dentro. Já Estevão oferecia profundidade e desequilíbrio pelo lado direito, sendo um dos destaques da era Ancelotti antes da lesão.
Com as ausências de Rodrygo e Estevão, o Brasil precisou repensar seus lados do campo. Raphinha passou a ser uma peça ainda mais importante. No Barcelona, ele evoluiu muito como atacante de infiltração, atacando espaços nas costas da defesa com intensidade constante. Na seleção, porém, talvez precise desempenhar um papel mais criativo e associativo, especialmente se atuar pela direita. Isso pode reduzir justamente aquilo que o tornou tão decisivo nos últimos anos.
Martinelli aparece como alternativa pelo lado esquerdo, mas oferece características diferentes das de Rodrygo. Ele é mais vertical e agressivo, menos organizador. Outra possibilidade é Luiz Henrique ganhar espaço como titular ou virar uma arma importante para o segundo tempo.
Também existe a opção de mudar a estrutura ofensiva utilizando um centroavante de referência. João Pedro tem sido o principal nome nessa função durante o ciclo, enquanto Endrick surge mais como um segundo atacante móvel do que como um camisa 9 tradicional. Além deles, Ancelotti parece querer levar ao menos um atacante mais físico e de área para compor o elenco, algo que abre espaço para nomes como Igor Thiago, Richarlison ou Pedro.
Na defesa, as lesões também mudaram bastante o cenário. Militão havia praticamente consolidado a lateral direita como sua posição na seleção, oferecendo mais segurança defensiva e equilíbrio ao sistema. Sem ele, Wesley desponta como favorito para assumir a vaga, embora isso altere o comportamento do time, já que Wesley é muito mais ofensivo e agressivo no apoio. Outra alternativa seria improvisar um zagueiro pelo setor, como Ibañez, em jogos que exijam maior proteção defensiva.A imprevisibilidade no terço final e a forte sustentação do meio-campo são as principais virtudes da equipe. A presença de meias dinâmicos e criativos permite ao Brasil alternar entre o jogo de posse paciente e transições ofensivas verticais avassaladoras. Contudo, há uma clara dificuldade de adaptação à forte marcação por encaixe. Quando enfrenta blocos baixos muito agressivos fisicamente, a Seleção por vezes reduz o ritmo de circulação da bola, tornando-se previsível.
No cenário atual, o Brasil não chega à Copa do Mundo como principal favorito. Ainda assim, continua sendo uma seleção fortíssima pelo talento individual que possui e pelo peso de ter um dos maiores treinadores da história recente do futebol no comando. Mesmo com pouco tempo de trabalho, Ancelotti tenta construir uma equipe mais equilibrada, competitiva e adaptável.
Marrocos
O fator surpresa definitivamente acabou para a seleção de Marrocos. A campanha histórica no Catar em 2022, marcada por uma aula de consistência e organização defensiva, rendeu ao país o merecido reconhecimento como a grande surpresa daquele torneio. Agora, após o mundo acompanhar de perto o futebol marroquino em diversos compromissos, a equipe já é amplamente conhecida. O objetivo atual está claro: transformar a antiga postura ultra-defensiva em um modelo competitivo e muito mais criativo. Essa transição ganha força não apenas com a saída do técnico Regragui e a chegada de uma nova comissão técnica, mas com o foco em corrigir as carências ofensivas apresentadas em 2022. Mesmo priorizando o espírito coletivo, a cobrança sobre o elenco será consideravelmente maior em 2026, ainda que os marroquinos entrem no torneio vistos como a principal força do continente africano.
Analisar a transformação tática dos “Leões do Atlas” exige um olhar atento sobre os nomes que conferem tanta qualidade a este elenco. O cenário agora é ditado pelas altas expectativas, uma vez que o grupo carrega o simbolismo de ter sido a primeira seleção da África a alcançar uma semifinal de Copa do Mundo. Essa conquista mudou o patamar psicológico do vestiário e colocou os holofotes sobre um time do qual o planeta futebolístico agora cobra resultados reais.O respeito dos adversários é outra certeza. Contudo, o elenco vive o dilema do amadurecimento: os principais talentos continuam jovens, exigindo paciência no desenvolvimento de um jogo mais associativo. A grande dúvida é se o ganho técnico individual não vai acabar enfraquecendo a dedicação defensiva que tornou o time quase intransponível na última Copa. A missão de equilibrar esses fatores e conduzir Marrocos no Mundial da América do Norte cabe a Mohamed Wagby. O treinador terá pela frente uma fase de grupos complexa, com Brasil e Escócia surgindo como as principais barreiras. Para avançar direto ao mata-mata em uma das duas primeiras posições, será preciso superar um desses gigantes, mantendo a atenção diante do Haiti, que corre por fora apostando na velocidade e na resiliência.Nos planos da comissão técnica de Mohamed Wagby, o esquema base desenhado é o 4-3-3. Trata-se, no entanto, de uma plataforma altamente maleável, capaz de se desenhar como um 4-2-3-1 quando Ounahi recua para dar suporte na marcação e Saibari assume a função centralizada ou se desloca pelo lado esquerdo. No momento de propor o jogo, a estrutura avança para uma espécie de 4-1, oferecendo liberdade para os atletas flutuarem nos espaços vazios, tendo El Aynaoui como o grande articulador e porto seguro no círculo central.A mobilidade do time supera a rigidez das posições. Se com a bola a variação caminha entre o 4-3-3 e o 4-1, o comportamento defensivo se consolida em um rígido 4-4-2. A meta principal é congestionar a faixa central do campo, induzindo o oponente a buscar os corredores laterais. É justamente nessas zonas que Marrocos planeja efetuar desarmes rápidos para acionar contragolpes fulminantes. Quando a posse é recuperada por El Aynaoui ou Ounahi, a bola é projetada imediatamente para explorar a velocidade de Abde Ezzalzouli ou os apoios profundos do lateral Achraf Hakimi, enquanto Brahim Díaz e Saibari infiltram-se pelas faixas intermediárias.
Com essa mecânica, o plano defensivo deixa de ser uma pressão alta desgastante para se tornar um encaixe posicional coordenado, com blocos compactos que fecham as linhas de passe por dentro e empurram o rival para os lados. No momento da transição ofensiva, o desenho é letal. Assim que retoma a bola, Brahim Díaz conduz pelo meio para arquitetar a jogada, amparado pela infiltração de Saibari vindo de trás. Paralelamente, Hakimi e Abde dão amplitude máxima ao campo, abrindo a marcação adversária e permitindo que Ounahi e El Aynaoui deem sustentação à jogada. Com o apoio ofensivo constante do lateral Mazraoui, Marrocos frequentemente ataca com até seis peças na área de finalização, distanciando-se do rótulo de equipe exclusivamente defensiva.
Diferente do ciclo anterior, onde o sucesso dependia da dupla de volantes liderada por Amrabat, o momento atual favorece o uso de um único homem de contenção atrás de dois meio-campistas de perfil criativo. Nessa engrenagem, El Aynaoui funciona como a peça fundamental, destacando-se pela capacidade de desarmar e iniciar a transição com rapidez, oferecendo passe limpo na saída de bola e recuando entre os zagueiros quando a dinâmica exige. Esse suporte dá total liberdade para que o trio formado por Brahim, Ounahi e Saibari apareça na intermediária em condições de arrematar de fora da área, aproveitando os espaços gerados pelos pontas.
No terço final, a presença de Brahim Díaz dita o ritmo. Longe de ser um armador estático, o jogador alia uma excelente leitura de jogo a uma grande capacidade de atacar a profundidade e aparecer como elemento de definição na grande área, gerando dúvidas constantes nos defensores adversários. Coletivamente, Marrocos ganhou repertório e velocidade nas tabelas curtas. Conseguindo aliar essa evolução criativa à dedicação defensiva no momento de recompor em duas linhas de quatro, os marroquinos têm plenas condições de encarar qualquer potência do futebol mundial de igual para igual.
No aspecto individual, Achraf Hakimi segue como a grande válvula de escape pela direita, atuando praticamente como um atacante pelo corredor externo, além de exercer o papel de liderança e assumir a responsabilidade pelas cobranças de faltas, escanteios e penalidades. No setor de criação, Brahim Díaz traz o refino técnico em palmos de terreno que faltava ao time no Catar.
No gol, Yassine Bounou permanece como o pilar de segurança, sendo um goleiro decisivo e amplamente conhecido pelo retrospecto positivo em cobranças de pênalti. Na referência do ataque, Ayoub El Kaabi oferece alternativas distintas em relação a En-Nesyri: demonstra facilidade para jogar de costas para o gol, entrega intensidade física contra os zagueiros, retém a bola na transição e vive grande fase como artilheiro no jogo aéreo. Contando ainda com boas opções no banco de reservas, como El Khannouss, Rahimi e Targhalline, Marrocos consolida seu amadurecimento para o ciclo de 2026.
Escócia
A Escócia deixou de ser o “patinho feio”. A verdade é que se trata de uma seleção muito bem montada e, para além da raça e do empenho físico, os comandados de Steve Clarke têm muito a dizer. Este é o retorno deles a uma Copa do Mundo após 28 anos de ausência, sendo a última em 1998. O trunfo dessa equipe está na otimização tática dos seus atletas e, acima de tudo, no plano que Clarke tem na cabeça, tendo Scott McTominay como peça principal. Sem dúvida, esse encaixe pode ser o búnker que precisavam para competir com qualquer rival. É o fim do complexo de inferioridade de uma nação que, desde os primórdios do futebol, sempre lutou para revolucionar o jogo.A assinatura de Steve Clarke extirpou o fatalismo de dentro da seleção escocesa. Ele construiu um bloco onde o talento se acumula principalmente no corredor central. A linha de meio-campo é muito boa, e o modelo tático muda bastante dependendo do adversário, mas a ideia base é bem pragmática, sem grandes ornamentos ou fogos de artifício. Eles querem obrigar o rival a se cansar e se entediar com a bola, para então castigá-lo assim que a primeira linha de pressão for superada. É um time que se consolidou nas Eurocopas de 2021 e 2024 e que chega ao Mundial de 2026 com um projeto mais maduro, hiperespecializado e com automatismos muito claros e memorizados. Esta Escócia não vai ao Mundial a passeio e muito menos para fazer turismo; eles vêm para competir com a faca entre os dentes, provando que esta geração pode apostar em si mesma.O ecossistema de meio-campistas versáteis que Steve Clarke tem à disposição atualmente é fascinante, pois todas as figuras possuem funções complementares. O treinador desenhou um sistema simétrico para equilibrar o peso físico nas alas e manter a solidez por dentro, tornando a seleção rocosa e muito perigosa ao avançar para o campo contrário. Ainda assim, a Escócia não terá vida fácil. Eles estão em um grupo que conta com o Brasil, pentacampeão, e Marrocos, a grande revelação do Mundial de 2022. No entanto, o confronto contra o Haiti faz a Escócia sonhar com a classificação para o mata-mata. O time tem chances reais, pois não está tão distante de um Marrocos que gera dúvidas em alguns momentos, principalmente porque hoje em dia já é uma seleção muito mais mapeada pelos adversários.
O time é montado em um 4-2-3-1, uma estrutura lógica considerando os jogadores da convocação. Esse sistema preza pela busca de linhas compactas e automatismos por meio de um meio-campo forte que domine os setores centrais, contando com uma linha de apoio bem longa na ala esquerda e outra mais contida na direita, abrindo espaço para jogadores como John McGinn trabalharem tanto por dentro quanto por fora.Por outro lado, o sistema pode variar para uma linha de três defensores, desenhando um 3-4-2-1 ou 3-5-2. Nessa variação, Kieran Tierney atua como zagueiro pela esquerda, Ryan Porteous ou Jack Hendry compõem o miolo, e Aaron Hickey fecha o lado direito.
Na frente, Che Adams oferece mais mobilidade para fazer o complemento a Lyndon Dykes. A grande vantagem dessa estrutura com três zagueiros é permitir a projeção ofensiva constante de Andy Robertson pela ala esquerda. Quando Robertson avança, Tierney fica encarregado de cobrir o setor como um lateral tradicional. Esse desenho projeta praticamente quatro jogadores na primeira linha de ataque e cria uma segunda linha extremamente perigosa com McTominay infiltrando-se na área.Embora a equipe não busque a posse de bola e prefira cedê-la ao adversário, a prioridade absoluta é a ordem e a disciplina. A leitura defensiva pelo meio é ditada por Billy Gilmour no papel de pivô, contando com o suporte de operários incansáveis como McTominay e McGinn. Quando recuperam a bola, a transição é direta e veloz. O objetivo é acionar os alas para que façam cruzamentos perigosos na área. Caso Dykes ou Che Adams não finalizem diretamente, a presença de McTominay e McGinn chegando de trás transforma a segunda linha na principal fonte de gols da equipe, compensando a ausência de um centroavante de elite mundial.Os Pilares da Tartan ArmyA imposição física e a intensidade são características não negociáveis para os escoceses, que mantêm um ritmo de jogo altíssimo e aplicam uma pressão alta nos momentos oportunos. O poderio aéreo e as jogadas de bola parada são soluções vitais, contando com ótimos rematadores como John Souttar, Grant Hanley ou Scott McKenna na área.
Para fazer tudo isso funcionar, a figura central é Scott McTominay, o motor e o líder indiscutível desta seleção. Ele tem uma capacidade letal para romper linhas em condução e invadir a área a partir do meio-campo, funcionando como um atacante a mais na frente e um defensor incansável na recomposição. Na ala esquerda, Andy Robertson domina todo o corredor. O capitão da seleção traz a experiência do mais alto nível do futebol mundial, oferece passes precisos e cruzamentos que valem ouro, sendo a principal rota de saída ofensiva do time. Por fim, John McGinn representa perfeitamente a identidade desta Escócia.
Enquanto McTominay quebra as linhas adversárias na base da potência física, McGinn faz isso com refinamento técnico, qualidade e visão de jogo. Ele atua como um meia-atacante que cai muito bem pelos lados, entrega um sacrifício absurdo na marcação e possui um faro de gol apurado que ajuda muito o coletivo.O trabalho de Steve Clarke deu estabilidade ao projeto e transformou a Escócia em um time de autor, deixando para trás a ingenuidade de outros tempos. Trata-se de uma seleção áspera, sincronizada e extremamente incômoda de se enfrentar, muito acostumada ao pragmatismo necessário para torneios curtos de máxima pressão. Resta ver se a força dessa segunda linha será o suficiente para quebrar o tabu histórico e fazer a Escócia avançar de fase pela primeira vez em uma Copa do Mundo.
Haiti
O Haiti protagonizou um dos retornos mais improváveis, românticos e surpreendentes da Copa do Mundo de 2026, senão o mais marcante de todos. A equipe chega ao torneio carregando o simpático apelido de "Cinderela caribenha". Embora tenha se beneficiado, em certa medida, do momento de instabilidade vivido pela CONCACAF durante as eliminatórias, os "Granadeiros" souberam aproveitar principalmente a força de sua diáspora. Com diversos atletas atuando na França e nos Estados Unidos, o país conseguiu formar um elenco fisicamente imponente e bastante interessante. Ainda assim, a caminhada promete ser árdua, sobretudo por conta da chave em que foi sorteado.
O grupo foi estruturado para alimentar o sonho de retornar a uma Copa do Mundo após uma espera de 52 anos. A última participação haitiana aconteceu na Alemanha Ocidental, em 1974. Trata-se de uma seleção repleta de contrastes: organizada e pragmática sem a bola, mas sempre disposta a acelerar o jogo e explorar a velocidade de seus atacantes. Uma observação mais atenta da proposta tática ajuda a compreender as características desta convocação, que também reúne trajetórias pessoais bastante inspiradoras.
Antes de tudo, o Haiti vive uma oportunidade histórica. A ampliação do Mundial para 48 participantes abriu espaço para seleções que antes encontravam maiores obstáculos para se classificar. Esse cenário foi favorecido pelas vagas automáticas destinadas a Estados Unidos, México e Canadá, anfitriões da competição. A classificação para 2026 representa um alívio e uma celebração após mais de cinco décadas longe do principal palco do futebol mundial. O investimento no chamado "laboratório da dupla nacionalidade" produziu excelentes resultados ao incorporar jogadores da MLS e das duas principais divisões francesas. Dessa forma, a seleção conseguiu agregar atletas com formação europeia, capazes de contribuir tanto defensivamente quanto ofensivamente.
O resultado desse processo é uma equipe de perfil híbrido e bastante peculiar. O Haiti apresenta disciplina tática sem a bola, e o trabalho de Sébastien Migné merece reconhecimento pela forma como elevou o nível competitivo do conjunto. O elenco possui características ideais para realizar transições rápidas, combinando força física e organização defensiva com ataques velozes. Ao se fechar bem e reduzir os espaços, a equipe cria condições para contra-atacar com intensidade, principalmente porque costuma abrir mão da posse de bola. No meio-campo, entretanto, falta criatividade. Não por acaso, a maioria dos jogadores convocados para o setor apresenta perfil predominantemente defensivo.
O principal obstáculo estará no grupo da Copa, considerado extremamente complicado. Brasil, Marrocos e Escócia aparecem como favoritos à classificação e, em tese, possuem condições de alcançar a fase eliminatória. Diante desse cenário, o Haiti surge como o azarão da chave, especialmente pela superioridade técnica de seus adversários.
Sob a ótica exclusivamente tática, a seleção utiliza sistemas relativamente simples, capazes de se transformar com poucos ajustes posicionais. O esquema-base é o 4-2-3-1, que pode ser convertido rapidamente em um 4-4-2 durante a fase defensiva ou em um 4-3-3 quando a equipe ataca, permitindo uma reorganização eficiente das linhas.
Entretanto, a vocação para acelerar as jogadas e atacar com muitos jogadores faz com que o time, por vezes, fique excessivamente espaçado. Quando o quarteto ofensivo avança de maneira muito agressiva, o setor intermediário tende a ficar desguarnecido, aumentando a distância entre defesa e ataque. Por essa razão, a eficiência ofensiva torna-se essencial. Quanto melhor o aproveitamento das oportunidades criadas, menor a probabilidade de sofrer contra-ataques perigosos decorrentes da própria desorganização.
A primeira impressão é que o Haiti terá dificuldades para evitar a concessão de espaços diante de adversários mais qualificados. O ponto de sustentação da equipe está na compactação defensiva. A proposta prioriza um bloco médio-baixo, estreitando os setores centrais do campo para impedir infiltrações e induzir os rivais a utilizarem as laterais. A ideia lembra, em alguns aspectos, o modelo adotado por Marrocos: direcionar o adversário para os cruzamentos e confiar na superioridade física para vencer os duelos aéreos antes de iniciar os contra-ataques.
A posse de bola não é prioridade. O jogo haitiano gira em torno da velocidade dos pontas e da referência central no ataque. Wilson Isidor oferece profundidade e aceleração, enquanto Olivier Ntcham — ou Jean-Ricner Bellegarde — acrescenta maior refinamento técnico sem perder capacidade de transição. A utilização dos corredores laterais por Casimir e Danley Jean Jacques representa uma das principais armas ofensivas da equipe. Quando essa alternativa não funciona, entram em cena jogadores como Bellegarde ou Pierre, que aparecem mais como elementos de apoio e podem contribuir em momentos de necessidade ofensiva. A grande incógnita está em saber se Bellegarde conseguirá assumir com protagonismo a função criativa e se Isidor vencerá os confrontos individuais diante dos goleiros adversários.
O Haiti é uma equipe extremamente competitiva, que se destaca pela intensidade física e pela dedicação sem a bola. Não costuma realizar pressão alta constante, justamente para evitar o desgaste excessivo e a quebra da estrutura coletiva. Em vez disso, prefere aguardar o adversário em seu próprio campo, normalmente organizado em um 4-4-2. A ideia é recuperar a posse em espaços reduzidos e acionar rapidamente os extremos nas costas da defesa rival, buscando servir Isidor dentro da área. Trata-se de um futebol direto, vertical e frequentemente apoiado em bolas longas e jogadas de bola parada.
Entre os nomes mais importantes da equipe está Dukens Nazon, maior artilheiro da história da seleção haitiana, com 44 gols. Ele é a principal referência ofensiva do time, destacando-se pela força física, velocidade e capacidade de finalização, características que se encaixam perfeitamente na proposta de Migné. Ao seu lado, Wilson Isidor acrescenta mobilidade e profundidade. Jovem, veloz e eficiente diante do gol, ele também pode atuar pelos lados do campo, tornando-se peça fundamental para os contra-ataques.
No setor defensivo, Ricardo Adé merece atenção não apenas por suas qualidades em campo — liderança, força física, domínio aéreo e segurança defensiva —, mas também por sua trajetória de superação. Em busca de uma oportunidade no futebol tailandês, ele vendeu tudo o que possuía e assumiu grandes riscos financeiros. Após ser vítima de um golpe, chegou a viver nas ruas durante um período. Seu primeiro contrato profissional só foi assinado aos 26 anos. Hoje, ele disputa uma Copa do Mundo, tornando-se símbolo da resiliência que caracteriza esta seleção. Outro nome importante é o goleiro Johnny Placide, de 38 anos, capitão e principal liderança emocional do elenco.
Embora seja considerada uma das equipes mais frágeis do torneio e encontre inúmeros obstáculos para avançar de fase, o Haiti pode se tornar perigoso caso seus adversários atuem com excesso de confiança. Se houver impaciência ou subestimação do outro lado, a velocidade de Casimir, Jean Jacques e Isidor, combinada ao instinto goleador de Nazon, pode causar surpresas. Afinal, poucos imaginavam que Marrocos alcançaria as semifinais em 2022. Aquela campanha também se apoiou em um modelo reativo, ainda que sustentado por uma qualidade técnica superior. Resta saber se a organização defensiva e o plano de jogo de Sébastien Migné serão suficientes para conduzir o Haiti além das expectativas. A resposta virá dentro de campo.
Grupo D: Estados Unidos, Paraguai, Turquia e Austrália.
Estados Unidos
Como um dos anfitriões principais, os EUA chegam ao torneio sob imensa expectativa. A contratação do renomado técnico argentino Mauricio Pochettino injetou uma mentalidade de elite europeia em uma geração que atua no mais alto nível (liderada por Christian Pulisic). Pochettino implementou seu tradicional DNA de pressionar alto e recuperar a bola o mais rápido possível. A equipe costuma se desenhar em um 4-2-3-1 ou 4-3-3 muito dinâmico, onde os laterais (como Antonee Robinson) têm obrigações ofensivas claras para gerar superioridade numérica e cruzamentos na área.
32 anos após a Copa de 94, o torneio retorna aos Estados Unidos para testar o amadurecimento de uma equipe que não é mais formada por universitários ou atletas exclusivos da MLS; hoje, a base desse elenco lidera e compete no futebol europeu. Mais do que a capacidade atlética, o plano de Pochettino é sufocar o rival com intensidade, criatividade e transições rápidas de poucos passes.
O treinador argentino, calejado no futebol europeu, enfrenta um de seus maiores desafios: transformar um grupo de individualidades interessantes em um coletivo capaz de competir de igual para igual contra as principais potências do planeta. O time foi desenhado para tentar propor o jogo com a bola e pressionar alto na marcação. Eventualmente, o esquema pode variar para uma linha de três defensores, desenhando um 3-4-2-1 ou 3-4-3 com a entrada de Mark McKenzie para se juntar a Tim Ream e Chris Richards na zaga, utilizando Sergiño Dest e Antonee Robinson como alas bem projetados. Contudo, a formação mais interessante e provável tem Ream e Richards solidificados na zaga central, ladeados por Dest e Robinson nas laterais.
No gol, há uma disputa sadia entre Matt Freese e Matt Turner, com favoritismo recente para Freese assumir a titularidade. No duplo pivô do meio-campo, a dupla formada por Weston McKennie e Tyler Adams é indiscutível; eles dão sustentação ao bloco para evitar que o time se parta, mantendo a intensidade nas disputas e acionando os contragolpes. Na linha de três meias, Christian Pulisic assume uma das pontas, Timothy Weah ocupa o lado direito e, centralizado, Malik Tillman desponta como opção no lugar de Giovanni Reyna ou Brenden Aaronson, agregando maior capacidade de recomposição defensiva e pressão alta. No comando do ataque, Folarin Balogun estabeleceu-se como a referência titular absoluta, à frente de Ricardo Pepi e Haji Wright.A grande marca desse modelo é a pressão agressiva em momentos estratégicos do jogo. Quando as linhas avançam, os laterais Dest e Robinson ganham o corredor e dão amplitude máxima ao campo. Isso permite que os pontas Pulisic e Weah centralizem suas posições, juntando-se a Tillman e Balogun para formar um losango ofensivo por dentro. O objetivo não é uma circulação lenta e paciente, mas sim explorar os lançamentos em profundidade dos laterais nas costas da defesa adversária. Paralelamente, os volantes dão suporte: enquanto Tyler Adams foca na contenção, McKennie infiltra-se na área como um elemento surpresa na segunda linha, aproveitando as jogadas de rebote para ameaçar no jogo aéreo ou com chutes de média distância.
O calcanhar de Aquiles dos Estados Unidos reside no momento da perda da bola. Embora o quarteto ofensivo pressione muito bem no campo de ataque, a equipe sofre bastante para realizar a transição defensiva em bloco baixo quando o adversário consegue quebrar essa primeira linha de combate. Caso o rival consiga propor o jogo e empurrar os norte-americanos para o campo de defesa, o time encontra sérias dificuldades de encaixe posicional. Diante de seleções tecnicamente potentes, esse atraso no tempo de recomposição pode cobrar um preço muito alto.
Para mitigar esse problema, o rendimento individual de peças específicas é fundamental. O líder incontestável e diferencial técnico do time é Christian Pulisic; ele é a principal ameaça criativa, flutuando com imprevisibilidade tanto pelas pontas quanto pelo meio, aliando drible, capacidade associativa e um faro de gol destacado. No meio-campo, Tyler Adams funciona como a verdadeira âncora e o coração do time, destacando-se na recuperação de bolas e interceptações de passes para proteger a linha de defesa. Ao seu lado, Weston McKennie oferece um fôlego incansável, cobrindo os espaços deixados pelos laterais e recuando entre os zagueiros quando a dinâmica exige. Por fim, na frente, Folarin Balogun traz a mobilidade de um atacante moderno que se movimenta em direção ao gol, rompendo em velocidade nas costas dos zagueiros e abrindo espaços vitais para as infiltrações de Pulisic e Weah.
O período de promessas ficou para trás. Os Estados Unidos chegam ao seu próprio Mundial após completarem um longo processo de profissionalização e intercâmbio europeu que eleva o nível de exigência ao patamar máximo. O elenco possui o vigor físico e o ritmo de grandes clubes europeus, além de uma comissão técnica experiente. Jogando diante de sua torcida, a meta realista desenhada nos bastidores é alcançar, no mínimo, a fase de quartas de final, deixando claro que a mentalidade da equipe mudou e eles não entrarão em campo apenas para competir dignamente.
Paraguai
O Paraguai chega para a Copa do Mundo de 2026 como uma verdadeira demonstração de pragmatismo no futebol moderno. Em uma era marcada por posse de bola excessiva e construções elaboradas, a seleção paraguaia aposta em um estilo completamente diferente: jogo físico, organização defensiva e competitividade extrema. Mesmo sem apresentar um futebol vistoso, a equipe consegue convencer de que também é possível competir em alto nível dessa maneira.
A equipe comandada por Gustavo Alfaro se transformou em um adversário extremamente desconfortável. Dentro de um grupo equilibrado, o Paraguai deve disputar diretamente com a Austrália uma vaga na próxima fase, enquanto Turquia e Estados Unidos aparecem como favoritos. Ainda assim, a força competitiva paraguaia faz com que ninguém possa subestimá-los.
A principal característica desta seleção é justamente sua fidelidade à própria identidade. O Paraguai não tenta ser algo que não é. Alfaro entendeu rapidamente quais eram as virtudes e limitações do elenco e construiu um modelo de jogo totalmente baseado nisso. Depois de 16 anos fora das Copas do Mundo, a classificação para 2026 já representa um enorme sucesso para o país.
Quando Gustavo Alfaro assumiu a seleção, encontrou um time abatido emocionalmente e com dificuldades nas eliminatórias. Aos poucos, conseguiu transformar aquele cenário em uma equipe organizada, competitiva e extremamente disciplinada. O treinador apostou no pragmatismo como caminho para recolocar o Paraguai em um Mundial, e até aqui a estratégia funcionou perfeitamente.
O aspecto mais curioso do Paraguai talvez seja a maneira como controla os jogos sem precisar dominar a posse de bola. Diferente de outras seleções reativas, que apenas se defendem e atacam em velocidade, o Paraguai procura controlar emocionalmente a partida mesmo sem a bola. A ideia é transformar o confronto em algo tenso, físico e desconfortável para o adversário.
Mesmo registrando baixos índices de posse, a equipe é uma das que mais recupera bolas no campo ofensivo entre as seleções sul-americanas. Isso mostra que a defesa não é apenas uma necessidade, mas uma estratégia ativa dentro do modelo de jogo.
Taticamente, a base costuma ser um 4-4-2 bastante compacto. A defesa normalmente conta com Gustavo Gómez e Alderete como dupla de zaga, enquanto os laterais têm funções mais conservadoras e defensivas. O objetivo principal é fechar espaços internos e obrigar o rival a jogar pelos lados do campo.
Essa estratégia faz sentido para um time tão forte fisicamente. O Paraguai aceita cruzamentos e disputas aéreas porque confia muito na capacidade de seus defensores de vencer esses duelos. Quando recupera a bola, inicia rapidamente os contra-ataques aproveitando a velocidade de seus jogadores ofensivos.
No meio-campo, Bobadilla e Ojeda costumam dar equilíbrio, enquanto Diego Gómez e Miguel Almirón oferecem intensidade, movimentação e apoio defensivo pelos lados. Já Julio Enciso aparece como a peça mais imprevisível do sistema.
Enciso é um jogador extremamente versátil. Pode atuar como segundo atacante, meia central ou aberto pelos lados. Sua mobilidade permite ao Paraguai alterar a estrutura tática durante o jogo, transformando o 4-4-2 em um 4-2-3-1 ou até em formações mais ofensivas dependendo da situação.
Tony Sanabria geralmente atua como referência no ataque, embora outros nomes também possam disputar espaço. Sua função é aproveitar as jogadas de transição e finalizar as construções ofensivas da equipe.
Uma das grandes forças do Paraguai está justamente nas transições rápidas. O time costuma defender em bloco baixo e compacto, esperando o momento certo para acelerar. Quando recupera a bola, procura atacar em velocidade, muitas vezes através de conduções individuais e não apenas de lançamentos longos.
Almirón, Enciso e Diego Gómez são fundamentais nesse processo. Todos possuem velocidade, capacidade de drible e boa leitura para atacar espaços. Além disso, o Paraguai sempre procura colocar vários jogadores próximos da área adversária durante os contra-ataques, aumentando as opções de finalização.
Outra arma importantíssima é o jogo aéreo. Historicamente, o Paraguai sempre foi forte nesse aspecto, e essa característica continua presente. Gustavo Gómez, Alderete e Sanabria oferecem muito perigo nas bolas paradas ofensivas, tanto em escanteios quanto em faltas laterais.
Defensivamente, o time também demonstra enorme solidez. A equipe se organiza em linhas muito compactas e exerce pressão agressiva em momentos específicos da partida. Não é um time que pressiona alto o tempo todo, mas sabe exatamente quando acelerar a marcação para provocar erros do adversário. Nesse contexto, Enciso, Almirón e Diego Gómez desempenham funções importantes sem a bola, enquanto Bobadilla e Ojeda ajudam a sustentar o equilíbrio do meio-campo.
Entre os principais destaques individuais, Miguel Almirón continua sendo uma das figuras mais importantes da seleção. Experiente e muito veloz, ele é o principal motor dos contra-ataques paraguaios. Sua capacidade de conduzir a bola em velocidade, atacar espaços e criar desequilíbrios torna o time muito perigoso em transições.
Julio Enciso aparece como o jogador mais talentoso e imprevisível da equipe. Mesmo jovem, demonstra personalidade, coragem no um contra um e muita qualidade técnica em espaços reduzidos. Além disso, possui ótimo chute de média distância e qualidade em bolas paradas. Caso chegue em grande forma, pode ser uma das revelações do torneio. Diego Gómez também merece destaque pela inteligência tática, visão de jogo e capacidade técnica. É um jogador que ajuda tanto na construção quanto na aceleração das jogadas ofensivas.
Na defesa, Gustavo Gómez representa a grande liderança da equipe. Forte fisicamente, dominante pelo alto e extremamente seguro nos duelos defensivos, ele é o pilar da retaguarda paraguaia. Sua experiência e capacidade de antecipação dão muita estabilidade para todo o sistema defensivo. O Paraguai de Gustavo Alfaro representa, acima de tudo, a aceitação completa da própria identidade futebolística. Em vez de tentar copiar modelos mais modernos ou ofensivos, a seleção decidiu apostar naquilo que historicamente sempre fez bem: intensidade, disciplina tática, força física e competitividade.
Talvez não seja uma equipe brilhante tecnicamente, mas certamente será uma seleção muito difícil de enfrentar. O grande questionamento é saber se esse pragmatismo defensivo será suficiente para levar o Paraguai à próxima fase da Copa do Mundo. Independentemente disso, a equipe já demonstrou que voltou a ser competitiva no cenário internacional.
Turquia
Tradicionalmente agressivo no ataque, o México tenta controlar a posse no campo do adversário usando um 4-3-3 flexível que se transforma em 3-4-3 na fase de construção. Os laterais sobem muito para dar amplitude. Pela direita, Israel Reyes se estabeleceu com uma função mais defensiva, atuando na base da saída de bola quase como um terceiro zagueiro — tendo Jorge Sánchez como alternativa mais ofensiva. Pela esquerda, Jesús Gallardo é o dono da posição e tem total liberdade para atacar o corredor. No miolo da zaga, o cenário é estável e sem contestação, com a dupla formada por Johan Vásquez e César Montes consolidada após os amistosos de março.
África do Sul
A seleção da África do Sul se apresenta nesta Copa do Mundo de 2026 após um hiato considerável. São 24 anos sem conseguir uma classificação dentro de campo — já que em 2010 a participação veio por direito de país-sede — e 16 anos longe do maior palco do futebol mundial. É um retorno pesado do ponto de vista nostálgico para quem se acostumou com o carisma dos Bafana Bafana.
A Coreia do Sul atual vai muito além da dependência de Heung-min Son. No banco de reservas, há um equilíbrio estratégico promissor: a identificação de um ídolo histórico nacional combinada à visão metodológica e complementar do futebol europeu. O objetivo aqui é analisar os fatores que desenham o panorama dos sul-coreanos para 2026, dissecando o trabalho conjunto entre o técnico principal, Hong Myung-bo, e seu assistente, João Aroso.
Esse modelo de “duplo cérebro” sinaliza o amadurecimento de uma seleção que busca apagar a antiga impressão de ser um time composto por “Son e mais dez”. Após a crise enfrentada na última Copa da Ásia, o país parece decidido a evoluir coletivamente. Nesse cenário, a contratação de João Aroso foi uma jogada de mestre. O profissional, que já havia integrado a comissão de Paulo Bento e possui sólida formação na vanguarda tática portuguesa, agrega novos conceitos a Hong Myung-bo — uma lenda viva local que, curiosamente, está marcado na história do futebol espanhol por converter um dos pênaltis que eliminou a Fúria na Copa de 2002. Agora, em 2026, a meta da dupla é provar que encontrou a fórmula ideal para o elenco.
Existe, contudo, uma dualidade que pode ser perigosa. Por um lado, Hong Myung-bo prefere estruturar a equipe em um bloco médio-baixo, valorizando a troca de passes curta para atrair a pressão adversária e explorar os espaços em velocidade. Por outro, João Aroso — respaldado por anos de experiência como assistente de grandes técnicos e consolidado como peça-chave no futebol coreano — tende a um modelo mais associativo. Ele preconiza a busca pelo “terceiro homem” na saída de bola e automatismos para que os meias infiltrem nas costas da defesa, priorizando o protagonismo ofensivo por meio da posse.
Resta saber se essa mistura funcionará na prática, já que a Coreia do Sul chega ao torneio cercada de incertezas sobre o seu real desempenho. Sorteada no Grupo A ao lado de México, África do Sul e República Tcheca, a seleção deve travar um duelo direto com os tchecos pela segunda vaga rumo aos mata-matas. É um grupo equilibrado e repleto de incógnitas: a África do Sul precisará de um encaixe defensivo perfeito; o México carrega uma cobrança midiática esmagadora; e a República Tcheca provou na repescagem ser um oponente defensivamente duríssimo. Em condições normais, a Coreia poderia ser apontada como favorita da chave, mas o histórico recente de atuações abaixo do esperado liga o sinal de alerta.
Do ponto de vista tático, a assinatura de Hong Myung-bo se apoia em uma notável flexibilidade estrutural, geralmente desenhada no 5-4-1. Esse sistema se caracteriza por um “quadrado” bem definido no meio-campo e pela liberdade concedida a Heung-min Son, além do forte apoio dos alas em amplitude e da liderança defensiva de Kim Min-jae. O zagueiro do Bayern de Munique é o pilar de confiança para ditar o ritmo e qualificar a saída de bola. A formação costuma se moldar conforme o nível do adversário, explorando a capacidade adaptativa do elenco.
No aspecto individual, os meias-atacantes têm total liberdade para flutuar para as pontas. É o caso de Kang-in Lee, jogador extremamente versátil que pode atuar como volante criativo, meia centralizado ou ponta (funções que já exerceu no Valencia e no PSG), destacando-se pela excelente capacidade de associação. O mesmo vale para Jae-sung Lee, encarregado de ocupar a zona de três quartos do campo para aproveitar as segundas bolas geradas pelas jogadas de Son.
Esses automatismos que dão liberdade aos meias nascem da variação tática da equipe. Dependendo do contexto, o 5-4-1 se transforma facilmente em um 3-4-2-1 ao adiantar os alas. Em outras situações, o time pode se posicionar em um 4-4-2, recuando Seol Young-woo para compor uma dobra de laterais com Lee Ki-je — uma das grandes surpresas da convocação —, o que fortalece a compactação em bloco médio-baixo, onde o sacrifício defensivo de todos é inegociável.
A engrenagem começa lá atrás, a partir do goleiro e de Kim Min-jae. A presença do zagueiro do Bayern eleva o patamar da Coreia do Sul: ele domina o início das jogadas, vence duelos físicos e lê perfeitamente os espaços vazios no meio-campo. Essa liderança transmite a segurança necessária para que nomes como Paik Seung-ho e Park Jin-seob funcionem como esteios na base da jogada, projetando os demais meio-campistas ao ataque assim que a bola ultrapassa a primeira linha de pressão.
Apesar dos ensaios de um jogo associativo mais cadenciado por parte de Aroso, a Coreia do Sul se destaca mesmo quando acelera. O time transita da defesa para o ataque em poucos segundos e com raros toques, evitando retenções desnecessárias. Isso ocorre por dois motivos: a falta de características técnicas para um jogo de paciência na maioria do elenco e a eficiência desse estilo direto. Embora Kang-in Lee e Jae-sung Lee tenham qualidade para ditar o ritmo e clarear lances entrelinhas, a equipe prefere não arriscar e aposta na velocidade de alas profundos como Seol e Kim Tae-hwan.
Diante disso, Heung-min Son não joga como um centroavante estático de referência. Ele atua com muita mobilidade, caindo pelos flancos e arrastando a marcação graças à sua inteligência e velocidade de raciocínio. Embora o elenco conte com atacantes de maior presença de área, como Hwang Hee-chan, a comissão técnica prefere a dinâmica móvel de Son para pegar as defesas rivais desprotegidas.
Defensivamente, a Coreia do Sul é paciente. A equipe não se incomoda em ceder a posse de bola e não sofre de ansiedade por passar longos períodos defendendo. O bloco médio-baixo se mantém compacto e com linhas estreitas, oferecendo um ferrolho difícil de ser quebrado pelos oponentes. O plano consiste em fechar espaços, induzir o erro adversário e acionar o contragolpe imediato com seus velocistas, tendo Son como a principal ponta de lança. A pressão pós-perda é intensa, mas executada de forma inteligente no próprio campo, poupando a energia física dos atletas ofensivos para o momento da transição.
Dentre os destaques individuais, vale reforçar o papel de Lee Ki-je. Aos 26 anos e vindo de uma excelente temporada no Gangwon FC, o defensor surpreendeu ao cavar seu espaço na lista após raras aparições anteriores. Sua polivalência para atuar como zagueiro, lateral-esquerdo ou meio-campista oferece a Hong Myung-bo o encaixe perfeito para mudar o esquema tático sem a necessidade de substituições.
No setor de criação, Kang-in Lee surge como o elemento diferenciado. Rápido, habilidoso e dono de uma visão de jogo apurada, ele consegue encontrar linhas de passe em espaços congestionados, sendo o elo indispensável entre o meio-campo e o ataque — uma virtude rara em seleções asiáticas.
Por fim, a liderança técnica e emocional permanece com Heung-min Son. Aos 33 anos e atualmente jogando no futebol norte-americano (MLS), o craque compensa a natural perda de explosão física com posicionamento inteligente, drible curto e um poder de finalização letal. Ele continua sendo o jogador mais decisivo do país.
Em suma, a Coreia do Sul caminha em busca de sua maturidade tática e estrutural, ironicamente no momento em que seu principal astro se aproxima da reta final da carreira. Corrigida a ingenuidade defensiva do passado, o grupo agora conta com alternativas sólidas para além do plano principal. O sucesso nesta Copa do Mundo dependerá de como a equipe vai reagir em um cenário fora da Ásia, onde não é o time a ser batido.
A seleção da Chéquia retorna à Copa do Mundo após um longo hiato de 20 anos, revivendo a lembrança de sua última participação em 2006, quando a equipe repleta de expectativas acabou eliminada ainda na fase de grupos. Embora o país carregue uma história riquíssima no futebol desde os tempos da Tchecoslováquia, a geração atual não se compara tecnicamente ao nível elevado dos anos 2000, que contava com craques como Pavel Nedved, que hoje atua como gerente de futebol da federação. A vaga para o Mundial foi conquistada de forma dramática na repescagem, superando Dinamarca e Irlanda nos pênaltis sob o comando do veterano treinador Miloslav Koubek. Assumindo o cargo em dezembro de 2025, menos de um ano antes da Copa, Koubek herdou uma seleção em crise que havia acabado de perder para as Ilhas Faroé, conseguindo estabilizar o elenco em pouquíssimo tempo de trabalho.
A principal identidade desta equipe checa reside na sua extrema capacidade física, uma característica impulsionada pelo sucesso recente de clubes locais em competições europeias, especialmente o Slavia Praga, que exerce forte influência no número de convocados. O modelo de jogo é baseado no choque, na imposição física e em disputas constantes de jogo aéreo, sustentado por uma média de altura do time titular que fica acima de 1,85m.
Defensivamente, a Chéquia se estrutura em uma linha de cinco defensores sem a bola, optando por atuar em bloco médio ou baixo. O time evita pressionar de forma agressiva no campo de ataque porque sua linha de zaga demonstra desconforto ao defender em campo aberto ou enfrentar situações de velocidade no um contra um, preferindo proteger a própria área de forma compacta.
Na montagem da equipe, o goleiro Kovář assume a titularidade, protegido por um trio de zaga que tem como base Holeš pela direita, Hranáč como central e Krejčí pela esquerda, embora o jovem Chalupek apareça como alternativa para aumentar o vigor aéreo. Pelos lados do campo, o cenário é completamente assimétrico. Enquanto a ala direita é preenchida por Vladimir Coufal, jogador fundamental do Hoffenheim que entrega fôlego para cobrir o corredor e excelente precisão em cruzamentos, o lado esquerdo varia de acordo com o adversário. Para uma postura mais defensiva, atua Zelený, um zagueiro de origem que se comporta de maneira conservadora, enquanto Jurásek surge como opção de maior projeção ofensiva e Sadílek aparece como um meio-campista capaz de se sacrificar pela lateral.
No meio-campo, a grande engrenagem é Tomáš Souček, jogador do West Ham que, apesar de ter perdido a braçadeira de capitão por punição disciplinar do técnico, é peça indispensável pela sua capacidade de cobrir grandes áreas e infiltrar na área adversária para finalizar. Ao seu lado na volância, Červ vinha sendo o titular do ciclo, mas Koubek convenceu o experiente Darida a abdicar da aposentadoria para jogar a repescagem, adicionando maior controle e qualidade na saída de bola. À frente deles, Provod transita entre a armação e a recomposição, enquanto Šulc atua como o principal elemento criativo vindo de fora para dentro, flutuando como um falso ponta para abastecer o centroavante Patrik Schick, a grande referência técnica e esperança de gols do país.
Em termos de dinâmica tática, a Chéquia demonstra versatilidade nas saídas de bola, onde o zagueiro pela direita se posiciona como um lateral tradicional e libera Coufal para atacar como um meia avançado, aproveitando que Šulc e Provod centralizam o jogo. Caso o cenário exija uma postura de abafa total, Koubek costuma mudar o esquema para o 5-3-2 com a entrada de Chorý, um centroavante de quase dois metros de altura, para atuar ao lado de Schick e sobrecarregar a área adversária com cruzamentos. Alternativas como Chytil, que entrega mais mobilidade ao ataque, e Kara, que oferece drible pelo lado direito, completam o leque de opções de um time que pode não esbanjar criatividade técnica, mas promete ser um dos adversários mais duros de se enfrentar no embate físico.
Grupo B: Canadá, Catar, Bósnia e Suíça.
Canadá
O Canadá chega à Copa do Mundo 2026, cercado de expectativas. A equipe se transformou em uma das seleções mais verticais da Concacaf. Sem a preocupação de dominar as partidas através da posse de bola, os canadenses apostam em um futebol extremamente físico que promete trazer muita dor de cabeça aos adversários. Jogando em casa, com sedes em Vancouver e Toronto, o país carrega a enorme responsabilidade de ser um dos anfitriões do evento mundialista, e o ambiente hiperrevolucionado das arquibancadas precisa ser canalizado como combustível para abastecer um estilo de jogo baseado na eletricidade e no ritmo intenso.
O grande catalisador dessa mudança de postura atende pelo nome de Jesse Marsch. O treinador chegou com a missão clara de potencializar as transições rápidas e implementar o conhecido DNA da franquia Red Bull na seleção nacional. Na prática, Marsch erradicou os passes de segurança e a temporização do vocabulário da equipe, transformando cada recepção de bola em um passe para frente ou em uma condução vertical. O plano consiste em atrair o adversário para o seu próprio campo, convidando-o a atacar pelas laterais, para então ativar emboscadas asfixiantes. Ao recuperar a bola na intermediária defensiva, o Canadá não quer criar de forma estática, mas sim castigar as costas da defesa rival em alta velocidade, aproveitando os metros de campo aberto que foram deixados para trás.
Essa proposta exige um desdobramento físico hercúleo e um vaivém constante que testa o limite atlético do elenco. Embora o perfil do grupo seja naturalmente veloz, essa ausência de pausa esconde algumas carências perigosas, especialmente quando o Canadá enfrenta equipes que se fecham em blocos baixos. Em cenários de ataque posicional, o time costuma se mostrar plano e com pouca criatividade. Além disso, a seleção precisa de um volume muito alto de oportunidades para conseguir balançar as redes, sofrendo com a falta de pontaria em momentos decisivos. A repetição exaustiva de esforços na transição defensiva também pode cobrar o seu preço ao longo da competição, deixando dúvidas se as pernas vão aguentar a intensidade exigida até o fim.
Para fazer esse sistema funcionar no complexo Grupo B — onde enfrentarão a competitiva Suíça, a surpreendente Bósnia e Herzegovina e o atual campeão asiático Catar —, Jesse Marsch desenhou uma estrutura que flutua entre o 4-4-2 e o 4-2-2-2. A ideia central é estreitar os homens de frente para ocupar os corredores internos e abrir espaço para a subida dos alas. O grande farol e capitão do time continua sendo Alphonso Davies, o líder natural que dita o teto competitivo do país, seja atuando na lateral, na ponta ou até por dentro, graças ao seu poder de finalização e drible. Embora venha de uma temporada marcada por lesões que geram incertezas sobre sua forma física ideal, todo o desenho coletivo é moldado para favorecer a sua capacidade de romper jogos.
Ao lado de Davies, o atacante Jonathan David assume um papel vital devido à sua movimentação inteligente entre as linhas e à agressividade para atacar os espaços vazios. No miolo do meio-campo, jovens como Nathan Saliba e Ismaël Koné garantem a estabilidade e o balanço necessários, destacando-se pelo poder de desarme e pela clareza para clarear as jogadas logo após a roubada de bola. O Canadá entra em 2026 com uma proposta refrescante, agressiva e muito divertida de assistir, totalmente dependente de sua vitalidade e do fator emocional de jogar diante de sua torcida. Se o vigor físico for mantido e os principais astros corresponderem, os canadenses têm tudo para deixar de ser uma promessa e consolidar de vez a sua nova identidade no futebol mundial.
A Suíça chega mais uma vez competitiva à uma Copa do Mundo. Embora frequentemente receba o rótulo de equipe pragmática ou sem brilho, a realidade é que os helvéticos sempre entregam resultados sólidos. Sob o comando de Murat Yakin, o grupo deu um salto evolutivo impressionante, transformando-se em um camaleão tático capaz de alternar entre linhas de três ou quatro defensores sem perder a organização. Essa flexibilidade permite tanto ditar o ritmo com a bola quanto explorar os espaços vazios, tornando os suíços um time extremamente interessante de assistir, com capacidade para neutralizar as principais armas de praticamente qualquer oponente.
Mesmo com a saída de figuras históricas e muito queridas pelo público, como Xherdan Shaqiri, a comissão técnica liderada por Yakin conseguiu estruturar um bloco que domina com maestria os espaços intermediários e as diferentes fases do jogo. A Suíça chega à Copa do Mundo de 2026 em seu ponto máximo de maturidade, contando com uma geração talentosa cujos principais pilares atuam nas ligas mais importantes da Europa. O grande trunfo da equipe reside na capacidade de alterar sua geometria interna durante os noventa minutos, ajustando os papéis dos atletas de acordo com as necessidades do confronto sem causar desconforto ou desespero tático. Essa bagagem credencia os helvéticos como os principais favoritos a liderar o Grupo B, superando o status de incógnita de Catar e Bósnia, e o fator casa do Canadá.
Dentro desse rico repertório estratégico, a Suíça transita confortavelmente entre o 4-3-3 e o 4-2-3-1, utilizando Dan Ndoye e Ruben Vargas para acelerar o ataque, enquanto Granit Xhaka e Remo Freuler oferecem a sustentação necessária no duplo pivô. Quando opta por três zagueiros, o time se desenha no 3-4-2-1 ou 3-4-3, recuando Ricardo Rodríguez para a sobra defensiva e liberando Silvan Widmer para dar amplitude pela ala. Dependendo do peso do rival, o sistema se transforma rapidamente em um bloco baixo estruturado no 5-4-1 ou 5-3-2. O pragmatismo suíço dita que a equipe assuma as rédeas da posse contra adversários teoricamente inferiores, mas saiba ceder o terreno e se fechar de maneira compacta contra potências, tornando-se uma ameaça letal em contragolpes verticais focados na velocidade dos extremos.
A saída de bola, coordenada desde o goleiro Gregor Kobel, ganha muita qualidade com a presença de Manuel Akanji e Nico Elvedi, permitindo que Xhaka atue em um segundo escalão sem a obrigação de se enfiar constantemente entre os zagueiros. No terço final do campo, as infiltrações em diagonal são exaustivamente trabalhadas, com os pontas cortando por dentro para abrir o corredor lateral para os defensores, enquanto homens de meio-campo como Remo Freuler e a jovem promessa Johan Manzambi chegam de trás para pisar na área. Na frente, a referência é Breel Embolo, um atacante de grande potência física que não se incomoda em cair pelas pontas para arrastar a marcação, servindo como pivô para clarear as jogadas ou buscando o arremate direto contra a meta adversária.
No plano individual, três engrenagens sustentam o teto competitivo do país. Granit Xhaka é o cérebro e o coração da equipe, controlando a distribuição e ditando os gatilhos de pressão com sua leitura impecável, além de assustar em chutes de longa distância. Na retaguarda, Manuel Akanji se consolidou como um defensor de elite mundial, funcionando como um verdadeiro mariscal que oferece segurança absoluta e uma condução de bola refinada digna de um meio-campista. Por fim, Johan Manzambi surge como o elemento surpresa após grande temporada no Freiburg, oferecendo um perfil misto de muita intensidade no “box-to-box” e uma excelente capacidade de finalização.
O Catar chega à Copa do Mundo 2026, tentando deixar para trás a decepção de ter sido em 2022 o país anfitrião, e terminar eliminado sem conseguir brilhar. Para a Copa do Mundo de 2026, o Catar promoveu uma verdadeira revolução em sua equipe e surge como um projeto muito mais maduro e liberto dos holofotes do extracampo. O grande responsável por essa mudança de patamar é o técnico espanhol Julen Lopetegui, que deu uma nova identidade competitiva aos cataris. A resposta definitiva desse amadurecimento veio com o título da Copa da Ásia, mostrando ao mundo que a seleção aprendeu a jogar sob forte exigência e que não precisa mais provar nada a ninguém, chegando ao torneio com o querendo surpreender no Grupo B.
Bósnia e Herzegovina
A Bósnia e Herzegovina, encontrou na repescagem o caminho que a reconduziu ao grande cenário do futebol mundial, doze anos após a sua última participação, na Copa do Brasil em 2014. O técnico Sergej Barbarez assinou uma classificação agônica, histórica e passional, deixando para trás concorrentes de peso como País de Gales e a poderosa Itália, consolidando um bloco de enorme dureza competitiva que aprendeu a equilibrar a experiência da velha guarda com uma estrutura física imponente.
O reflexo dessa mentalidade está em uma equipe rochosa, difícil de ser batida e que promete dar muita guerra no Grupo B, ao lado de Canadá, Catar e Suíça. Taticamente, a lousa de Barbarez costuma oscilar entre o 4-4-2 e o 3-5-2. Essa variação acontece muito em função do comportamento dos alas, com Amar Dedić dando extrema profundidade pela direita e Amar Memić atacando pela esquerda, enquanto Sead Kolašinac se junta aos zagueiros para dar sustentação atrás. Independentemente do desenho, a Bósnia se sente completamente confortável em presentear o adversário com a iniciativa do jogo. A estratégia principal é fechar as linhas em um bloco baixo, bem perto da própria área, para diminuir os espaços do rival e acionar contragolpes rápidos assim que a bola é recuperada em campo próprio.
A engrenagem ofensiva bósnia não depende de uma elaboração lenta ou de trocas excessivas de passes no meio-campo, mas sim de um dogma absoluto: o jogo direto pelos lados e os cruzamentos na área. Toda a dinâmica do time é desenhada para abastecer o seu capitão e referência máxima, Edin Džeko. O veterano centroavante continua demonstrando uma capacidade única de transformar bolas difíceis em gols limpos ou em escoradas inteligentes. Essas segundas jogadas são o combustível ideal para a chegada dos homens de trás, como Ermedin Demirović, um atacante de muita mobilidade que flutua pelos lados abrindo espaços, e Esmir Bajraktarević, o jovem ponta do PSV Eindhoven que, aos 21 anos, desponta como uma das mentes mais criativas e ousadas do elenco, sendo capaz de desequilibrar no mano a mano tanto por dentro quanto por fora.
Além das transições verticais, a grande arma secreta da Bósnia é a bola parada. Com uma estatura média impressionante de 1,88m, impulsionada por defensores como Nikola Katić, qualquer escanteio, falta na intermediária ou até mesmo arremesso lateral longo vira uma oportunidade real de gol. O pragmatismo de Barbarez conseguiu convencer o grupo de que o sacrifício e a intensidade defensiva são inegociáveis, gerando um modelo de jogo sólido que independe das peças que entram em campo. Minimizar erros e evitar faltas perto da área será o grande desafio dos adversários que quiserem conter essa equipe inquietante. Embalada pela inércia competitiva de uma repescagem épica, a Bósnia entra em 2026 pronta para castigar qualquer um que se atreva a subestimar a sua capacidade de resistir.
Grupo C: Brasil, Marrocos, Escócia e Haiti.
Brasil
Marrocos
O fator surpresa definitivamente acabou para a seleção de Marrocos. A campanha histórica no Catar em 2022, marcada por uma aula de consistência e organização defensiva, rendeu ao país o merecido reconhecimento como a grande surpresa daquele torneio. Agora, após o mundo acompanhar de perto o futebol marroquino em diversos compromissos, a equipe já é amplamente conhecida. O objetivo atual está claro: transformar a antiga postura ultra-defensiva em um modelo competitivo e muito mais criativo. Essa transição ganha força não apenas com a saída do técnico Regragui e a chegada de uma nova comissão técnica, mas com o foco em corrigir as carências ofensivas apresentadas em 2022. Mesmo priorizando o espírito coletivo, a cobrança sobre o elenco será consideravelmente maior em 2026, ainda que os marroquinos entrem no torneio vistos como a principal força do continente africano.
A mobilidade do time supera a rigidez das posições. Se com a bola a variação caminha entre o 4-3-3 e o 4-1, o comportamento defensivo se consolida em um rígido 4-4-2. A meta principal é congestionar a faixa central do campo, induzindo o oponente a buscar os corredores laterais. É justamente nessas zonas que Marrocos planeja efetuar desarmes rápidos para acionar contragolpes fulminantes. Quando a posse é recuperada por El Aynaoui ou Ounahi, a bola é projetada imediatamente para explorar a velocidade de Abde Ezzalzouli ou os apoios profundos do lateral Achraf Hakimi, enquanto Brahim Díaz e Saibari infiltram-se pelas faixas intermediárias.
Com essa mecânica, o plano defensivo deixa de ser uma pressão alta desgastante para se tornar um encaixe posicional coordenado, com blocos compactos que fecham as linhas de passe por dentro e empurram o rival para os lados. No momento da transição ofensiva, o desenho é letal. Assim que retoma a bola, Brahim Díaz conduz pelo meio para arquitetar a jogada, amparado pela infiltração de Saibari vindo de trás. Paralelamente, Hakimi e Abde dão amplitude máxima ao campo, abrindo a marcação adversária e permitindo que Ounahi e El Aynaoui deem sustentação à jogada. Com o apoio ofensivo constante do lateral Mazraoui, Marrocos frequentemente ataca com até seis peças na área de finalização, distanciando-se do rótulo de equipe exclusivamente defensiva.
Diferente do ciclo anterior, onde o sucesso dependia da dupla de volantes liderada por Amrabat, o momento atual favorece o uso de um único homem de contenção atrás de dois meio-campistas de perfil criativo. Nessa engrenagem, El Aynaoui funciona como a peça fundamental, destacando-se pela capacidade de desarmar e iniciar a transição com rapidez, oferecendo passe limpo na saída de bola e recuando entre os zagueiros quando a dinâmica exige. Esse suporte dá total liberdade para que o trio formado por Brahim, Ounahi e Saibari apareça na intermediária em condições de arrematar de fora da área, aproveitando os espaços gerados pelos pontas.
No terço final, a presença de Brahim Díaz dita o ritmo. Longe de ser um armador estático, o jogador alia uma excelente leitura de jogo a uma grande capacidade de atacar a profundidade e aparecer como elemento de definição na grande área, gerando dúvidas constantes nos defensores adversários. Coletivamente, Marrocos ganhou repertório e velocidade nas tabelas curtas. Conseguindo aliar essa evolução criativa à dedicação defensiva no momento de recompor em duas linhas de quatro, os marroquinos têm plenas condições de encarar qualquer potência do futebol mundial de igual para igual.
No aspecto individual, Achraf Hakimi segue como a grande válvula de escape pela direita, atuando praticamente como um atacante pelo corredor externo, além de exercer o papel de liderança e assumir a responsabilidade pelas cobranças de faltas, escanteios e penalidades. No setor de criação, Brahim Díaz traz o refino técnico em palmos de terreno que faltava ao time no Catar.
No gol, Yassine Bounou permanece como o pilar de segurança, sendo um goleiro decisivo e amplamente conhecido pelo retrospecto positivo em cobranças de pênalti. Na referência do ataque, Ayoub El Kaabi oferece alternativas distintas em relação a En-Nesyri: demonstra facilidade para jogar de costas para o gol, entrega intensidade física contra os zagueiros, retém a bola na transição e vive grande fase como artilheiro no jogo aéreo. Contando ainda com boas opções no banco de reservas, como El Khannouss, Rahimi e Targhalline, Marrocos consolida seu amadurecimento para o ciclo de 2026.
A Escócia deixou de ser o “patinho feio”. A verdade é que se trata de uma seleção muito bem montada e, para além da raça e do empenho físico, os comandados de Steve Clarke têm muito a dizer. Este é o retorno deles a uma Copa do Mundo após 28 anos de ausência, sendo a última em 1998. O trunfo dessa equipe está na otimização tática dos seus atletas e, acima de tudo, no plano que Clarke tem na cabeça, tendo Scott McTominay como peça principal. Sem dúvida, esse encaixe pode ser o búnker que precisavam para competir com qualquer rival. É o fim do complexo de inferioridade de uma nação que, desde os primórdios do futebol, sempre lutou para revolucionar o jogo.A assinatura de Steve Clarke extirpou o fatalismo de dentro da seleção escocesa. Ele construiu um bloco onde o talento se acumula principalmente no corredor central. A linha de meio-campo é muito boa, e o modelo tático muda bastante dependendo do adversário, mas a ideia base é bem pragmática, sem grandes ornamentos ou fogos de artifício. Eles querem obrigar o rival a se cansar e se entediar com a bola, para então castigá-lo assim que a primeira linha de pressão for superada. É um time que se consolidou nas Eurocopas de 2021 e 2024 e que chega ao Mundial de 2026 com um projeto mais maduro, hiperespecializado e com automatismos muito claros e memorizados. Esta Escócia não vai ao Mundial a passeio e muito menos para fazer turismo; eles vêm para competir com a faca entre os dentes, provando que esta geração pode apostar em si mesma.O ecossistema de meio-campistas versáteis que Steve Clarke tem à disposição atualmente é fascinante, pois todas as figuras possuem funções complementares. O treinador desenhou um sistema simétrico para equilibrar o peso físico nas alas e manter a solidez por dentro, tornando a seleção rocosa e muito perigosa ao avançar para o campo contrário. Ainda assim, a Escócia não terá vida fácil. Eles estão em um grupo que conta com o Brasil, pentacampeão, e Marrocos, a grande revelação do Mundial de 2022. No entanto, o confronto contra o Haiti faz a Escócia sonhar com a classificação para o mata-mata. O time tem chances reais, pois não está tão distante de um Marrocos que gera dúvidas em alguns momentos, principalmente porque hoje em dia já é uma seleção muito mais mapeada pelos adversários.
Na frente, Che Adams oferece mais mobilidade para fazer o complemento a Lyndon Dykes. A grande vantagem dessa estrutura com três zagueiros é permitir a projeção ofensiva constante de Andy Robertson pela ala esquerda. Quando Robertson avança, Tierney fica encarregado de cobrir o setor como um lateral tradicional. Esse desenho projeta praticamente quatro jogadores na primeira linha de ataque e cria uma segunda linha extremamente perigosa com McTominay infiltrando-se na área.Embora a equipe não busque a posse de bola e prefira cedê-la ao adversário, a prioridade absoluta é a ordem e a disciplina. A leitura defensiva pelo meio é ditada por Billy Gilmour no papel de pivô, contando com o suporte de operários incansáveis como McTominay e McGinn. Quando recuperam a bola, a transição é direta e veloz. O objetivo é acionar os alas para que façam cruzamentos perigosos na área. Caso Dykes ou Che Adams não finalizem diretamente, a presença de McTominay e McGinn chegando de trás transforma a segunda linha na principal fonte de gols da equipe, compensando a ausência de um centroavante de elite mundial.Os Pilares da Tartan ArmyA imposição física e a intensidade são características não negociáveis para os escoceses, que mantêm um ritmo de jogo altíssimo e aplicam uma pressão alta nos momentos oportunos. O poderio aéreo e as jogadas de bola parada são soluções vitais, contando com ótimos rematadores como John Souttar, Grant Hanley ou Scott McKenna na área.
Para fazer tudo isso funcionar, a figura central é Scott McTominay, o motor e o líder indiscutível desta seleção. Ele tem uma capacidade letal para romper linhas em condução e invadir a área a partir do meio-campo, funcionando como um atacante a mais na frente e um defensor incansável na recomposição. Na ala esquerda, Andy Robertson domina todo o corredor. O capitão da seleção traz a experiência do mais alto nível do futebol mundial, oferece passes precisos e cruzamentos que valem ouro, sendo a principal rota de saída ofensiva do time. Por fim, John McGinn representa perfeitamente a identidade desta Escócia.
Enquanto McTominay quebra as linhas adversárias na base da potência física, McGinn faz isso com refinamento técnico, qualidade e visão de jogo. Ele atua como um meia-atacante que cai muito bem pelos lados, entrega um sacrifício absurdo na marcação e possui um faro de gol apurado que ajuda muito o coletivo.O trabalho de Steve Clarke deu estabilidade ao projeto e transformou a Escócia em um time de autor, deixando para trás a ingenuidade de outros tempos. Trata-se de uma seleção áspera, sincronizada e extremamente incômoda de se enfrentar, muito acostumada ao pragmatismo necessário para torneios curtos de máxima pressão. Resta ver se a força dessa segunda linha será o suficiente para quebrar o tabu histórico e fazer a Escócia avançar de fase pela primeira vez em uma Copa do Mundo.
Paraguai
O Paraguai chega para a Copa do Mundo de 2026 como uma verdadeira demonstração de pragmatismo no futebol moderno. Em uma era marcada por posse de bola excessiva e construções elaboradas, a seleção paraguaia aposta em um estilo completamente diferente: jogo físico, organização defensiva e competitividade extrema. Mesmo sem apresentar um futebol vistoso, a equipe consegue convencer de que também é possível competir em alto nível dessa maneira.
A equipe comandada por Gustavo Alfaro se transformou em um adversário extremamente desconfortável. Dentro de um grupo equilibrado, o Paraguai deve disputar diretamente com a Austrália uma vaga na próxima fase, enquanto Turquia e Estados Unidos aparecem como favoritos. Ainda assim, a força competitiva paraguaia faz com que ninguém possa subestimá-los.
A principal característica desta seleção é justamente sua fidelidade à própria identidade. O Paraguai não tenta ser algo que não é. Alfaro entendeu rapidamente quais eram as virtudes e limitações do elenco e construiu um modelo de jogo totalmente baseado nisso. Depois de 16 anos fora das Copas do Mundo, a classificação para 2026 já representa um enorme sucesso para o país.
Quando Gustavo Alfaro assumiu a seleção, encontrou um time abatido emocionalmente e com dificuldades nas eliminatórias. Aos poucos, conseguiu transformar aquele cenário em uma equipe organizada, competitiva e extremamente disciplinada. O treinador apostou no pragmatismo como caminho para recolocar o Paraguai em um Mundial, e até aqui a estratégia funcionou perfeitamente.
O aspecto mais curioso do Paraguai talvez seja a maneira como controla os jogos sem precisar dominar a posse de bola. Diferente de outras seleções reativas, que apenas se defendem e atacam em velocidade, o Paraguai procura controlar emocionalmente a partida mesmo sem a bola. A ideia é transformar o confronto em algo tenso, físico e desconfortável para o adversário.
Mesmo registrando baixos índices de posse, a equipe é uma das que mais recupera bolas no campo ofensivo entre as seleções sul-americanas. Isso mostra que a defesa não é apenas uma necessidade, mas uma estratégia ativa dentro do modelo de jogo.
Taticamente, a base costuma ser um 4-4-2 bastante compacto. A defesa normalmente conta com Gustavo Gómez e Alderete como dupla de zaga, enquanto os laterais têm funções mais conservadoras e defensivas. O objetivo principal é fechar espaços internos e obrigar o rival a jogar pelos lados do campo.
Essa estratégia faz sentido para um time tão forte fisicamente. O Paraguai aceita cruzamentos e disputas aéreas porque confia muito na capacidade de seus defensores de vencer esses duelos. Quando recupera a bola, inicia rapidamente os contra-ataques aproveitando a velocidade de seus jogadores ofensivos.
No meio-campo, Bobadilla e Ojeda costumam dar equilíbrio, enquanto Diego Gómez e Miguel Almirón oferecem intensidade, movimentação e apoio defensivo pelos lados. Já Julio Enciso aparece como a peça mais imprevisível do sistema.
Enciso é um jogador extremamente versátil. Pode atuar como segundo atacante, meia central ou aberto pelos lados. Sua mobilidade permite ao Paraguai alterar a estrutura tática durante o jogo, transformando o 4-4-2 em um 4-2-3-1 ou até em formações mais ofensivas dependendo da situação.
Tony Sanabria geralmente atua como referência no ataque, embora outros nomes também possam disputar espaço. Sua função é aproveitar as jogadas de transição e finalizar as construções ofensivas da equipe.
Uma das grandes forças do Paraguai está justamente nas transições rápidas. O time costuma defender em bloco baixo e compacto, esperando o momento certo para acelerar. Quando recupera a bola, procura atacar em velocidade, muitas vezes através de conduções individuais e não apenas de lançamentos longos.
Almirón, Enciso e Diego Gómez são fundamentais nesse processo. Todos possuem velocidade, capacidade de drible e boa leitura para atacar espaços. Além disso, o Paraguai sempre procura colocar vários jogadores próximos da área adversária durante os contra-ataques, aumentando as opções de finalização.
Outra arma importantíssima é o jogo aéreo. Historicamente, o Paraguai sempre foi forte nesse aspecto, e essa característica continua presente. Gustavo Gómez, Alderete e Sanabria oferecem muito perigo nas bolas paradas ofensivas, tanto em escanteios quanto em faltas laterais.
Defensivamente, o time também demonstra enorme solidez. A equipe se organiza em linhas muito compactas e exerce pressão agressiva em momentos específicos da partida. Não é um time que pressiona alto o tempo todo, mas sabe exatamente quando acelerar a marcação para provocar erros do adversário. Nesse contexto, Enciso, Almirón e Diego Gómez desempenham funções importantes sem a bola, enquanto Bobadilla e Ojeda ajudam a sustentar o equilíbrio do meio-campo.
Entre os principais destaques individuais, Miguel Almirón continua sendo uma das figuras mais importantes da seleção. Experiente e muito veloz, ele é o principal motor dos contra-ataques paraguaios. Sua capacidade de conduzir a bola em velocidade, atacar espaços e criar desequilíbrios torna o time muito perigoso em transições.
Julio Enciso aparece como o jogador mais talentoso e imprevisível da equipe. Mesmo jovem, demonstra personalidade, coragem no um contra um e muita qualidade técnica em espaços reduzidos. Além disso, possui ótimo chute de média distância e qualidade em bolas paradas. Caso chegue em grande forma, pode ser uma das revelações do torneio. Diego Gómez também merece destaque pela inteligência tática, visão de jogo e capacidade técnica. É um jogador que ajuda tanto na construção quanto na aceleração das jogadas ofensivas.
Na defesa, Gustavo Gómez representa a grande liderança da equipe. Forte fisicamente, dominante pelo alto e extremamente seguro nos duelos defensivos, ele é o pilar da retaguarda paraguaia. Sua experiência e capacidade de antecipação dão muita estabilidade para todo o sistema defensivo. O Paraguai de Gustavo Alfaro representa, acima de tudo, a aceitação completa da própria identidade futebolística. Em vez de tentar copiar modelos mais modernos ou ofensivos, a seleção decidiu apostar naquilo que historicamente sempre fez bem: intensidade, disciplina tática, força física e competitividade.
Talvez não seja uma equipe brilhante tecnicamente, mas certamente será uma seleção muito difícil de enfrentar. O grande questionamento é saber se esse pragmatismo defensivo será suficiente para levar o Paraguai à próxima fase da Copa do Mundo. Independentemente disso, a equipe já demonstrou que voltou a ser competitiva no cenário internacional.
A Turquia retorna ao cenário mundial carregando enorme paixão popular e um futebol marcado pela técnica e intensidade emocional. A seleção turca chega para a Copa do Mundo de 2026 como uma das seleções mais interessantes do cenário internacional. A equipe comandada por Vincenzo Montella tenta unir organização tática com a criatividade de uma geração extremamente talentosa, criando um estilo de jogo vistoso e ofensivo. Depois de 24 anos sem disputar um Mundial, os turcos voltam ao torneio carregando expectativas altas e a sensação de que vivem o momento mais promissor de sua história recente.
Desde a histórica campanha na Copa de 2002, realizada na Coreia do Sul e no Japão, a Turquia não conseguia retornar ao principal palco do futebol mundial. Aquela equipe ficou marcada por jogadores emblemáticos e por confrontos memoráveis, como a semifinal diante do Brasil de Ronaldo Nazário. Agora, a classificação para 2026 representa o resultado de um longo processo de amadurecimento, impulsionado principalmente pelo surgimento da melhor geração jovem que o país já produziu.
O grande desafio da seleção turca está no aspecto emocional. Em diferentes campanhas eliminatórias, a equipe demonstrou dificuldades para lidar com pressão e momentos decisivos. Montella surge justamente como o treinador responsável por controlar esse cenário, utilizando uma abordagem pragmática e tentando equilibrar o talento individual com uma estrutura coletiva sólida.
Taticamente, o esquema preferido do treinador é o 4-2-3-1. O sistema oferece equilíbrio defensivo, liberdade para os jogadores criativos e possibilidade de pressão alta. Em alguns momentos, a equipe também utiliza um 3-4-2-1, especialmente para potencializar jogadores como Arda Güler e Kenan Yildiz atuando mais centralizados.
Na construção ofensiva, a Turquia valoriza bastante a posse de bola e as triangulações curtas. A equipe procura construir desde a defesa, utilizando passes rasteiros e circulação paciente até encontrar espaços entre as linhas adversárias. Hakan Çalhanoğlu e Arda Güler são os principais responsáveis pela organização do jogo. Ambos funcionam como verdadeiros motorzinhos, distribuindo passes longos, acelerando transições e encontrando os atacantes em profundidade.
O setor ofensivo é um dos mais empolgantes da equipe. Arda Güler aparece como o cérebro criativo da seleção, enquanto Kenan Yildiz oferece velocidade, drible e profundidade pelos lados do campo. A movimentação constante dos atacantes gera trocas de posição frequentes e dificulta a marcação adversária. Kerem Aktürkoğlu, por exemplo, atua muitas vezes como falso nove, saindo da área para abrir espaços e permitir infiltrações dos meias.
Outro ponto forte da Turquia está nas finalizações de média distância e nas bolas paradas. Çalhanoğlu, Arda Güler e Kenan Yildiz possuem excelente qualidade técnica para chutes de fora da área e cobranças de falta. Além disso, jogadores como Demiral e Bardakcı oferecem força no jogo aéreo, tornando a equipe perigosa em escanteios e faltas laterais.
Defensivamente, a seleção tenta recuperar a bola rapidamente após a perda da posse, pressionando alto e evitando que o adversário consiga construir ataques longos. Apesar disso, o time ainda apresenta dificuldades quando precisa atuar em bloco baixo ou defender por longos períodos sem a bola. Esse talvez seja o principal ponto de atenção da equipe para o Mundial.
Entre os destaques individuais, Arda Güler surge como a grande estrela da nova geração turca. O meia demonstrou enorme evolução recentemente e já é visto como líder técnico da seleção. Sua capacidade de criar jogadas, controlar o ritmo da partida e decidir em momentos importantes faz dele uma peça central no esquema de Montella.
Hakan Çalhanoğlu continua sendo o grande organizador da equipe. Mais experiente, o meio-campista passou a atuar em funções mais recuadas, ajudando na saída de bola e oferecendo equilíbrio tático. Sua liderança e visão de jogo serão fundamentais para o desempenho turco no torneio.
Kenan Yildiz também aparece como um dos nomes mais promissores da equipe. Extremamente veloz e habilidoso, o atacante consegue atuar tanto aberto pelos lados quanto por dentro, oferecendo profundidade e capacidade de finalização. Sua conexão com Arda Güler é vista como uma das grandes armas ofensivas da seleção.
A sensação é de que a Turquia finalmente deixou para trás a imagem de equipe apenas intensa e emocional para se tornar uma seleção mais madura taticamente. Ainda existem oscilações, mas o potencial é enorme. Em jogos eliminatórios, especialmente em confrontos únicos, os turcos parecem ter condições de competir em alto nível e surpreender seleções tradicionais.
Com uma geração extremamente talentosa, uma identidade de jogo bem definida e um treinador capaz de organizar o caos criativo da equipe, a Turquia chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das seleções mais interessantes de acompanhar.
A Austrália construiu uma estrutura defensiva extremamente sólida. Hoje, a equipe parece funcionar como uma máquina voltada para o controle do ritmo, para a destruição do jogo adversário e para a sobrevivência competitiva. Sob o comando de Tony Popovic, os “Socceroos” desenvolveram um modelo muito pragmático, baseado em organização, intensidade e disciplina tática.
O efeito de Popovic foi enorme dentro da seleção australiana. A equipe passou a viver muito mais da consistência defensiva e das transições rápidas do que da criatividade com a bola nos pés. A ideia de um futebol associativo, elaborado e técnico praticamente desapareceu. Em vez disso, a Austrália aposta em agressividade, disputas físicas no meio-campo, velocidade nos contra-ataques e, principalmente, nas jogadas de bola parada.
Esse estilo representa um retorno às raízes do futebol australiano: ordem defensiva, velocidade pelos lados e ataques diretos. O plano de jogo é relativamente simples. Popovic preferiu transformar a seleção em um bloco estruturado e competitivo, em vez de tentar construir uma equipe brilhante tecnicamente. É uma realidade parecida com a de várias seleções que sabem que dificilmente conseguirão dominar partidas através da posse de bola.
Depois do fim da era Graham Arnold, a Austrália precisou se reconstruir. Durante as eliminatórias houve momentos de instabilidade, e chegou a existir dúvida sobre a capacidade competitiva da equipe para voltar a disputar uma Copa do Mundo em alto nível. Ainda assim, o grupo conseguiu reencontrar o caminho e hoje apresenta uma identidade muito clara.
Trata-se de uma seleção madura, consciente das próprias limitações e confortável no papel de equipe incômoda. A Austrália não tenta mais executar um futebol que não domina. Essa postura pragmática acaba sendo inteligente, principalmente porque o time consegue explorar bem os espaços, criar dificuldades nos duelos físicos e aproveitar a força aérea.
Mesmo assim, o cenário do grupo parece complicado. O Paraguai, por exemplo, apresenta características parecidas, mas possui mais recursos técnicos e parece mais preparado competitivamente. Já Turquia e Estados Unidos demonstram maior maturidade coletiva e uma proposta de jogo mais completa. Por isso, a disputa pela classificação provavelmente ficará entre Austrália e Paraguai, embora os paraguaios pareçam chegar em vantagem.
O grande desafio australiano será transformar poucas oportunidades em gols. A equipe sabe que dificilmente criará muitas chances por jogo, então eficiência será fundamental.
Taticamente, a Austrália costuma atuar com uma linha de cinco defensores, em um sistema que pode variar entre 5-4-1, 5-2-2-1 ou até uma estrutura híbrida de 3+2. A prioridade é clara: proteger a área, fechar os corredores internos e forçar o adversário a jogar pelos lados do campo.
Quando recupera a bola, o time busca acelerar rapidamente as transições. Touré aparece normalmente como referência ofensiva, enquanto Hrustic e Irankunda são peças importantes para atacar os espaços em velocidade. A ideia é simples: recuperar a posse e sair em direção ao gol rival o mais rápido possível.
No setor ofensivo, Irankunda oferece profundidade, velocidade e muita imprevisibilidade. É um jogador capaz de abrir o campo, atacar em diagonal e criar desequilíbrios no um contra um. Hrustic também contribui bastante na criação e nos cruzamentos. Ambos costumam se movimentar para zonas interiores, permitindo que os alas ocupem os corredores laterais.
Jordan Bos e os outros jogadores de lado têm papel essencial nesse sistema. São alas bastante ofensivos, responsáveis por dar amplitude ao ataque e levar bolas perigosas para a área. Esse movimento cria situações interessantes, já que os defensores rivais muitas vezes ficam indecisos sobre quem marcar, abrindo espaços para infiltrações e finalizações de segunda linha.
Outro ponto fortíssimo da Austrália é a bola parada. Escanteios e faltas laterais representam uma das principais armas ofensivas da equipe. Grande parte dos gols nas eliminatórias surgiu justamente desse tipo de jogada. A seleção domina o jogo aéreo, possui jogadores fisicamente fortes e consegue aproveitar muito bem rebotes e segundas bolas dentro da área.
Defensivamente, porém, existem fragilidades. A equipe sofre quando precisa recuar rapidamente contra adversários velozes. Os zagueiros não são especialmente rápidos, e os alas possuem características mais ofensivas do que defensivas. Além disso, a Austrália raramente faz pressão alta constante, o que pode gerar dificuldades quando não consegue interromper contra-ataques ainda no meio-campo.
Entre os destaques individuais está Matthew Ryan, capitão e goleiro experiente da equipe. Mesmo aos 34 anos, continua sendo um arqueiro seguro, com ótimos reflexos e muita qualidade em disputas de pênaltis.
Outro nome importante é Nestor Irankunda. Extremamente explosivo e veloz, ele oferece algo diferente ao ataque australiano. Apesar de ainda não ter se firmado completamente no Bayern de Munique, segue sendo uma ameaça constante em espaços abertos e no jogo individual.
Jackson Irvine também merece destaque. É um meio-campista “box-to-box” com enorme capacidade física, chegada ofensiva e inteligência tática. Sua presença ajuda a equilibrar o meio-campo e organizar a equipe sem a bola.
Na defesa, Harry Souttar continua sendo uma referência importante pelo domínio aéreo e pela liderança. Mesmo após uma grave lesão no tendão de Aquiles, segue sendo um jogador muito influente tanto defensivamente quanto nas bolas paradas ofensivas.
Jordan Bos é outro atleta interessante. Tem força ofensiva, chega bem à linha de fundo e aparece frequentemente em zonas perigosas dentro da área. Sua parceria com Irankunda pelo lado do campo pode ser uma das principais armas da Austrália no torneio.
No geral, a Austrália aperfeiçoou sua capacidade de neutralizar o adversário. Não precisa controlar a posse para competir. É uma seleção extremamente física, dura nos duelos e muito fiel ao próprio sistema. Pode não ser uma equipe brilhante, mas certamente será um rival complicado para qualquer seleção.
Ainda assim, fica a dúvida: o pragmatismo se Tony Popovic e o talento individual de jogadores como Irankunda serão suficientes para levar a Austrália à próxima fase. O time parece competitivo, mas talvez tenha limitações ofensivas demais para superar adversários mais completos.
Grupo E: Alemanha, Equador, Curaçao e Costa do Marfim.
A seleção alemã chega à Copa do Mundo de 2026 com o compromisso moral de reabilitar sua reputação e superar os fracassos dos mundiais de 2018 e 2022, quando acabou eliminada ainda na fase de grupos. Sob a liderança de Julian Nagelsmann, a Mannschaft almeja resgatar o chamado “futebol do futuro”, deixando para trás o estilo previsível, lento e de posse de bola improdutiva que caracterizou suas últimas campanhas. O plano agora é estabelecer uma equipe de forte identidade, que utilize o controle da bola de forma agressiva e transforme seu talentoso grupo de meias-atacantes modernos no maior terror do torneio.
Sorteada no Grupo E, a Alemanha terá pela frente uma chave repleta de armadilhas, dividida com Equador, Costa do Marfim e Curaçau. Embora Curaçau desponte como o oponente teoricamente mais fraco e provável fiel da balança, times como Equador e Costa do Marfim possuem plenas condições de bater de frente e surpreender os alemães. Qualquer sinal de soberba por parte da equipe europeia será severamente punido. O histórico recente serve como o aviso definitivo para que Nagelsmann mantenha o time focado e impeça o retorno do fantasma da eliminação precoce.
Para este mundial, Nagelsmann tomou uma postura radical e amplamente questionada: devolver a titularidade ao veterano Manuel Neuer, preterindo nomes como Nübel e Baumann. A decisão atende à urgência de contar com um goleiro de forte liderança, capaz de organizar o sistema defensivo e, essencialmente, garantir total precisão no início da construção das jogadas. O treinador receava que a ausência de um arqueiro associativo prejudicasse a saída de bola sob pressão, um fator crucial para um time que pretende sufocar os adversários no campo de ataque a maior parte do tempo.
Em termos táticos, o flexível laboratório de Nagelsmann utiliza o 4-2-3-1 como plataforma inicial, um esquema que oferece segurança e permite variações fluidas para o 4-3-3 ou até para um 4-2-4 em momentos defensivos. Trata-se de uma formação visivelmente assimétrica. Quando instalada no setor ofensivo, a dinâmica faz com que Aleksandar Pavlovic recue entre os zagueiros para qualificar a saída de bola, enquanto Joshua Kimmich avança por dentro, operando quase como um meio-campista central invertido que dita o ritmo do jogo ao lado de seu companheiro de volância.
O ponto alto desta Alemanha reside na grande concentração de talento e criatividade pelo setor central. Nagelsmann abre mão de pontas tradicionais, priorizando meias que se movimentam para o meio. Na frente, Kai Havertz atua como um falso nove de muita mobilidade — em uma função parecida à de Harry Kane no Bayern de Munique de Vincent Kompany —, abrindo brechas para as infiltrações verticais de Leroy Sané, Florian Wirtz e Jamal Musiala. Pelo lado esquerdo, a amplitude e a profundidade totais ficam a cargo do lateral David Raum, que avança para apoiar o ataque e acionar a pressão imediata após a perda da bola.
O sucesso coletivo do time depende diretamente da eficácia do seu Gegenpressing. A Alemanha necessita que o confronto se desenvolva no campo adversário, onde seus atacantes conseguem tabelar em espaços curtos e recuperar a posse rapidamente, evitando o desgaste de correr para trás. Todavia, essa postura agressiva traz um risco considerável de exposição: se a primeira linha de pressão for superada, o time avança tanto em bloco que acaba ficando desprotegido na defesa, exposto a contragolpes fatais. Para conter isso, o técnico cobra paciência e rigor posicional, equilibrando a liberdade criativa com a disciplina tática.
Individualmente, as principais apostas alemãs estão concentradas em peças específicas. Kimmich atua como o mentor tático a partir da lateral direita construtora. Na linha de articulação, a parceria entre Florian Wirtz e Jamal Musiala dita o nível de competitividade da equipe. Embora Wirtz venha de um ano inconstante no futebol inglês pelo Liverpool, sua inteligência para se mover entre as linhas e arquitetar o ataque permanece excepcional. Junto dele, Musiala se destaca como o elemento imprevisível: brilhante no drible, perigoso nas finalizações e capaz de quebrar marcações em qualquer setor, seja vindo de fora ou por dentro.
Por fim, os lances de bola parada despontam como uma das armas secretas mais lapidadas pela comissão técnica para surpreender em 2026. Inspirada no êxito recente do Arsenal de Mikel Arteta no cenário europeu, a federação alemã trouxe um profissional especializado exclusivamente para este fundamento. Com jogadas ensaiadas com rigor e cobranças executadas majoritariamente em curto, o setor virou uma ferramenta perigosa e exaustivamente testada. A Alemanha pode não figurar entre os cinco maiores favoritos de antemão, mas chega madura, bem estruturada e disposta a provar que assimilou os erros do passado.
A seleção do Equador desponta como uma das forças mais promissoras para a Copa do Mundo de 2026. Após garantir uma classificação incontestável como a segunda melhor equipe das Eliminatórias da Conmebol, o “Tri” carimbou seu passaporte credenciado por uma defesa sólida e uma agressividade notável para sufocar os adversários na saída de bola. O objetivo do grupo agora é consolidar essa maturidade competitiva e apagar a frustrante campanha do Catar em 2022. Integrante do Grupo E, a equipe desponta ao lado da Alemanha como favorita para avançar aos dezesseis-avos de final, posicionando-se um degrau acima de Costa do Marfim e Curaçau.
O grande responsável por essa transformação mental e tática é o técnico Sebastián Beccacece. Com seu estilo enérgico e de forte personalidade, o comandante rosarino implementou um modelo de jogo corajoso que recusa a especulação. Sob sua liderança, os equatorianos desenvolveram uma enorme versatilidade estrutural, alternando esquemas táticos com facilidade para espelhar e neutralizar os rivais, sem nunca abdicar de suas diretrizes ofensivas. Embora o time conte com uma espinha dorsal talentosa e apresente grande evolução coletiva, o ponto fraco do plano continua sendo a baixa produtividade de gols e uma certa dependência de lampejos criativos no ataque. Corrigir a eficácia nas finalizações é o detalhe que falta para o Equador atingir o seu teto técnico na competição.
Dentro de campo, Beccacece adota o 4-3-3 como plataforma inicial, utilizando Hernán Galíndez na meta e uma linha defensiva composta por Joel Ordóñez, William Pacho, Piero Hincapié e Pervis Estupiñán. Essa estrutura migra frequentemente para o 4-4-2, posicionando Gonzalo Plata na ponta e abrindo espaço para um segundo atacante atuar perto de Enner Valencia. Diante de oponentes de maior nível, o treinador costuma montar uma linha de três zagueiros no 5-3-2 ou 5-4-1. Essa variação asimétrica protege o corredor central e dá liberdade para que alas como Estupiñán e Angelo Preciado agridam as linhas defensivas adversárias.
No meio-campo, a engrenagem é controlada por Moisés Caicedo, o pilar de sustentação tática e emocional do elenco. O volante atua desde o primeiro estágio da construção de jogadas entre os defensores até a distribuição e marcação sob pressão no campo de ataque. Ao seu lado, Alan Franco e Pedro Vite dão equilíbrio ao setor, sob a sombra criativa de Kendry Páez, jovem que adiciona técnica, imaginação no último terço e capacidade de pisar na área. Nas beiradas, Alan Minda garante a profundidade, disputando posição com John Mercado, Jhojan Julio e Nilson Angulo, opções que agregam características de armadores que flutuam para o interior do campo.
A retaguarda é o verdadeiro búnker do time. Os defensores William Pacho e Piero Hincapié formam uma das duplas mais prestigiadas do futebol mundial, amparados por grandes atuações europeias por Paris Saint-Germain e Arsenal. Pacho se destaca como um zagueiro físico e implacável no jogo aéreo e terrestre, enquanto Hincapié oferece versatilidade ao atuar como zagueiro ou lateral-esquerdo, quebrando a marcação rival por meio de passes verticais e conduções. Para garantir o equilíbrio, Ordóñez cumpre uma função tática crucial pelo lado direito, cobrindo as subidas ofensivas de Gonzalo Plata.
Mesmo em cenários onde não consiga ditar o ritmo através da pressão alta, o Equador é uma ameaça real em transições rápidas partindo de um bloco médio ou baixo, explorando a velocidade de seus pontas em lançamentos longos feitos por Pacho e Hincapié. Na frente, a liderança e o faro de gol permanecem sob a responsabilidade do experiente Enner Valencia, letal atacando as costas da defesa ou fazendo o pivô. Peças como Kevin Rodríguez, que entrega muita potência física, e Jordi Caicedo, um centroavante mais fixo, surgem como alternativas de peso. Livre de complexos e escorado em sua solidez defensiva, o Equador chega pronto para encarar qualquer potência mundial de igual para igual.
A seleção da Costa do Marfim desembarca no Mundial de 2026 amparada por uma trajetória recente marcada pela superação e pelo espírito heroico. Marcados pelo roteiro quase inacreditável da Copa Africana de Nações de 2024 — quando a equipe precisou trocar de técnico no meio da competição para se sagrar campeã —, os “Elefantes” carregaram por algum tempo o rótulo de elenco puramente emocional e desordenado. No entanto, para o torneio de 2026, o cenário mudou completamente. A antiga anarquia tática deu lugar à disciplina sob a liderança de Emerse Faé, peça-chave para entender a atual maturidade do futebol marfinense. A ingenuidade defensiva e os confrontos francos e descontrolados foram substituídos por organização, pragmatismo e controle das ações, mostrando que o país não quer depender de milagres para avançar.
Embora o favoritismo do Grupo E esteja inicialmente voltado para Alemanha e Equador, a Costa do Marfim chega com excelente ritmo de jogo e moral elevada, respaldada por triunfos consistentes em amistosos contra Coreia do Sul e Escócia. O objetivo claro dos africanos é rivalizar diretamente com os equatorianos pela segunda vaga rumo aos dezesseis-avos de final, mantendo também o foco em carimbar a classificação como um dos melhores terceiros colocados. Consciente de suas virtudes e limitações, e sem complexos diante dos rivais, o time comandado por Faé tem ferramentas de sobra para frustrar os planos das potências do grupo caso haja qualquer descuido.
Taticamente, a equipe tem como base o 4-3-3, utilizado principalmente quando busca impor sua personalidade, valorizar a posse no meio-campo e exercer uma pressão alta na saída do adversário. Esse modelo transita com facilidade para o 4-2-3-1 para dar maior sustentação defensiva sem travar os homens de frente. Já em cenários que exigem resguardo e proteção ao bloco baixo, os marfinenses se estruturam em um compacto 4-4-2, priorizando a recomposição em velocidade. A grande virtude coletiva está na capacidade de acelerar o ritmo em campo contrário, mas também de recuar as linhas com inteligência para explorar contragolpes longos.
Na baliza, Yahia Fofana desponta como o favorito para a titularidade, embora sofra a forte concorrência de Alban Lafont, goleiro com boa rodagem no futebol europeu. A linha de zaga conta com Evan Ndicka e Odilon Kossounou, que iniciam a campanha se recuperando de pequenos problemas físicos, abrindo espaço para a afirmação do jovem Ousmane Diomande, defensor firme e impositivo em ambos os lados da área. Nas laterais, Ghislain Konan atua de forma mais equilibrada pela esquerda, enquanto a força de Wilfried Singo na direita permite ao treinador desenhar uma saída de bola asimétrica.
O meio-campo se consolidou como o setor mais forte da equipe, liderado pela intensidade de Franck Kessié, o autêntico box-to-box que dita o ritmo nos dois lados do campo. Ao seu lado, Ibrahim Sangaré funciona como o motor na contenção, protegendo os zagueiros com desarmes e vigor físico. Christantus Uche fecha o setor, enquanto atletas como Seko Fofana e o experiente Jean Michaël Seri surgem como ótimas alternativas para qualificar o passe e dar fluidez à saída de bola. No ataque, Amad Diallo garante o drible e o sacrifício defensivo na ala direita, complementado na esquerda pelo jovem Jan Diomande, de 19 anos, peça perigosa que une velocidade e capacidade de finalização ao cortar por dentro. No comando do ataque, a escalação varia entre a mobilidade de Evann Guessand e a forte presença de área de Victor Boniface, ideal para fixar os defensores e aproveitar os cruzamentos.
A grande transformação desta Costa do Marfim de Emerse Faé é a quebra do clichê de que as seleções africanas dependem exclusivamente do vigor atlético. O grupo atingiu um equilíbrio entre força física e inteligência tática, sendo capaz de criar jogadas por baixo ou acionar ligações diretas do goleiro para os pontas. Essa evolução se reflete na defesa, que terminou as eliminatórias sem sofrer gols, consolidando um bloco compacto onde todos os atletas participam ativamente da marcação. Com um meio-campo dominante e atacantes agudos, a Costa do Marfim chega credenciada a surpreender os analistas e brigar no topo do grupo.
Grupo F: Holanda, Japão, Suécia e Tunísia.
A seleção dos Países Baixos desembarca no Mundial de 2026 disposta a cometer o que muitos tradicionalistas consideram uma verdadeira heresia contra a sua própria história futebolística. Conhecida historicamente pela beleza técnica de seus “artistas” e pelo apego ao futebol associativo, a Laranja passa por uma mutação contracultural drástica liderada por Ronald Koeman. O peso de carregar a maldição histórica de três finais de Copa perdidas (1974, 1978 e 2010) empurrou a equipe para um ponto de virada: cair com honra já não é suficiente. Em 2026, o ecossistema holandês foi tomado pelo pragmatismo, priorizando atletas fisicamente imponentes em detrimento dos antigos fantasistas. Trata-se de uma seleção focada na solidez defensiva, na velocidade transitória devastadora e na punição cirúrgica aos erros adversários com o menor número de passes possível.
Sem o peso do favoritismo absoluto, o elenco já não sofre com a falta de liderança e se sente extremamente confortável jogando de forma vertical. Taticamente, o sistema de base se desenha em um 4-3-3 clássico que herda a amplitude e a posse da escola tradicional, mas que transita com total naturalidade para um 4-2-3-1 mais seguro, sustentado por um duplo pivô no meio-campo. Dependendo das exigências e para espelhar adversários que atuam com defesas de cinco homens, Koeman não hesita em acionar variações para o 3-4-3 ou o 3-5-2. Em momentos de recomposição e replique defensivo, as linhas se fecham rapidamente em um compacto e rígido 4-4-2.
Na meta neerlandesa, Bart Verbruggen desponta com ligeira vantagem para assumir a titularidade, sofrendo a forte concorrência de Robin Roefs, enquanto Mark Flekken corre por fora na rotação. A primeira linha defensiva é um dos setores mais robustos do futebol mundial, marcada por uma assimetria evidente no desenho de Koeman. O lateral-direito Denzel Dumfries atua com total liberdade ofensiva, funcionando quase como um ponta e dando imensa profundidade ao corredor. Para compensar essa subida, a lateral esquerda é ocupada de forma mais recuada por um central de origem: o velocíssimo Mickey van de Ven assume a função, permitindo que a linha de quatro se transforme em uma zaga de três homens na fase de construção. O miolo da defesa é liderado pela imponência de Virgil van Dijk, que atua ao lado de Jurriën Timber — jogador que ganhou bastante rodagem no Arsenal atuando aberto. Nomes como Nathan Aké e Lutsharel Geertruida dão profundidade e segurança para o setor.
O quadrado central que se forma nas zonas intermediárias é o cérebro da equipe. Na base do meio-campo, Ryan Gravenberch consolidou-se como o primeiro volante de contenção e distribuição. Ao seu lado, Frenkie de Jong atua como o autêntico motor tático da *Oranje*; o meio-campista dita o ritmo da partida, recua entre os centrais para iniciar as jogadas e utiliza sua condução de bola característica para quebrar linhas de pressão e atrair marcadores. Na faixa central avançada, Tijjani Reinders atua como um meia-atacante de muita infiltração. Longe de ser um armador estático, Reinders destaca-se pelo vigor de box-to-box, e pela imensa quilometragem coberta, invadindo a área adversária como um elemento surpresa de forte poder de finalização.
A dinâmica do ataque é fluida e inteligente. Cody Gakpo assume a ponta esquerda com a missão de reter a bola, gerar desequilibrios e garantir presença física na área. Embora tenha um teto de projeção mais baixo do que o esperado no início da carreira, Gakpo consolidou-se como a peça mais confiável e letal de cara para o gol no setor ofensivo. Pelo lado direito, Donyell Malen joga cortando sistematicamente para o carril interior para atuar quase como um segundo dez. Essa movimentação abre o corredor para as subidas de Dumfries e gera superioridade numérica por dentro. No comando do ataque, Memphis Depay parte como o favorito por sua capacidade de flutuar, baixar para articular e abrir espaços para os pontas. Caso o contexto peça maior imposição física ou uma referência clássica para escorar cruzamentos, Brian Brobbey e o especialista Wout Weghorst surgem como cartadas valiosas no banco.
Além da verticalidade nas transições, os Países Baixos de 2026 são uma das seleções mais perigosas do planeta nas jogadas de bola parada. A presença de exímios cabeceadores como Van Dijk, Van de Ven, Timber e Gravenberch transforma escanteios, faltas e até arremessos laterais longos em chances claras de gol. Embora falte à atual geração um centroavante refinado nos moldes clássicos da escola holandesa, a equipe compensa com potência atlética, conduções agressivas e uma zaga de elite capaz de sustentar linhas altas sem medo de defender em campo aberto. É o fim da lírica em busca da glória máxima: uma Holanda madura, impositiva e pronta para competir no mais alto nível tático.
A seleção do Japão chega à Copa do Mundo de 2026 disposta a deixar definitivamente para trás o rótulo de mera surpresa ou de “animadora exótica” das competições. Sob o comando de Hajime Moriyasu, os Samurais Azuis se transformaram em um camaleão perfeito, amparados por uma sincronização coletiva quase indecifrável e um algoritmo tático letal. Se na Copa de 2022 a equipe já havia chocado o mundo ao bater gigantes com mínimos históricos de posse de bola, o modelo atual evoluiu para uma matriz híbrida de alta maturidade. O elenco, que antes se dividia entre a liga local e clubes europeus de segundo escalão, agora conta com atletas consolidados nos principais palcos do Velho Continente. Com uma saída de bola muito mais organizada, redução drástica de erros não forçados e evolução nos duelos físicos, o Japão viaja com a obrigação real de romper seu teto histórico no torneio.
Inserido no Grupo F, o laboratório tático de Moriyasu baseia-se em uma estrutura de extrema adaptabilidade, variando com fluidez entre o 3-4-2-1 e o 3-4-3. A grande virtude desse sistema é a versatilidade dos perfis, permitindo que jogadores atuem fora de suas posições originais sem que o rendimento coletivo caia. No gol, Zion Suzuki assume a responsabilidade de dar sentido à construção de jogadas desde a base defensiva. O trio de zaga conta com Shogo Taniguchi e Hiroki Ito ganhando espaço na titularidade, uma vez que pilares como Ko Itakura e Takehiro Tomiyasu iniciam o torneio cercados por dúvidas médicas e arrastando dores físicas que os impedem de estar 100%.
A dinâmica dos corredores externos é fundamental no jogo japonês e conta com os alas Yukinari Sugawara e Keito Nakamura — este último assumindo papel de destaque após a dolorosa e importante ausência de Kaoru Mitoma na convocação. O desenho da equipe é inteligentemente assimétrico: embora Nakamura e Ritsu Doan atuem abertos, eles funcionam muitas vezes como pontas avançados, enquanto Junya Ito e Takefusa Kubo, posicionados logo atrás do centroavante, cortam sistematicamente para o carril interno. Essa movimentação confunde as marcações adversárias e força os oponentes a se defenderem em amplitude, abrindo lacunas preciosas nas zonas intermediárias que são severamente castigadas pelos homens de segunda linha.
No coração do meio-campo, o duplo pivô ganha contornos de muita força e equilíbrio. Embora Daichi Kamada apareça como uma opção de perfil bastante ofensivo para ditar o ritmo e atacar espaços vazios, a sustentação de segurança é garantida por Ao Tanaka e pelo incansável Wataru Endo. Caso esteja em plenas condições físicas, Endo é uma peça de liderança e disciplina tática inegociável, funcionando como o verdadeiro maestro da orquestra sem a bola. Quando se instala no campo rival, o desenho japonês forma quase um losango ofensivo central entre Junya Ito, Kubo, Kamada e o centroavante Ayase Ueda. A pressão exercida não é caótica; o Japão deixa linhas de passe abertas de propósito para induzir o rival ao erro em zonas de asfixia pré-determinadas, engatando transições verticais e fugazes imediatamente após a recuperação.
Na referência do ataque, Ayase Ueda consolida-se como o titular absoluto. Embora o promissor dezenove anos, Yutaro Goto, surja no horizonte como um perfil de maior imposição física, o instinto de Ueda e sua facilidade para engatilhar chutes rápidos o tornam extremamente valioso. Seus números de gols muitas vezes não refletem sua utilidade tática, sendo um exímio fixador de zagueiros e gerador de espaços para a chegada de Kubo e Junya Ito. Takefusa Kubo, por sua vez, desponta como o motor criativo diferencial: um atleta elétrico no um contra um que, mesmo perdendo um pouco da velocidade pura de ponta, evoluiu para um autêntico e genial meia-armador na interpretação do último passe.
Diante de adversários de menor expressão, o Japão domina a posse sem dificuldades, mas o time não tem qualquer receio de abdicar do balão contra potências exigentes. Nesses cenários, a equipe recua em um bloco compacto de excelente recomposição, estruturando uma linha de cinco defensores muito nítida em um resiliente 5-4-1 que bloqueia as investidas rivais e prepara o bote para o contragolpe. Além da fluidez com a bola rolando, os Samurais Azuis adicionaram um repertório perigoso de jogadas de bola parada exaustivamente ensaiadas, incluindo arremessos laterais longos direcionados à grande área.
O Japão de 2026 é um Japão forte em todos os sentidos, e muito competitivo.
A seleção da Suécia passa por uma clara transformação tática, buscando se consolidar como uma equipe muito mais ousada e agressiva. Sob o comando de Graham Potter, a comissão técnica parece estar corrigindo os erros do passado e lapidando as deficiências coletivas. Estruturada a partir de uma linha com três zagueiros, a equipe demonstra muita inteligência na ocupação do último terço do campo. Essa postura promete transformar os suecos em uma das atrações mais interessantes neste novo formato de Copa do Mundo com 48 seleções.
Embora o coletivo chame a atenção, a Suécia também conta com ótimos talentos individuais. Na lousa tática, é fundamental compreender o papel dessas peças de referência e, principalmente, como Potter administrará suas principais estrelas. Enquanto nomes como Kulusevski ficaram de fora da lista, Alexander Isak foi convocado, embora ainda haja mistério sobre como ele se encaixará nesse contexto de Mundial — um torneio de tiro curto que costuma exigir justamente o poder de decisão individual que o atacante possui.
A vaga carimbada na repescagem elevou a autoconfiança do elenco, refletindo-se em um futebol mais criativo e vertical. A presença de atletas como Viktor Gyökeres, Benjamin Nygren e Anthony Elanga garante uma versatilidade preciosa ao setor ofensivo. A Suécia se apoia bastante no seu poder de fogo e na velocidade de suas transições, ganhando ainda mais oxigênio no meio-campo com promessas que vêm do banco de reservas, como o jovem Lucas Bergvall. O grande desafio de Potter será equilibrar esse ímpeto em um cenário de altíssima exigência, visando o mata-mata.
Em termos estruturais, a lousa de Graham Potter se destaca como uma das mais flexíveis da competição. O desenho inicial parte de um 3-4-2-1, mas frequentemente se altera para um 3-4-3 ofensivo. Nessa dinâmica, Nygren e Elanga dão profundidade ao ataque pelas pontas, enquanto os alas Svensson e Gudmundsson atuam bem espetados, alternando movimentos por fora ou por dentro para confundir a marcação.
Por outro lado, o calcanhar de Aquiles dessa proposta pode ser a transição defensiva. Apesar de flertar com variações mais conservadoras (como o 3-5-2 ou estruturas mais rígidas em 4-4-2 sem a bola), a Suécia se transforma totalmente na fase de posse. O time chega a se posicionar em um agressivo 2-3-5, a famosa pirâmide invertida, acumulando até cinco ou seis homens na linha de frente para sufocar o adversário.
No gol, a hierarquia está bem consolidada a favor de Nordfeldt, que oferece maior segurança e respaldo no momento. Já o setor de defesa gerou mais debates, mas a tendência é que Starfelt, Hien e Lindelöf formem o trio titular. Essa linha de três busca trazer mais imposição física e solidez para proteger a área e dar sustentação aos alas na recomposição, permitindo que o time se feche em um 5-4-1 ou 5-3-2 quando pressionado. Entre os defensores, Lindelöf se destaca pela liderança silenciosa, enquanto Hien e Starfelt trazem a bagagem de estarem habituados a esse sistema em seus clubes.
Nas alas, a ausência de Emil Holm por corte forçou adaptações. Svensson deve atuar improvisado com o pé trocado na direita, deixando o corredor esquerdo livre para as arrancadas de Gudmundsson. No meio-campo, Ayari e Karlström largam na frente como a dupla de volantes titulares, com Ayari funcionando como o motorzinho do setor. Contudo, a capacidade criativa de Lucas Bergvall pode cavar uma vaga entre os titulares, oferecendo passes mais refinados para municiar os pontas e meias de ligação.
Na frente, a grande questão é a minutagem de Alexander Isak. Com uma técnica refinada e repertório para atuar tanto por dentro quanto aberto, ele teoricamente faria uma dupla formidável com Gyökeres. No entanto, o encaixe de Elanga e Nygren parece ser a prioridade imediata do treinador. Quando o time decide atacar, os alas abrem o campo e Gyökeres cumpre o papel crucial de prender os zagueiros centrais, abrindo lacunas para as infiltrações em velocidade de seus companheiros no espaço entre o lateral e o zagueiro adversário.
O ponto forte da equipe é a sua marcação alta e por pressão, sufocando a saída de bola rival principalmente pelos lados e forçando o jogo para o meio, onde o funil sueco é mais denso. O problema surge quando essa primeira linha de pressão falha: em bloco baixo, o time se desgasta e expõe a fragilidade defensiva de seus alas. Nessas situações, a solução tem sido recuar as linhas e forçar o oponente a cruzar bolas na área, onde a estatura de Hien, Starfelt e Lindelöf prevalece.
A bola parada, inclusive, é outra arma letal da equipe, tanto para defender quanto para atacar. Na fase ofensiva, tudo gira em torno da potência de Viktor Gyökeres. O centroavante é um verdadeiro homem gol, e sempre incomoda os defensores rivais, e lidera o combate na pressão pós-perda. É o equilíbrio perfeito para o talento de Isak, que prefere receber em profundidade a jogar de costas para o gol.
A Suécia atual representa o triunfo do futebol vistoso e divertido sobre o pragmatismo. É uma seleção empolgante, que ataca em bloco e confia no talento de seus valores individuais, e pode surpreender e ir longe neste Mundial.
Tunísia
As Águias de Cartago chegam ao Mundial como uma das seleções mais chatas de se enfrentar. Conhecida como o “catenaccio africano”, a equipe consolidou sua fama na Copa do Mundo de 2022 ao parar ataques de grandes potências, e garantir empates sem gols contra seleções como França e Dinamarca. Agora, sob o comando do técnico franco-tunisiano La Mouchi, que substituiu Traoui, a seleção mantém a sua essência defensiva e o esforço coletivo intenso como principais argumentos competitivos.
A seleção belga chega à Copa do Mundo de 2026 com uma cara completamente renovada. A saída de Domenico Tedesco não parece ter sido apenas uma decisão esportiva, mas também um movimento estratégico para permitir o retorno de um dos maiores nomes da seleção: Thibaut Courtois.
Há uma discussão que inevitavelmente vai surgir quando se olha para o cenário do futebol africano: o Egito pode até ser, em termos de títulos continentais, uma das seleções mais dominantes do continente, mas ainda carrega um contraste quase paradoxal quando o palco é o maior de todos.
No discurso esportivo mais duro, quase implacável, há um dado que sempre reaparece: o Egito nunca venceu uma partida em Copas do Mundo. Nenhuma. Desde a sua estreia em 1934, a seleção egípcia não conseguiu transformar presença em resultado no cenário mundial. É uma espécie de tabu histórico que atravessa gerações e que, inevitavelmente, se transforma em obsessão à medida que se aproxima 2026.
E é justamente nesse contexto que a federação egípcia parece ter encerrado a era das apostas exóticas, das soluções importadas e dos projetos experimentais. O comando agora é interno, quase identitário. A equipe foi entregue a uma figura que simboliza resistência e pertencimento: Hossam Hassan.
Mais do que treinador, Hassan é uma referência histórica. Ídolo como jogador, artilheiro, agora líder técnico. Um perfil que mistura autoridade emocional com exigência quase militar. E ele chega com uma missão clara: reorganizar o teto competitivo de um time que sempre flerta com o potencial, mas raramente o transforma em ruptura.
No centro de tudo, como não poderia ser diferente, está Mohamed Salah. Talvez o maior jogador da história do país, vivendo o que pode ser seu último grande ciclo com a seleção. Um “last dance” carregado de simbolismo, responsabilidade e urgência.
A classificação para o Mundial veio com um tom diferente dos ciclos anteriores. Mais sólida, mais dominante, com a sensação de uma equipe que reencontrou um certo “instinto competitivo”. O Egito não apenas venceu jogos — ele impôs ritmo, controle e, em muitos momentos, intensidade física e agressiva.
Há uma mudança estrutural clara: menos estética, mais verticalidade. Menos construção lenta, mais transição direta. Um time que tenta encurtar o campo e acelerar decisões. E isso não é casual. É projeto.
Hassan desenha uma equipe que pode alternar entre um 4-3-3 mais elástico e um 4-2-3-1 como estrutura base. Em jogos grandes, especialmente contra seleções como Bélgica, a tendência é baixar linhas, compactar zonas centrais e explorar o erro adversário. Já diante de rivais mais acessíveis no grupo — como Nova Zelândia ou até mesmo uma seleção física e competitiva como Irã — o plano passa por acelerar transições e buscar profundidade.
O desenho defensivo também chama atenção. Não se trata de uma equipe que quer ter a bola a qualquer custo. Pelo contrário: o Egito aceita sofrer sem posse, mas não aceita desorganização. O bloco médio-baixo é a base do sistema. Curto, compacto, quase disciplinado em excesso.
A lógica é simples: recuperar e atacar em poucos toques. E nesse ponto, a seleção é perigosa. Com poucos jogadores, consegue gerar muito impacto. Salah como referência absoluta, mas com complementos importantes como Omar Marmoush, que oferece profundidade e explosão, e Emam Ashour, que surge como um cérebro criativo capaz de conectar meio e ataque com agressividade.
Há também espaço para variações, como o uso de Trézéguet em amplitude, oferecendo desequilíbrio pelo lado esquerdo, ou mesmo soluções mais conservadoras em jogos específicos. Outro ponto-chave está nas bolas paradas. Em seleções com limitações criativas em determinados contextos, esse tipo de recurso vira arma estratégica — e o Egito sabe explorar isso. Com qualidade de execução e presença física, torna-se uma via real de decisão.
O ponto central, porém, continua sendo o mesmo: tudo passa por Salah. Ele não é apenas finalizador, mas também catalisador. Atrai marcações, abre espaços, reorganiza estruturas defensivas adversárias. E, em torno dele, o time tenta se reorganizar para potencializar o restante.
O Egito de 2026 não parece mais o time travado, previsível ou excessivamente dependente de inspiração individual. É uma seleção mais agressiva, mais direta e, sobretudo, mais consciente das próprias limitações.
O desafio sociopolítico que a seleção do Irã enfrentará em território norte-americano durante a Copa do Mundo de 2026 não pode obscurecer uma realidade fundamental: estamos falando de uma das maiores potências do futebol asiático. Ainda assim, existe uma contradição difícil de ignorar. Em seis participações em Mundiais, os iranianos jamais conseguiram superar a fase de grupos. É justamente essa barreira histórica que a equipe tentará derrubar em 2026, em um contexto cercado por tensões geopolíticas e por uma pressão que vai muito além das quatro linhas.
A sensação é de que o Irã vive uma mudança de ciclo. O período marcado pelo pragmatismo extremo e pela postura excessivamente reativa parece ter ficado para trás. Sob o comando de Amir Ghalenoei, a seleção passou a buscar soluções mais ambiciosas sem abrir mão da solidez defensiva que sempre caracterizou o futebol iraniano. O resultado é uma equipe que continua difícil de enfrentar, mas que agora demonstra maior capacidade criativa e ofensiva.
A campanha nas Eliminatórias reforçou essa impressão. O Irã atravessou a classificação com autoridade, impondo seu ritmo e demonstrando um poder de decisão que poucas seleções asiáticas conseguiram igualar. Mesmo sem contar com Sardar Azmoun, durante anos a principal referência técnica da equipe, os iranianos encontraram novos protagonistas e consolidaram uma geração que já não vive apenas de promessas. Muitos dos jogadores que antes representavam o futuro agora assumem o presente da seleção.
No Grupo G, o cenário parece relativamente favorável. O confronto diante do Egito surge como o principal divisor de águas da campanha, enquanto a Nova Zelândia aparece, ao menos teoricamente, um degrau abaixo. Já a Bélgica continua sendo o grande parâmetro competitivo da chave. No papel, os europeus possuem mais talento e profundidade, mas o Irã reúne características suficientes para equilibrar esse duelo e transformar qualquer partida em uma batalha estratégica.
Taticamente, a equipe costuma partir de um 4-2-3-1 bastante flexível. Dependendo do adversário, o sistema pode facilmente se transformar em um 4-5-1 ou até mesmo em uma linha de cinco defensores. O objetivo é claro: reduzir espaços entre os setores, proteger a última linha e obrigar o adversário a circular a bola longe das zonas mais perigosas do campo.
No gol, Alireza Beiranvand continua sendo uma figura incontestável. Sua experiência, segurança sob as traves e capacidade de iniciar contra-ataques rapidamente fazem dele uma peça central no funcionamento coletivo da equipe. À frente dele, a defesa procura manter organização e disciplina, enquanto o meio-campo combina intensidade física com qualidade técnica através de jogadores como Saman Ghoddos e Saeid Ezatolahi.
Ghoddos, aliás, talvez seja o grande cérebro criativo da seleção. É dele que surgem muitas das conexões entre meio-campo e ataque. Sua visão de jogo, capacidade de encontrar espaços e qualidade nas bolas paradas oferecem ao Irã uma ferramenta valiosa em partidas equilibradas. Ao seu lado, Ezatolahi acrescenta força física, cobertura defensiva e equilíbrio posicional.
Mais à frente, Alireza Jahanbakhsh representa a experiência e a inteligência tática de quem acumulou anos de futebol europeu. Com o passar do tempo, deixou de ser apenas um ponta veloz para se transformar em um jogador mais associativo, capaz de participar da construção das jogadas e interpretar diferentes momentos da partida. Sua leitura de jogo tornou-se tão importante quanto sua capacidade técnica.
Mas a principal referência ofensiva continua sendo Mehdi Taremi. Sem Azmoun, o atacante assume ainda mais responsabilidades dentro da estrutura iraniana. Além de ser o principal finalizador da equipe, Taremi oferece mobilidade, jogo de costas para a defesa e capacidade para criar espaços para os companheiros. É um atacante completo, experiente e extremamente frio diante do gol. Sua influência vai muito além dos números.
Uma das características mais interessantes deste Irã está na maneira como administra os momentos sem a bola. Diferentemente de seleções que apostam em um bloco excessivamente baixo, os iranianos preferem defender em uma altura intermediária, mantendo a equipe compacta e pronta para pressionar quando surge a oportunidade. A ideia não é apenas sobreviver à pressão rival, mas criar as condições ideais para recuperar a posse e acelerar imediatamente.
Quando recupera a bola, a equipe costuma ser extremamente objetiva. Os extremos alternam movimentos por dentro e por fora, os meias aproximam-se rapidamente da área e Taremi oferece a referência necessária para concluir as jogadas. Não é um time que precisa de muitos passes para chegar ao gol adversário. Pelo contrário: sua força está justamente na velocidade com que transforma recuperação em ataque.
Por outro lado, existem limitações evidentes. Em ataques posicionais, quando precisa propor o jogo contra defesas fechadas, o Irã perde parte de sua eficiência. Falta fluidez na circulação da bola e sobram dificuldades para desmontar blocos muito compactos. É uma equipe que se sente mais confortável reagindo aos acontecimentos da partida do que assumindo completamente o protagonismo.
Nesse contexto, as bolas paradas ganham importância ainda maior. Escanteios, faltas laterais e cobranças próximas da área fazem parte do arsenal ofensivo iraniano. A equipe possui bons executores e jogadores fortes no jogo aéreo, transformando esse recurso em uma arma permanente.
Outro aspecto relevante é a experiência do elenco. Poucas seleções chegam ao Mundial com uma média de idade tão elevada. Embora isso possa levantar dúvidas sobre intensidade física em determinados momentos, também significa maturidade competitiva, liderança e capacidade para lidar com cenários adversos. Em torneios curtos, esse tipo de bagagem costuma ter valor considerável.
O Irã chega à Copa do Mundo cercado por desafios que ultrapassam o futebol. Ainda assim, dentro de campo, apresenta uma combinação interessante de organização defensiva, experiência e talento ofensivo. Talvez não seja uma seleção que encante pela estética, mas certamente possui recursos para incomodar qualquer adversário do grupo. E, pela primeira vez em muito tempo, existe a sensação de que superar a fase de grupos não é apenas um sonho distante, mas uma possibilidade concreta.
A Nova Zelândia garantiu sua vaga na Copa do Mundo apresentando uma evolução tática considerável. Embora o vigor físico e o jogo direto continuem sendo marcas registradas do futebol da Oceania, os “All Whites” chegam aos Estados Unidos com uma equipe muito mais organizada coletivamente e capaz de alternar ritmos de jogo.
Grupo I: França, Noruega, Senegal e Iraque.
França
A França chega à Copa do Mundo de 2026 como uma das grandes favoritas. Campeã do mundo em 2018 e vice de forma dramática contra a Argentina em 2022, a seleção esteve nas últimas duas finais e segue muito forte. Quando olhamos para o elenco, para a força do grupo e para o trabalho consolidado, não tem como tirá-la dessa lista. É claro que surpresas sempre podem acontecer — a própria França já protagonizou grandes decepções em copas neste século —, mas o fato é que ela entra certamente no topo entre as favoritas, impulsionada principalmente por sua imensa capacidade individual.
Senegal
A seleção de Senegal chega à Copa do Mundo de 2026 credenciada pelo título da Copa Africana de Nações conquistado em 2025 dentro das quatro linhas, ainda que a taça seja alvo de uma disputa jurídica nos tribunais da FIFA. Sob o comando de Pape Thiaw, que na histórica campanha do Mundial de 2002 deu a assistência para o gol da vitória sobre a então campeã França na partida de abertura, a equipe reencontra os franceses no Grupo I. O treinador tem implementado um processo de renovação geracional pautado na flexibilidade tática e em uma identidade mais jovem e veloz, transformando o estilo senegalês em um modelo focado em posses de bola dinâmicas, associações internas e liberdade ofensiva, com capacidade de alteração estrutural no decorrer das partidas.
A tendência para a competição é a manutenção do esquema 4-3-3 em detrimento de variações como o 4-4-2 ou o 4-2-3-1, as quais devem ser utilizadas pontualmente como ferramentas defensivas ou contra adversários de maior peso. A plataforma com três meio-campistas favorece a circulação fluida da bola e potencializa o rendimento dos pontas Ismaïla Sarr e Sadio Mané. Na meta, Edouard Mendy se consolida como o titular incontestável, enquanto a linha defensiva é liderada por Kalidou Koulibaly e Moussa Niakhaté na zaga. Nas laterais, o jovem El Hadji Malick Diouf assume papel de destaque na esquerda, enquanto o meio-campista de origem Krépin Diatta atua improvisado no lado direito.
O equilíbrio do meio-campo sustenta-se em uma trinca composta por Idrissa Gana Gueye, Pape Gueye e Lamine Camara, com Habib Diarra surgindo como alternativa imediata. Esse trio confere solidez para baixar no terreno e atrair a pressão rival, abrindo linhas de passe para os atacantes. No setor ofensivo, Nicolas Jackson fixa a zaga adversária e serve como referência física para reter lançamentos longos, enquanto Ismaïla Sarr garante profundidade e amplitude pelo flanco direito. A grande dinâmica do ataque se dá pela assimetria do posicionamento de Sadio Mané, que deixa o corredor esquerdo livre para as subidas de Malick Diouf e se projeta para dentro, operando na zona de três quartos como um legítimo segundo atacante.
O modelo de jogo de Pape Thiaw destaca-se pela transição camaleônica entre fases de posse curta e acelerações verticais com poucos passes, explorando a explosão de suas peças em velocidade. Diante de propostas ofensivas que sobem as linhas de marcação, a velocidade de recomposição e o vigor físico de Koulibaly tornam-se vitais para proteger o espaço nas costas da zaga. No banco de reservas, a presença de Iliman Ndiaye oferece um perfil de drible elétrico e criatividade em curto espaço, despontando como o herdeiro técnico natural de Mané, enquanto jovens como Sandiao e Amara Diouf acrescentam profundidade ao elenco para fazer frente a um grupo exigente, que conta ainda com a competitividade de Noruega e Iraque.
Noruega
A Noruega retorna aos Mundiais, encerrando um hiato que durava desde 1998. O trabalho de Ståle Solbakken m muitodestaque porque ele conseguiu romper essa barreira competitiva, transformando uma equipe historicamente associada ao jogo direto e físico em um coletivo muito mais refinado, que preza pela posse de bola, saídas sustentadas e passes curtos, sem perder o peso de suas individualidades.
Quando a gente olha para a prancheta tática, a estrutura base do 4-3-3 se desenha com uma fluidez muito interessante, alternando para um 4-2-3-1 que encorpa o meio-campo e dá um controle maior com a bola, além de oferecer um bloco médio bem compacto defensivamente. No gol, o Nyland se consolidou como o titular dessa engrenagem, protegido por uma linha de quatro que tem uma assimetria bem nítida. Pela direita, o Ryerson é um lateral de enorme imposição, que avança o tempo todo e dá uma profundidade absurda ao corredor, enquanto o Møller Wolfe, na esquerda, atua de forma mais contida, quase como um elemento de equilíbrio para estruturar a pressão pós-perda e não poluir o espaço do ponta. Na zaga, a escolha pelo Østigård ao lado do Ajer prioriza demais a agressividade e a soberania nos duelos por cima, embora a opção pelo Heggem fizesse muito sentido para quem busca uma saída de bola mais limpa com um zagueiro canhoto de origem.
O grande segredo para essa engrenagem funcionar na fase de construção passa diretamente pelo Sander Berge como esse primeiro homem de meio-campo. Ele tem a capacidade de recuar entre os zagueiros, gerando uma saída de três que liberta os laterais e abre o leque de opções. Ao lado dele, o Aursnes é o operário perfeito, um jogador de rara inteligência tática, que preenche espaços, dita o ritmo da circulação e ainda pisca na área como elemento surpresa, disputando essa influência com o ótimo Patrick Berg. E, claro, a grande referência técnica para clarear as jogadas no último terço é o Martin Ødegaard. Mesmo vindo de temporadas abaixo do seu teto estipulado no Arsenal, ele continua sendo a bússola criativa da equipe, o cara que inicia a pressão alta e tem o passe de ruptura para acionar o ataque, tendo no Jens Petter Hauge um reserva imediato de características bem particulares.
Na frente, o desenho ofensivo potencializa o que a Noruega tem de melhor, a começar pelo Antonio Nusa na esquerda, que é o único ponta agudo e de drible desse elenco, o cara responsável por alargar o campo e buscar o um contra um. Pelo outro lado, o Sørloth atua de maneira muito inteligente, abandonando a linha lateral para se aproximar do miolo da área como um segundo atacante, abrindo o corredor para as subidas do Ryerson e oferecendo uma alternativa de peso ao Oscar Bobb, que seria um ponta mais clássico de manutenção. Essa movimentação toda orbita ao redor do Erling Haaland, um centroavante de instinto letal e potência física avassaladora que castigou os adversários com dezesseis gols nas eliminatórias. O plano do Solbakken é brilhante justamente por mesclar esse jogo associativo por baixo com a capacidade de esticar a bola no Haaland para ganhar a segunda jogada, além de explorar os cruzamentos laterais, aproveitando que a Noruega ostenta a maior média de altura da competição.
No momento defensivo, o recuo para um 4-4-2 bem desenhado e estreito protege a equipe contra transições rápidas, deixando o Ødegaard na transição e o Haaland pronto para disparar no contragolpe em campo aberto. É uma seleção com repertório rico, argumentos táticos muito bem consolidados e que chega com credenciais legítimas para ser uma das grandes surpresas do torneio. O desafio de enfrentar potências como a França e o Senegal na fase de grupos é imenso, e vai exigir o máximo desse equilíbrio coletivo.
Iraque
A seleção do Iraque retorna à Copa do Mundo de 2026 após um longo hiato de 40 anos, sendo sua última participação em 1986, justamente no México, um dos países sedes da atual edição ao lado de Estados Unidos e Canadá. A vaga foi conquistada de forma contundente nas eliminatórias da Confederação Asiática de Futebol (AFC), um feito histórico que encerra décadas de frustrações em fases decisivas. Após enfrentar períodos severos de conflitos políticos, sanções e instabilidade interna que afetaram diretamente o desenvolvimento do esporte no país, os chamados Leões da Mesopotâmia demonstram uma maturidade competitiva inédita, impulsionada por uma reformulação profunda em seu elenco através da captação de atletas da diáspora iraquiana formados em ligas estruturadas da Suécia, Holanda e Alemanha.
Sorteada no Grupo I ao lado de potências como França, Senegal e Noruega, a equipe asiática enfrenta um cenário no qual todos os seus adversários apresentam superioridade técnica e física. O objetivo principal do Iraque se concentra em realizar uma campanha digna e competitiva, sabendo que avançar para a fase eliminatória configuraria uma surpresa de proporções globais. Para fazer frente a esse desafio, a comissão técnica tende a abandonar o sistema $4-2-3-1$ utilizado em compromissos recentes para adotar uma estrutura em $4-4-2$ extremamente compacta, priorizando um bloco de marcação baixo para negar espaços centrais ao oponente, estratégia que já foi colocada à prova em amistoso preparatório contra a Espanha.
A provável formação titular apresenta uma disputa na meta defensiva, onde Ahmed Basil desponta como o favorito devido ao ritmo recente e aos problemas físicos do capitão e experiente Jalal Hassan. A linha de quatro defensores deve contar com os zagueiros Sulaka e Zaid Tahseen, ladeados por Merchas Doski na esquerda e Hussein Ali na direita. Os laterais atuam de forma contida, aproximando-se dos defensores centrais para resguardar a área de meta e cobrir os setores interiores, enquanto a responsabilidade de vigiar os corredores externos e as subidas dos pontas adversários é transferida aos meio-campistas que atuam pelas faixas laterais.
No setor de meio-campo, a sustentação defensiva e o combate direto nas linhas de passe ficam a cargo de Amir Al-Ammari, que exerce a função de primeiro volante no futebol polonês. Ao seu lado na faixa central, Zidane Iqbal assume o papel de principal articulador e bússola criativa da equipe. Diante da perspectiva de pouca posse de bola durante as partidas, a eficiência de Iqbal na transição ofensiva será determinante para acionar os jogadores de lado, Youssef Amin e Ibrahim Bayesh, que se destacam pela velocidade e pelo sacrifício na recomposição defensiva.
O plano de ataque iraquiano baseia-se prioritariamente nas transições rápidas e na exploração dos contragolpes. Na linha de frente, Aymen Hussein atua como a referência posicional, utilizando sua força física no jogo de costas para a meta e no combate aéreo para reter a bola e gerar segundas jogadas. Essa característica complementa o estilo de Ali Al-Hamadi, atacante com experiência no futebol inglês pelo Luton Town, cuja principal virtude é a aceleração e a capacidade de romper nos espaços vazios deixados pelas defesas adiantadas. O maior risco tático para o Iraque reside na possibilidade de descompactação do bloco, caso o setor defensivo recue excessivamente e isole os atacantes, impedindo a ligação dos contra-ataques.
Diante das dificuldades previstas para a criação de jogadas em bola rola, a bola parada surge como um recurso indispensável para as ambições da equipe no torneio. Cobranças de faltas laterais e escanteios serão exaustivamente exploradas para buscar o cabeceio de atletas altos como o próprio centroavante Hussein e os zagueiros Tahseen e Sulaka. Construída sob uma perspectiva de resiliência e com clara noção de suas virtudes e limitações, a seleção do Iraque entra na competição sem a pressão dos holofotes, amparada pelo rigor tático e pela entrega física na tentativa de neutralizar os favoritos do grupo.
Grupo J: Argentina, Argélia, Áustria e Jordânia.
Argentina
A seleção da Argentina apresenta a atual campeã do mundo em uma posição de enorme prestígio, mas sob a intensa pressão de defender a sua coroa. O técnico Lionel Scaloni, que se consolidou como uma das mentes mais brilhantes e serenas do futebol internacional, comanda a Albiceleste em busca de um feito histórico que apenas Itália e Brasil conseguiram: conquistar o bicampeonato mundial consecutivo. Após passar por turbulências internas na federação local e questionamentos sobre o nível de seus amistosos preparatórios, a equipe chega à América do Norte com o foco totalmente renovado e sem espaço para acomodação.
A grande história da seleção continua orbitando o gênio incontestável de Lionel Messi, que estende sua lendária trajetória futebolística ao liderar o país em mais um Mundial. O camisa dez e capitão, embora cercado por cuidados físicos específicos para suportar a alta intensidade do torneio, permanece como a principal referência técnica, o líder espiritual do vestiário e o criador das jogadas mais decisivas. Scaloni montou uma estrutura tática, geralmente formatada em 4-4-2, que protege o craque defensivamente, e potencializa sua genialidade no ataque, garantindo que o envelhecimento natural do craque não diminua seu impacto avassalador em campo.
Argélia
De volta ao cenário mundial, as 'Raposas do Deserto' chegam sob o comando do técnico Vladimir Petkovic, com ótimas opções no elenco, como Riyad Mahrez, Bensebaini e Bentaleb. A Argélia está acostumada a ter grandes estreias. Sua primeira aparição em Copas do Mundo foi no Mundial da Espanha em 1982. Na ocasião, surpreenderam com uma vitória por 2 a 1 contra a Alemanha Ocidental, mas depois foram vítimas do que ficou conhecido como "o pacto de Gijón", um empate entre Alemanha e Áustria que deixou a Argélia de fora, impedindo a sua passagem da fase de grupos naquele mundial. Eles conseguiram superar essa primeira fase no Brasil em 2014, avançando para as oitavas de final, onde enfrentaram justamente a Alemanha e a deixaram contra as cordas por muitos minutos. Mas vamos focar no que é a Argélia neste Mundial de 2026 e no que ela nos oferece a nível futebolístico, que é muita coisa.
Falar da prancheta de Vladimir Petkovic é falar de uma seleção muito vertical, com transições velozes, com um jogo bastante relacional, muita troca de posições e muita liberdade, especialmente nas zonas criativas. Além disso, acho que Petkovic precisa perceber o que tem no banco de reservas. Vocês vão me entender conforme formos avançando, pois acredito que ele tem uma peça que pode ser muito útil para ir longe neste Mundial ou, pelo menos, aspirar a algo a mais.
Para começar, eu parto de um sistema base 4-2-3-1. Acontece um pouco como em outras seleções em que me dirão que normalmente jogam em um 4-3-3. É verdade, e poderíamos considerar que isso é um 4-3-3 com Bentaleb, Aouar e Boudaoui. No entanto, tenho a sensação de que se assemelha mais a um 4-2-3-1 pela capacidade que esta equipe tem de se transformar em um 4-4-2 em condições normais de defesa, ou em um 4-5-1 em fase defensiva. Com a bola, pode chegar a ser um 3-2-4-1, como veremos mais adiante. É uma equipe que tem muitíssima habilidade dentro do campo contrário, sobretudo quando tem a posse e realiza a transição ofensiva, desfrutando de muita liberdade nessa zona de ataque.
No campo adversário, a Argélia acumula muitos jogadores. É um time que prioriza bastante o equilíbrio, com certeza, mas quando vai ao ataque, vai com tudo. Analisando linha por linha, temos Anthony Mandrea no gol. Acredito que ele seja o goleiro com mais chances de jogar. É verdade que há Mustapha Zeghba, que me parece um goleiro com certas garantias, mas pelo rendimento recente, tenho a impressão de que Mandrea será o titular. Na linha defensiva de quatro, temos Kevin Van Den Kerkhof Guitoun pela direita, um jogador que entra justamente pela ausência dolorosa de Youcef Atal e assume a titularidade dando certo frescor àquela ala. Pela esquerda, Rayan Aït-Nouri é um nome fixo e importantíssimo. Na zaga, temos Aïssa Mandi e Ramy Bensebaini. Gosto muito desses dois zagueiros, principalmente porque Bensebaini tem muita experiência jogando como lateral, uma característica de perfil canhoto que lhe dá muita capacidade para sair jogando ou buscar o passe longo na ponta esquerda.
No meio-campo, vemos Nabil Bentaleb partindo mais como o primeiro volante ou jogador de contenção, embora ele tenha bastantes dúvidas físicas. Portanto, poderia surgir Ramiz Zerrouki, que tem muito peso nesse setor; um camisa 5 clássico, organizador e de contenção, bastante parecido com Bentaleb. Depois temos Hicham Boudaoui, um jogador que funciona muito bem nesse perfil misto como segundo volante. E temos, obviamente, Houssem Aouar, um atleta com muito talento e capacidade, mas que no momento está tirando a vaga de Ibrahim Maza. Esta é a questão que eu comentava: me dói na alma ver Ibrahim Maza não ser titular nesta equipe, porque acho que ele é um jogador com um talento incrível e deveria ser titular 100% das vezes, sabendo inclusive que Aouar poderia se encaixar em outras posições. O próprio Ibrahim Maza, mesmo longe da posição de meia-armador, funcionaria bem, como já vimos no Leverkusen em algumas ocasiões.
Pela ponta direita, temos Riyad Mahrez, um velho conhecido de todos. Temos também Mohamed Amoura, que parte mais como um centroavante, mas possui uma velocidade e uma capacidade com espaços que o obriga a começar pela ponta. E, claro, temos Amine Gouiri, um jogador que adoro jogando de costas para o gol e que agrega muito ao time. Esta é uma Argélia que busca sempre atacar com muitos jogadores. Há quatro que ficam literalmente muito expostos a nível ofensivo e, depois, as subidas tanto de Aït-Nouri por dentro quanto de Guitoun em profundidade dão ótimas opções ao ataque.
É preciso entender que a Argélia tem uma certa "alergia" à posse de bola, preferindo o jogo direto. É uma seleção muito projetada para a frente. Todos conhecemos a tendência de Mahrez de cortar para dentro, a possibilidade de Guitoun subir pela ala e Aït-Nouri se projetando muito para as zonas centrais, somando quase como mais um meia interno e aparecendo em zonas bem avançadas para finalizar. Enquanto isso, Amoura ataca muito os espaços, atuando quase como um complemento ofensivo para Gouiri, que é um jogador excelente para gerar segundas jogadas tanto para Aouar quanto para Aït-Nouri. A equipe vai se movimentar muito a partir de suas posições iniciais.
Além disso, é um time com facilidade para sustentar um recuo defensivo equilibrado, com um bom entendimento do posicionamento de cada um. Se Aït-Nouri entra por dentro, Bensebaini faz a cobertura na lateral esquerda. Raramente ele vai passar pelo companheiro, mas tem uma ótima leitura de espaço para cobrir as costas de Bentaleb, que fisicamente talvez não consiga responder a todas as necessidades de recomposição. Há uma linha de três defensores muito bem formada, com a presença de quase um duplo pivô entre Aït-Nouri e Boudaoui na gestão da bola. Eles se associam muito com Aouar, que por sua vez se conecta com Mahrez, contando ainda com o suporte de Guitoun na direita.
A equipe busca a presença de jogadores que abram bem o campo para dar liberdade ao pessoal de dentro para circular a bola com segurança. Sendo Amoura esse perfil duplo de ponta e jogador de área, ele acaba sendo o atleta mais exigido e com menos liberdade no futebol ofensivo, e ao mesmo tempo o que mais cria. Riyad Mahrez já se acostumou a jogar cortando para o meio, conseguindo muitos parceiros de associação como Aouar, que distribui o jogo. É aqui que Ibrahim Maza ganharia protagonismo, pois ele não seria apenas um ponta, mas um jogador que se associaria muito mais com esse triângulo central, manifestando mais perigo na zona de três quartos do campo. A Argélia recupera a bola com relativa facilidade e lança ataques velozes, tentando construir através da figura de Mahrez.
Percebe-se uma construção assimétrica bastante interessante, onde praticamente todo o jogo se move para o lado direito. O que buscam com isso é fazer o rival balançar em direção a essa posição para facilitar a infiltração de outros jogadores. Se Amoura entra por ali, a movimentação do time adversário sempre acompanha esse lado direito onde os argelinos estão se acumulando. Isso favorece um envio rápido de bola em diagonal para a área, atacando o lado fraco da defesa. Mahrez domina muito bem esse passe longo cruzado, buscando o companheiro mais livre, o que causa um grande dano aos oponentes. É uma tendência forte na Argélia de Petkovic: inclinar o jogo pela direita, mudar a orientação para a esquerda e definir.
No aspecto defensivo, eles se situam em um bloco médio-baixo para garantir que a equipe seja difícil de penetrar pelas zonas interiores. Isso facilita para que os jogadores mais rápidos fiquem livres para engatar um contra-ataque com garantias, com Bentaleb recuando às vezes como um terceiro zagueiro em uma linha de 5-4-1. Quando o time recua, ele convida o adversário a jogar pelas laterais para depois tentar roubar e atacar os espaços deixados, buscando um pivô como Gouiri para baixar as bolas e dar sequência à jogada rápida.
Essa projeção tão alta dos laterais e a subida dos zagueiros muitas vezes faz com que as costas da defesa sejam atacadas com facilidade. Quando qualquer seleção conseguir explorar as costas dos laterais da Argélia, certamente causará muitos problemas. Falando das figuras essenciais, o primeiro é Riyad Mahrez, o líder e a mente mestra indiscutível. Ele recua muito para iniciar as jogadas e obriga o adversário a modificar seu sistema. O segundo é Ibrahim Maza, que tem uma qualidade tremenda, sendo ágil e potente em corrida. Embora Petkovic não o venha escalando como titular, ele tem um talento puro. Também há Mohamed Amoura, dono de uma velocidade final letal, peça-chave para pressionar a saída de bola rival devido à sua intensidade física. Por fim, Aït-Nouri, como lateral invertido, cria um triângulo associativo muito interessante com Aouar e Mahrez, sendo muito perigoso chegando como elemento surpresa vindo de trás e finalizando na entrada da área.
Para entender o futuro desta seleção, precisamos ver como serão esses duelos diretos no Grupo, e se eles conseguirão surpreender as potências do grupo.
Áustria
A Áustria possui uma equipe extremamente organizada, com um futebol intenso, e comandada por um técnico extremamente competente, Ralf Rangnick. É esse conjunto que vamos desvendar melhor, porque vem construindo, sem alardes, uma estrutura sólida no cenário europeu.
O que mais chama a atenção é que ela não depende mais de uma única grande estrela para brilhar. Há alguns anos, costumava ter uma figura central, que concentrava todas as atenções e era a referência da criação de jogadas. Hoje, o futebol austríaco é muito mais coletivo. Essa mudança de perfil, discreta mas eficaz, permitiu que a equipe construísse uma imagem de seleção de perfil baixo, sim, mas com capacidade real de dominar o jogo e surpreender adversários de peso.
Para entender como ela funciona, vamos analisar primeiro a parte tática. O esquema principal costuma ser o 4-2-3-1, embora não seja uma fórmula rígida. Alguns podem questionar: se Kalajdzic, o atacante de referência, tem o hábito de recuar um pouco, por que não usar outro formato ou até um ataque com dois homens? É uma dúvida válida e existem outras opções, como o 4-4-2 ou o 4-2-2, mas a disposição adotada faz sentido. Colocar Kalajdzic mais à frente, com Gregoritsch ou Arnautovic como alternativas, evita sobreposições e cria espaço para o atacante buscar as jogadas mais centrais — o que, na prática, mantém o funcionamento como um 4-2-3-1 funcional.
No aspecto posicional, a Áustria tem uma característica marcante: abre muito o campo pelas laterais e muda constantemente de desenho durante a partida. Quando está atacando, um dos volantes recua para ficar entre os zagueiros, liberando alas como Posch e Alaba para subirem com força. Nesse momento, o time pode parecer um 5-2-3 ou até um 3-4-3. Já na defesa, a ordem é ficar compacta perto da linha central, pressionar alto e sufocar o adversário no seu próprio campo. Se não consegue recuperar a bola rapidamente, se fecha em um bloco médio ou baixo — e é aí que mora um detalhe: ela joga muito melhor quando tem iniciativa e atua no campo rival.
Na escalação, a escolha no gol é um ponto de análise. Alexander Schlager é o titular mais provável, embora Patrick Pentz também tenha méritos, especialmente pela boa campanha que fez na Eurocopa de 2024. Mas Schlager se encaixa melhor no que Rangnick quer: é um goleiro seguro com os pés, atrevido e fundamental para começar as jogadas de saída de bola.
Na defesa, a dupla principal é formada por Posch e David Alaba. A condição física do capitão, que já tem uma trajetória vitoriosa no futebol europeu, é algo a ficar de olho; se houver necessidade, Kevin Danso é quem entra para suprir a vaga. Mas, quando está bem, Alaba é insubstituível: comanda a linha, tem visão de jogo e dá muita segurança na construção das jogadas. Pela esquerda, Konrad Laimer atua mesmo não sendo um lateral de origem — e faz isso com muita competência. Se precisar de substituição, jogadores como Mühling podem entrar, com a vantagem de ter mais velocidade para atacar o espaço.
No meio-campo, temos a dupla de proteção formada por Seiwald e Laimer, que equilibra marcação e saída de bola. Mais à frente, Sabitzer e Baumgartner assumem a função de criar jogadas e levar perigo ao terço final do campo. É ali que passam os passes decisivos e onde se buscam os espaços para desequilibrar. O homem mais adiantado é Kalajdzic: um jogador alto, forte no ar, que funciona como uma espécie de elo entre o meio e o ataque. Não é o centroavante que só fica parado esperando a bola; ele chega de surpresa na área, deixando para veteranos como Arnautovic — o maior artilheiro da história da seleção, aos 37 anos — ou Gregoritsch a tarefa de segurar a defesa adversária e finalizar de cabeça.
O estilo de jogo dessa Áustria pode ser definido como um “caos controlado”, com semelhanças ao que vemos em seleções como a Argentina. Não tem a obrigação de manter a posse de bola por posse; o importante é progredir rapidamente. Passar para trás quase não faz parte do vocabulário tático. Cada recuperação de bola é um sinal para avançar com velocidade e ocupar os espaços vazios do adversário. Os laterais sobem muito, o meio-campo troca de posição constantemente e os jogadores se movimentam sem parar. Essa troca de funções é intencional: um pode ocupar o lugar do outro, confundindo a marcação e criando caminhos livres para chegar à área.
O grande trunfo de Rangnick é o chamado “contra-pressão”. A regra é simples e rigorosa: se perder a bola, tente recuperá-la em até 8 segundos. Se conseguir, finalize a jogada em até 10 segundos. Quanto mais perto da área adversária a bola for recuperada, menor o caminho para o gol e maior a chance de sucesso. Para que isso dê certo, o time todo precisa correr, se posicionar e trabalhar em conjunto — e é aí que a Áustria mostra sua força. Ela não tem os maiores nomes individuais do futebol mundial, mas compensa com o esforço coletivo. Não depende da inspiração de um craque isolado; cada um cumpre sua parte com disciplina e entrega.
Mas esse estilo também traz riscos. Para pressionar alto, o time deixa espaços na retaguarda, e o desgaste físico é enorme. Se não resolver a partida nos primeiros 60 minutos, a tendência é cair de rendimento no final. Isso pode ser um problema ainda maior na Copa do Mundo de 2026, com jogos em cidades dos Estados Unidos, Canadá e México, onde o calor do verão norte-americano vai exigir preparo físico acima da média.
Mesmo com essas limitações, a seleção tem peças de muita qualidade. David Alaba é o cérebro que organiza tudo desde a defesa. Schlager é mais um elemento para construir o jogo com segurança. Laimer, pela sua versatilidade, atua bem em várias posições e tem uma garra competitiva fora do comum. Sabitzer, mesmo que já não tenha o brilho de alguns anos atrás, continua sendo essencial para criar jogadas. E Kalajdzic, com seu estilo de jogo, complementa muito bem os outros atacantes, oferecendo opções diferentes na hora de finalizar.
Resumindo: essa é a Áustria que chega à Copa do Mundo de 2026. Uma equipe que não vai se impor por nomes famosos, mas por organização, intensidade e espírito coletivo. Pode ser uma das surpresas do torneio e, sem dúvida, será um adversário difícil para qualquer um no Grupo J — inclusive para a Argentina, atual campeã mundial, que vai ter de lidar com esse estilo de jogo agressivo e bem treinado.
Jordânia
Um Mundial com 48 seleções inevitavelmente abre espaço para histórias alternativas, e a Jordânia surge como uma das estreias mais curiosas da edição de 2026. Ocupando a 62ª posição no ranking da FIFA, a seleção asiática carimbou o passaporte inédito após liderar seu grupo na segunda fase das Eliminatórias, superando a Arábia Saudita, e avançar na etapa seguinte à frente de equipes mais tradicionais do continente, como Iraque e Omã, ficando atrás apenas da Coreia do Sul. Sob o comando do técnico Jamal Sellami, a Jordânia não apresenta uma coletividade brilhante com a bola, mas compensa com um pragmatismo defensivo muito bem delineado. Trata-se de uma equipe essencialmente reativa, que abdica voluntariamente da iniciativa do jogo — suas médias de posse de bola ficaram abaixo dos 40% mesmo contra adversários de menor expressão no cenário asiático.
O desenho base da equipe flutua entre o 3-4-3 e o 3-4-2-1, mutando para uma linha de cinco defensores no momento de transição defensiva. Na linha de defesa, Yazan Al-Arab atua como o líbero centralizado, ladeado por Abdallah Nasib na esquerda e Saad Al-Nadi na direita. Os alas, Ehsan Haddad e Mohammad Abu Taha, recuam com velocidade para compor um bloco baixo, priorizando o preenchimento dos espaços interiores para forçar o adversário a jogar pelos corredores laterais. Já a sustentação central do meio-campo é feita por uma dupla de volantes, normalmente composta por Noor Al-Rawabdeh e Rajaei Ayed, focados na proteção da área de rebote.
A grande perda estrutural para o torneio foi o atacante Yazan Al-Naimat, que rompeu o ligamento cruzado anterior durante a Copa Árabe. Ele era a principal referência ofensiva do time e, sem ele, Ali Olwan assume o comando do ataque, oferecendo um perfil de muita entrega física, pressão nos zagueiros e capacidade de retenção. O principal argumento competitivo da Jordânia passa a ser o contragolpe vertical. No cenário asiático, foi uma das seleções que mais gerou volume a partir de recuperações em bloco baixo. Quando retoma a posse, o time busca acionar rapidamente os lados do campo para projetar os alas ou os pontas, tentando criar situações de superioridade numérica na transição rápida. Na área, Olwan busca o confronto direto e o ataque ao espaço nas costas dos defensores centrais. Apesar do pouco volume ofensivo geral, a equipe mostrou eficiência nas Eliminatórias, anotando 32 gols ao longo das fases qualificatórias.
Um ponto que chama a atenção na análise estatística da equipe é a ambiguidade no comportamento das bolas paradas. O porte físico dos zagueiros jordanianos transforma as faltas laterais e escanteios a favor em uma arma perigosa de ataque. Paradoxalmente, o time apresenta dificuldades crônicas na defesa dessas mesmas situações, mostrando falhas de posicionamento e desatenção em bolas alçadas na própria área, algo que costuma cobrar um preço caro em torneios de tiro curto.
Individualmente, Musa Al-Tamari, jogador do Montpellier, é a grande referência técnica e criativa. Atuando com pé trocado pela ponta direita, ele oferece capacidade de desequilíbrio no um contra um, condução em velocidade nas transições e poder de finalização cortando para dentro. Na frente, além de Olwan, surge como alternativa o jovem Ibrahim Sabra, de 19 anos, uma peça de mobilidade para o segundo tempo caso o treinador precise alterar a estrutura para um 5-3-2. Atrás, Yazan Al-Arab se consolida como o pilar da resistência defensiva, destacando-se pela antecipação, imposição nos duelos individuais e por ser o elemento com melhor capacidade de passe longo para acionar as pontas a partir de trás. Sendo a equipe de menor repertório no papel dentro de um grupo que conta com Argentina, Áustria e Argélia, a Jordânia deve passar a maior parte do tempo defendendo em seu próprio campo, testando se sua disciplina sem a bola será suficiente para resistir e pontuar no torneio.
Grupo K: Portugal, Colômbia, República Democrática do Congo e Uzbequistão.
Grupo L: Inglaterra, Croácia, Gana e Panamá.
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