A seleção da África do Sul se apresenta nesta Copa do Mundo de 2026 após um hiato considerável. São 24 anos sem conseguir uma classificação dentro de campo — já que em 2010 a participação veio por direito de país-sede — e 16 anos longe do maior palco do futebol mundial. É um retorno pesado do ponto de vista nostálgico para quem se acostumou com o carisma dos Bafana Bafana.
No entanto, o ponto mais fascinante desse projeto comandado pelo experiente técnico belga Hugo Broos é a estrutura do time. A comissão técnica conseguiu replicar na seleção o ecossistema tático do clube mais dominante do país: o Mamelodi Sundowns. Um time que, embora ainda distante do grande público europeu, foi semifinalista da Champions Africana, esteve no Mundial de Clubes de 2025 e serve como a verdadeira espinha dorsal da seleção.
É impossível não olhar para o Grupo A desta Copa e não sentir o peso das coincidências históricas. A Coreia do Sul, adversária nesta chave, nos remete a 2002, a última Copa que os sul-africanos disputaram via Eliminatórias. E o reencontro com o México traz imediatamente à memória o jogo de abertura de 2010, aquele gol antológico do Siphiwe Tshabalala.
Agora, a história se repete, mas em solo mexicano. A África do Sul entra no grupo teoricamente como o "patinho feio", disputando espaço com a favorita Coreia do Sul (que tem teto competitivo alto, se resolver seus problemas de oscilação) e a sempre física República Tcheca de Jaroslav Šilhavý.
O grande mérito de Hugo Broos foi resgatar um conceito que andava em desuso no futebol moderno globalizado pós-Lei Bosman: o bloco de clube como base da seleção. Sete ou oito titulares absolutos convivem diariamente no Mamelodi Sundowns, time que foi muito bem moldado taticamente pelo português Miguel Cardoso (ex-Celta de Vigo). Isso acelera processos, traz automatismos e uma memória tática valiosíssima para torneios de tiro curto.
Embora no cenário local o Sundowns seja um time de posse asfixiante, Broos sabe equilibrar isso com muito pragmatismo no nível competitivo de uma Copa do Mundo. O time flerta com o 4-3-3, mas tende a se consolidar num 4-2-3-1 mais protegido, ou até mesmo numa linha de 5 atrás em momentos de forte pressão (5-4-1). A África do Sul não é um time que se sente desconfortável sem a bola. Broos implementou muito rigor no equilíbrio pós-perda e na compactação em bloco médio. O problema mora no desenho do 4-4-2 quando Mocoena fica sobrecarregado: se os zagueiros (Mokwena/Esnat) afundarem demais a linha defensiva, cria-se um espaço perigoso entre as linhas, um prato cheio para adversários com meias criativos.
A engrenagem começa lá atrás com Ronwen Williams, um goleiro muito seguro e fundamental para qualificar o início das jogadas. O time tem predileção por iniciar a construção pelo lado esquerdo com Modiba, buscando passes limpos para quebrar linhas por dentro.
Contudo, não há vergonha nenhuma em acionar o passe longo e direto. É aqui que entra a figura de Lyle Foster. O centroavante do Burnley (que fez boa Premier League apesar do rebaixamento da equipe para a Championship) tem ótima mobilidade, sabe jogar de pivô e é o alvo perfeito para sustentar a bola e acionar a chegada da segunda linha.
Teboho Mocoena é o verdadeiro termômetro do meio-campo. Atua como o "âncora", faz a leitura perfeita de coberturas quando Adams se lança ao ataque e pode até recuar entre os zagueiros para qualificar a saída de três. Oswwin Appollis e Elias Mokwana são pontas agudos, verticais, que garantem a profundidade pelos lados e pisam na área para finalizar quando o time acumula peças no setor ofensivo.
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